Um levantamento reúne 128 casos de rompimento registrados ao longo de 50 anos e alerta para riscos relacionados a arestas de rocha, mosquetões desgastados, sobrecarga e movimentação lateral
A corda é um dos principais elementos do sistema de proteção utilizado na escalada, no montanhismo e na escalada em gelo. Uma ruptura durante uma queda pode provocar consequências graves sendo o pesadelo de qualquer escalador.

Gráfico com resultados da pesquisa. Fonte: UIAA
Um relatório divulgado pela Federação Internacional de Escalada e Montanhismo (UIAA), produzido em colaboração com as comissões de segurança da Federação Norueguesa de Escalada (NKF/NCF), analisou as principais causas de ruptura de corda. No entanto, ele chama atenção para um risco que nem sempre é fácil de identificar: o corte da corda por contato com arestas afiadas.
Segundo o documento, entre 1969 e 2018 foram registrados 128 casos conhecidos de ruptura de cordas a partir de informações reunidas pelo Deutscher Alpenverein (DAV), pelo American Alpine Journal e outras fontes. O levantamento corresponde a uma média de pouco mais de dois rompimentos por ano ao longo do período analisado. Em 28% dos casos, entretanto, não havia informações suficientes para determinar a causa da ruptura.
Entre os casos em que foi possível identificar o motivo, o contato com objetos ou superfícies cortantes foi a principal causa, correspondendo a 48% dos registros. Em seguida aparecem queda de pedras, com 12%; contato com produtos químicos, com 9%; e calor, com 3%.
As chamadas “arestas afiadas” podem estar presentes na própria rocha, mas também em equipamentos metálicos desgastados. Mosquetões submetidos durante muito tempo ao atrito da corda podem desenvolver sulcos e bordas cortantes. Segundo o relatório, essas irregularidades nem sempre parecem perigosas ao toque, mas podem ser suficientes para danificar ou até cortar completamente uma corda submetida a uma carga elevada.

Corda completamente rompida. Foto: UIAA
O perigo está também no movimento da corda
O relatório destaca dois mecanismos principais envolvidos no corte de uma corda sobre uma aresta: as forças de corte tradicional e as forças de cisalhamento, onde os dois mecanismos podem atuar simultaneamente.
Quando uma corda tensionada entra em contato com uma aresta e se movimenta lateralmente sobre ela, o atrito pode fazer com que a superfície funcione de maneira semelhante a uma lâmina. Quanto maior a carga aplicada à corda, maior tende a ser a força exercida pela aresta.

Mosquetão com dano causado pelo atrito com a corda. Foto: UIAA.
Experimentos realizados no laboratório da fabricante Edelrid citados pelo relatório demonstraram a influência da carga. Quando a carga sobre a corda aumentou de 80 kg para 160 kg, a distância de deslizamento necessária para que ocorresse o corte foi reduzida para um quarto. O documento observa ainda que o diâmetro da corda apresenta alguma influência, mas que a carga aplicada tem um efeito muito maior.
Ou seja, uma corda pode estar em contato com uma aresta aparentemente pouco afiada e, ainda assim, tornar-se vulnerável quando submetida a uma queda, ou principalmente a movimentos laterais ou a uma carga elevada.
Sete acidentes analisados em detalhes
Além do levantamento histórico, o relatório apresenta sete casos de cortes de corda ocorridos na Noruega que não tiveram relação com queda de pedras, registrados ao longo de 21 anos. Felizmente, nenhum dos sete acidentes terminou em morte, mas alguns resultaram em quedas graves.
Em um dos casos, ocorrido em 2003 em Sunnmøre, uma corda de baixa elasticidade utilizada em uma tirolesa rompeu depois de sofrer repetidos movimentos contra a borda de uma polia. O atrito gerou calor suficiente para derreter a capa corda e atingir fibras do núcleo (alma) antes que a corda finalmente rompesse.

Nessa imagem é possível ver a alma da corda danificada. Foto: UIAA.
Outro acidente, em Hornaksla, também em 2003, envolveu uma queda controlada durante uma escalada. Um equipamento de proteção saiu de seu lugar e uma das cordas do conjunto de cordas duplas de 8,5 mm praticamente nova, sofreu atrito contra uma aresta. A corda foi cortada eo escalador caiu por cerca de 15 metros batendo a cabeça na parede.
Em 2008, em Vardø, uma queda provocou um movimento pendular que fez a corda passar duas ou três vezes sobre uma aresta. A movimentação lateral, combinada à força de corte, provocou a ruptura.
Já em 2021, em Jaklefoss, durante uma atividade de drytooling, uma das cordas duplas utilizadas pelo escalador entrou em atrito com uma aresta. Quando ele caiu, a corda se rompeu. A segunda corda do conjunto, porém, permaneceu intacta e evitou uma queda até o solo.
O caso mais recente descrito no relatório ocorreu em maio de 2023, em Staup, Voss. O caso ocorreu com um estudante durante um rapel, após a corda ser posicionada em uma aresta. A movimentação lateral da corda tensionada provocou um corte. O estudante caiu aproximadamente 12 metros e sofreu fratura na coluna, luxação da clavícula e lesão em um ligamento do joelho.
Duas cordas fizeram diferença
O relatório chama atenção para um aspecto que aparece em mais de um dos acidentes: o uso de sistemas redundantes.
Dois dos incidentes noruegueses ocorreram durante escaladas com cordas dupla. Em ambos, uma das cordas rompeu, mas a segunda evitou consequências potencialmente muito mais graves.
O documento também destaca que dois dos acidentes analisados aconteceram durante rapel supervisionado utilizando uma única corda fixa. A recomendação da comissão norueguesa é evitar esse procedimento e utilizar duas cordas ou uma corda dobrada, criando redundância no sistema. De acordo com o documento, além de aumentar a segurança caso uma das cordas seja cortada, o uso de duas cordas também reduz a carga individual sobre cada uma delas.
Outro fator de atenção é o movimento. Saltar durante o rapel ou balançar sobre a corda aumenta as forças envolvidas. O mesmo ocorre quando duas pessoas estão simultaneamente em uma corda durante exercícios de autorresgate, por exemplo.
Queda de pedras continua sendo um risco importante
O relatório também apresenta dados do banco de acidentes norueguês sobre 17 casos de cortes completos de cordas. Dez foram provocados por queda de pedras, cinco por atrito da corda contra objetos afiados, um envolveu uma combinação de corte e derretimento e um teve causa desconhecida.
Segundo o documento, a queda de pedras é a segunda principal causa de cortes de cordas registrados na Noruega.
Por isso, a prevenção começa antes mesmo da escalada. A recomendação é avaliar cuidadosamente agarras e apoios antes de agarrá-los e fazer escolhas criteriosas de rota. Para quem equipa vias, a orientação é realizar uma limpeza completa da parede e retirar blocos e agarras instáveis antes da abertura da via.
A posição das proteções também deve ser planejada levando em consideração o caminho que a corda fará durante uma eventual queda. Sempre que possível, a instalação deve evitar que a corda entre em contato com arestas.
Ainda não existe um teste oficial para resistência a arestas
Um dos pontos destacados pelo relatório é que atualmente não existe um teste formal que determine a resistência das cordas de escalada a cortes provocados por arestas afiadas.
A própria UIAA chegou a desenvolver um teste desse tipo. O procedimento foi utilizado voluntariamente entre 2002 e 2004, mas acabou sendo abandonado porque apresentou problemas de repetibilidade. Cordas idênticas podiam apresentar resultados diferentes em laboratórios (arestas) distintas.
Um dos principais problemas estava relacionado à dificuldade de reproduzir de maneira consistente uma “aresta afiada”. Embora seja matematicamente possível definir uma aresta de 90 graus, a superfície metálica utilizada no teste sofria alterações microscópicas a cada ensaio, modificando sua capacidade de cortar a corda. Além disso, esse teste também foi considerado pouco representativo das situações reais, especialmente aquelas envolvendo atrito lateral da corda sobre uma aresta.
No entanto, o relatório afirma que fabricantes de cordas continuam trabalhando para encontrar uma metodologia padronizada capaz de avaliar esse tipo de resistência.
Recomendações para reduzir o risco
Embora os casos de ruptura de cordas sejam considerados raros, há algumas recomendações que ajudam a reduzir esse risco.
A comissão de segurança norueguesa cita:
- evitar o uso de cordas simples fixas em rapel, dando preferência a duas cordas ou a uma corda dobrada;
- sempre verificar o local antes do rapel e evitar arestas afiadas;
- utilizar protetores de corda quando houver contato inevitável com arestas ou mesmo com a rocha;
- evitar saltos e movimentos de balanço durante o rapel;
- utilizar duas cordas em atividades de autorresgate nas quais haverá duas pessoas no mesmo sistema;
- verificar o estado dos mosquetões permanentes nas vias e substituir aqueles que apresentem desgaste ou sulcos;
- utilizar cordas duplas em escaladas de gelo, mistas, alpinas e em vias longas de montanha como medida adicional contra cortes provocados por pedras ou arestas;
- quando uma aresta for considerada perigosa, utilizar uma fita mais longa para afastar a corda dela;
- armazenar as cordas adequadamente e mantê-las longe de produtos químicos e ácidos, especialmente baterias;
- substituir cordas que apresentem desgaste visível ou, quando possível, retirar a parte danificada.
O relatório reforça, por fim, que uma corda desgastada é mais vulnerável a cortes do que uma corda nova. Por isso, além de conhecer os limites do equipamento, a inspeção constante e a escolha adequada do sistema de proteção continuam sendo fundamentais para reduzir o risco de uma ruptura durante a escalada.







