No sábado, 12 de setembro de 2026, enquanto eu guiava um pequeno grupo de clientes a aproximadamente 600 metros de altitude, na face leste do Morro do Cambirela, fui surpreendido pela chegada de um helicóptero AgustaWestland “Koala”, do Batalhão de Aviação da Polícia Militar de Santa Catarina. A aeronave surgiu repentinamente sobre nossas cabeças e permaneceu por quase cinco minutos em voo pairado junto à encosta enquanto um tripulante se preparava para descer de rapel. Sabendo que provavelmente alguém havia se acidentado um pouco mais acima de onde estávamos, perguntei, em tom de brincadeira para descontrair, se alguém do grupo havia pedido um helicóptero para chegar ao topo. Poucos minutos depois, chegamos a um pequeno platô de pedra justamente no momento em que o helicóptero se afastava da montanha, levando a vítima e o socorrista içados sobre o abismo. Parecia cena de um filme.

Registro do resgate com a utilização da aeronave. Foto: Silvio Adriani.
Próximo a mim, cinco jovens – três moças e dois rapazes – permaneciam sentados no chão sobre uma laje de pedra. Estavam visivelmente cansados e assustados. Aproximei-me e perguntei o que havia acontecido.
– Nosso guia machucou o tornozelo durante a subida, ainda de madrugada. Mesmo assim, conseguiu nos levar até o topo para vermos o nascer do sol. Na descida, porém, estava sentindo muita dor e insistimos para que pedisse apoio aéreo. O helicóptero chegou e o levou. Agora estamos esperando que ele volte para deixar um socorrista aqui conosco.
Precisei ser realista. Expliquei que dificilmente o helicóptero retornaria. Primeiro porque todos estavam fisicamente em condições de continuar a descida, segundo porque embora a aeronave tivesse capacidade para transportar aquelas pessoas, não havia local adequado para pouso naquele pequeno platô. Além disso, uma operação aérea de resgate envolve custos elevados, riscos e, sobretudo, a necessidade de manter a aeronave e sua tripulação disponíveis para outras emergências. Há ainda uma questão operacional importante: o socorrista multimissão especializado em operações em altura faz parte da tripulação. Deixá-lo durante horas na montanha acompanhando o grupo durante a descida poderia significar manter a tripulação desfalcada caso surgisse outra ocorrência.

Helicóptero com a vítima. Foto: Silvio Adriani
Mesmo assim decidi aguardar alguns minutos. O helicóptero, como imaginei, não retornou. Convidei então os cinco jovens a seguirem conosco até o alto da Escarpa da Bandeira, mas todos estavam muito cansados e abalados. Sugeri então que permanecessem naquele platô até o nosso retorno ou da possível chegada de uma equipe terrestre, alertando, porém, que isso poderia significar uma espera de três ou quatro horas. Diante dessa possibilidade, o grupo decidiu não esperar e iniciar a descida. Eu acreditava que, após a retirada do guia, a tripulação coordenaria o apoio de uma equipe terrestre para prestar socorro aos cinco integrantes que haviam permanecido na montanha. Antes de seguir morro acima com meu grupo perguntei se algum deles possuía experiência suficiente para assumir a liderança do grupo durante a descida.
A resposta foi unânime:
– Não!
Perguntei então se alguém possuía no celular algum aplicativo de navegação terrestre, como Wikiloc, Relive ou Strava. Um deles tinha o Strava instalado, mas se mostrou inseguro para utilizá-lo.
Sem mais alternativas, orientei o grupo a descer lentamente, seguindo atentamente as marcações do Caminho da Mata Atlântica pintadas nas árvores e pedras, além das fitas amarelas existentes em alguns pontos do percurso. Também forneci meu número de telefone e pedi que mantivessem contato periodicamente comigo durante a descida. Logo depois, entrei em contato com o guia Anísio, que vinha mais abaixo com seu próprio grupo e se encontrava próximo à chamada “Árvore do Abraço”, um dos trechos mais delicados da trilha. Pedi que auxiliasse os cinco jovens a transpor aquele ponto com segurança. E assim foi feito. Com a situação momentaneamente encaminhada, continuei a subida com meus clientes. Durante as horas seguintes, porém, comecei a receber mensagens do grupo:
10h35 – “Passamos pela Árvore do Abraço.”
11h05 – “Estamos com medo de descer sozinhos. Ligamos para os bombeiros e estamos esperando resposta.”
Pouco depois, chegou uma mensagem que me deixou preocupado:
11h27 – “Eles mandaram aguardar. Mas, pelo que entendi, não vão mandar ninguém.”
Fiquei surpreso. Independentemente das razões operacionais envolvidas, havia naquele momento cinco jovens cansados, assustados e sem o guia que os havia conduzido até ali. Eles próprios afirmavam não se sentir seguros para continuar sozinhos. Imaginei que os bombeiros não enviariam equipe de socorro terrestre porque eles sabiam que pelo menos dois guias experientes estavam na montanha, o Anísio e eu. Preocupado com a integridade física e mental do grupo isolado decidi agir. Entrei em contato com o grupo de condutores voluntários do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro e perguntei se alguém poderia, em caráter de urgência, subir o Cambirela para encontrar os jovens e acompanhá-los durante o restante da descida. Neste período, o guia acidentado fez contato comigo reforçando o pedido que eu auxiliasse o seu grupo. Tranquilizei-lhe afirmando que já estava tomando providencias.

Silvio Adriani e Anisio Júnior. Foto: Silvio Adriani
Às 11h46, o condutor voluntário Gabriel Zimmer Silva respondeu que estava saindo de casa e seguindo imediatamente para o Cambirela. Menos de uma hora depois, às 12h44, recebi uma nova mensagem de uma das garotas:
“O guia chegou!”
A rapidez da resposta impressionou. Gabriel, além de conhecer muito bem a região, possui excelente condicionamento físico e conseguiu alcançar o grupo em tempo extraordinariamente curto. A partir daquele momento, os cinco jovens já não estavam mais sozinhos. Quase três horas depois, todos haviam chegado em segurança às margens da BR-101 e logo estavam em casa.

Gabriel Zimmer Silva ajudou indo ao encontro do grupo. Foto: Arquivo Pessoal.
Entre o julgamento e a realidade da montanha
No dia seguinte, ao acompanhar a repercussão do resgate nas redes sociais, deparei-me com dezenas de comentários. Muitos deles feitos por pessoas que, aparentemente, desconhecem completamente a realidade do montanhismo. Alguns afirmavam que “só loucos” fariam uma trilha naquelas condições climáticas. Outros defendiam que o Estado deveria cobrar dos envolvidos o custo do resgate aéreo.
É evidente que existem pessoas irresponsáveis nas montanhas, assim como existem pessoas irresponsáveis nas estradas, no mar, nas praias, nos rios e em praticamente qualquer atividade humana. Mas generalizar é sempre perigoso. Naquele sábado havia pelo menos três grupos percorrendo o Cambirela, todos acompanhados por guias experientes, que haviam planejado suas atividades e consultado previamente as condições meteorológicas.
Além disso, todos os envolvidos estavam segurados. E, sim, as condições previstas para aquele dia eram compatíveis com a realização da atividade. Pratico montanhismo no Cambirela desde 1990. Já realizei mais de setenta subidas naquela montanha e conduzi centenas de pessoas por suas trilhas. Todas retornaram em segurança para suas casas e puderam contar suas próprias histórias. Mas experiência não significa imunidade.
A montanha nos ensina exatamente o contrário. O guia envolvido naquele episódio sofreu uma lesão no tornozelo durante a madrugada. Mesmo lesionado, conseguiu valentemente conduzir seu grupo até o topo para assistir ao nascer do sol honrando o seu compromisso com seus clientes, iniciando em seguida a descida.
Quando chegou a um platô onde seria possível realizar uma extração aérea, as dores já não lhe permitiam continuar com segurança. A decisão de solicitar socorro foi tomada ali. Isso não transforma automaticamente uma atividade planejada em irresponsabilidade. Acidentes acontecem. Um montanhista experiente pode escorregar. Um corredor pode sofrer uma queda. Um pescador pode enfrentar uma emergência no mar. Um motorista pode sofrer um acidente na estrada. Uma pessoa pode passar mal dentro de casa. É justamente para situações excepcionais como essas que existem os serviços públicos de emergência e salvamento.
Por isso, quando alguém defende que o resgate de montanhistas deveria ser cobrado, vale ampliar a reflexão: deveríamos aplicar o mesmo princípio ao motorista que provoca um acidente após uma imprudência? Ao motociclista que assume riscos desnecessários? Ao banhista que ignora uma bandeira de perigo? Ao pescador surpreendido por uma mudança repentina do tempo? Onde estabeleceríamos essa fronteira? Talvez a discussão mais importante não seja “quem deve pagar pelo resgate”, mas “como podemos reduzir a necessidade de resgates evitáveis”.
E aí entram planejamento, informação, equipamentos adequados, conhecimento da rota, avaliação meteorológica, preparo físico, navegação, comunicação e, principalmente, consciência dos próprios limites. Naquele sábado, cinco jovens ficaram sem a principal referência que possuíam para descer uma montanha que não conheciam suficientemente. Felizmente, uma pequena rede de solidariedade entrou em funcionamento. Um guia auxiliou o grupo em um trecho crítico; mantivemos contato por telefone; condutores voluntários foram acionados; e Gabriel subiu a montanha para encontrá-los e conduzi-los até a base com segurança.
No final, todos voltaram em segurança para casa. E talvez essa seja a maior reflexão deixada pelo episódio; a montanha não pergunta quantos anos de experiência temos, quantas vezes já estivemos ali ou quantos quilômetros somos capazes de caminhar. Um simples passo em falso pode transformar uma aventura cuidadosamente planejada em uma emergência. Por isso, experiência não deveria produzir arrogância, mas humildade. Planejamento não elimina o risco; apenas nos prepara melhor para enfrentá-lo. Também não deveríamos olhar para um helicóptero de resgate sobre uma montanha e imediatamente procurar culpados.
Antes de julgar, é preciso conhecer as circunstâncias, compreender as decisões tomadas e lembrar que, naquele momento, existem pessoas trabalhando para preservar aquilo que realmente importa: a vida humana. O helicóptero que vimos pairando sobre o Cambirela naquele sábado não era símbolo de fracasso. Era a demonstração de que, quando alguma coisa foge do planejado, conhecimento, treinamento, tecnologia, serviço público e solidariedade podem se encontrar no mesmo lugar. E naquele dia se encontraram a 600 metros de altitude, na encosta do icônico Cambirela. Porque conquistar uma montanha nunca significou apenas chegar ao topo. A verdadeira conquista é fazer com que todos voltem para casa em segurança. Talvez a principal lição nesta história seja compreender que, na montanha, segurança também significa autonomia. Um guia pode conhecer profundamente o caminho, estar preparado e possuir experiência, mas ele também está sujeito a sofrer um acidente. Por isso, mesmo em uma atividade guiada, é importante que os participantes conheçam minimamente como caminhar e se orientar em uma mata fechada, saibam utilizar os recursos básicos de navegação e entendam como agir diante de uma emergência. Naquele sábado a retirada do guia transformou cinco caminhantes em um grupo sem liderança, assustado e inseguro quanto ao caminho de volta. Felizmente, a mobilização voluntária permitiu que todos chegassem em segurança à base.
O que mais podemos aprender com base neste ocorrido?
- Escolha trilhas compatíveis com a sua experiência e o seu condicionamento físico. O Cambirela é uma montanha exigente, com trechos íngremes e passagens que podem intimidar pessoas sem experiência.
- Não concentre todo o conhecimento em uma única pessoa. Mesmo quando existe um guia ou condutor, é recomendável que pelo menos mais uma pessoa saiba reconhecer o caminho, utilizar o aplicativo de navegação e compreender o planejamento básico da atividade.
- Aprenda previamente a utilizar aplicativos de navegação. Não basta ter Wikiloc, Strava Relive ou outro aplicativo instalado. É preciso saber visualizar a rota, identificar a própria posição e, preferencialmente, ter o percurso disponível para consulta offline.
- Levar o celular carregado e preservar a bateria. Em atividades mais longas, um power bank pode ser um equipamento de segurança importante. O telefone pode ser fundamental para navegação, comunicação e acionamento de socorro.
- Informar alguém sobre o planejamento da atividade. Antes da saída, uma pessoa de confiança deve conhecer a trilha pretendida, ponto de início, número de participantes e horário aproximado de retorno.
- Estabelecer previamente um plano de emergência. O grupo deve saber o que fazer caso o responsável sofra um acidente: quem assume a liderança, quem solicita socorro, quem permanece com o ferido e como os demais integrantes serão conduzidos.
- Compreender que o resgate aéreo possui limitações. A presença de um helicóptero não significa necessariamente que todos os integrantes serão retirados da montanha. A prioridade é a vítima que necessita daquele recurso, e a operação depende das condições meteorológicas, características do terreno, capacidade da aeronave e critérios da equipe de resgate.
- Não contar previamente com resgate aéreo como solução para dificuldades na trilha. Helicópteros são recursos especializados de emergência. Pessoas que possuem condições físicas de caminhar podem precisar realizar a descida por meios próprios ou aguardar a equipe de socorro terrestre. Além disso, por questões operacionais, nem sempre as aeronaves estão disponíveis.
- Avaliar com cuidado a continuidade da atividade depois de uma lesão. Uma lesão aparentemente suportável durante a subida pode agravar-se e transformar a descida – normalmente mais exigente para tornozelos e joelhos – em uma situação de emergência.
- O horário de início também faz parte da segurança. Subidas durante a madrugada acrescentam fatores de risco, como baixa visibilidade, maior dificuldade de orientação e avaliação mais difícil do terreno.
- Conhecer e reconhecer a sinalização existente. Marcas oficiais, placas e outros elementos de orientação podem ser decisivos quando alguém perde a referência do caminho. Eles não substituem a navegação, mas funcionam como importante recurso complementar.
- Evitar que um grupo assustado se fragmente. Pessoas cansadas e inseguras tendem a tomar decisões precipitadas. O ideal é permanecerem juntas, estabelecerem um ritmo compatível com o integrante mais lento e manterem comunicação.
- Carregar um pequeno kit de emergência. Lanterna, agasalho, água, alimentação extra, primeiros socorros e proteção contra chuva podem transformar algumas horas inesperadas de espera em uma situação administrável.
- Aprender noções básicas de primeiros socorros. Em ambientes naturais, o atendimento especializado pode demorar. Saber proteger uma articulação lesionada, controlar sangramentos, evitar hipotermia e reconhecer sinais de gravidade é extremamente útil.
- Se um individuo inventar um acidente que gerou a suposta “emergência médica” para forçar o envio de um helicóptero, ela comete o crime previsto no artigo 340 do Código Penal Brasileiro. Pena: Detenção de 1 a 6 meses, ou multa. Além disso, como um helicóptero de resgate opera sob rígidas regras aeronáuticas, mobilizar uma aeronave civil ou militar sob falsos pretextos pode colocar em risco a segurança do próprio voo ou desviar recursos de uma emergência real. Se a mentira expor a aeronave ou a tripulação a perigo físico real, o indivíduo pode responder por esse crime. Pena: Reclusão de 2 a 5 anos.







