A desistência das equipes de fixação de cordas foi atribuída às condições meteorológicas e ao risco de avalanches, mas alpinistas de outras operadoras questionaram a decisão e levantaram suspeitas sobre possíveis interesses comerciais.
A temporada de outono de 2026 no Dhaulagiri, sétima montanha mais alta do mundo, com 8.167 metros de altitude, terminou sem ascensões ao cume e em meio a uma controvérsia envolvendo a interrupção da fixação de cordas na rota. A decisão de encerrar as tentativas foi justificada pelos responsáveis pelas expedições pelas condições de segurança na montanha, mas gerou críticas de alpinistas que aguardavam a oportunidade de avançar em direção ao cume.
O episódio ganhou repercussão depois que a equipe responsável pela instalação das cordas fixas interrompeu o trabalho acima do Campo 3 e iniciou a descida. Essa estrutura é fundamental em expedições comerciais no Himalaia, pois permite que os alpinistas avancem por trechos técnicos da montanha com o auxílio de cordas previamente instaladas.

Dhalaugiri visto de cima. Foro: Sergey Ashmarin / Wikimédia Commons
Alpinistas de outras operadoras ficaram frustrados com a decisão, uma vez que dependiam da continuidade do trabalho para tentar chegar ao cume. Entre os críticos estava o australiano Paul Clarke, cliente da 8K Expeditions, que questionou os motivos apresentados para a interrupção.
Clarke levantou a suspeita de que a desistência de clientes considerados VIP da Seven Summit Treks, empresa ligada à operação de fixação das cordas, teria influenciado a decisão de interromper o trabalho. Na avaliação dele, a ausência desses clientes poderia ter reduzido o interesse comercial em continuar financiando a abertura da rota para os demais grupos. Entretanto, essa hipótese não foi comprovada.
Segurança ou interesses comerciais?
Os responsáveis pela operação contestaram as críticas e afirmaram que a decisão foi motivada pelas condições encontradas na montanha. Entre os fatores apontados estavam a neve recente e instável, o aumento dos ventos e o risco de avalanches nas partes mais elevadas da rota.
Makalu Lakpa Sherpa, responsável pela equipe de fixação de cordas ligada à 14 Peaks Expeditions, alertou para o aumento do risco de avalanches de placas de neve. “Montanhismo não é só chegar ao cume. É sobre tomar decisões responsáveis, respeitar as montanhas e saber quando voltar atrás”, diz publicação da empresa.
Já Chhang Dawa Sherpa, diretor da Seven Summit Treks, argumentou que a janela meteorológica disponível era curta demais para uma tentativa de cume segura.
Em posicionamento divulgado posteriormente, a Seven Summit Treks também defendeu a interrupção das atividades, afirmando que as condições meteorológicas e a instabilidade da neve tornavam perigoso prosseguir. A empresa ressaltou que a decisão final de continuar ou interromper uma escalada deve priorizar a segurança dos alpinistas e dos profissionais envolvidos.
” As condições nas partes mais altas da montanha se mostraram mais severas do que o esperado. A combinação de ventos fortes e temperaturas muito baixas tornou as encostas superiores extremamente difíceis. Nossa equipe de fixação de cordas, diretamente exposta a essas condições, informou que havia se tornado inseguro continuar. Na Seven Summit Treks, seguimos um princípio claro, que chamamos de “Decisão do Guia”. Quando os guias na montanha avaliam a situação e consideram que já não é seguro prosseguir, têm autoridade para interromper a escalada”, informou a empresa em comunicado.
A empresa aponta ainda que o trabalho de fixação de cordas é feito por integrantes da equipe de forma voluntária e por isso colcoa a segurança do grupo em primeiro lugar. “As outras equipes continuam livres para fazer suas próprias avaliações e tomar suas próprias decisões. Nossa decisão não deve ser interpretada como uma decisão válida para todos os demais grupos na montanha”, completou a nota.
O próprio montanhista Paul Clarke postou em suas redes sociais que foi necessário cavar em volta das barracas no acampamento base após uma nevasca atingir a região e acumular mais de 2 metros de neve.

Postagem de Clarke mostrando o acampamento soterredo. Foto: Paul Clarke/@outdoorpirate
A divergência expôs um problema recorrente nas expedições comerciais de alta montanha: equipes de diferentes empresas podem depender da mesma infraestrutura para avançar. Embora cada operadora organize e comercialize seus próprios roteiros, a abertura de uma rota pode exigir cooperação entre grupos e equipes especializadas.
No caso do Dhaulagiri, a interrupção do trabalho afetou alpinistas que ainda pretendiam avaliar as condições e decidir posteriormente se tentariam o cume. Alguns críticos argumentaram que deveriam ter tido a oportunidade de fazer essa avaliação por conta própria. Os responsáveis pela operação, por outro lado, sustentaram que o cenário não oferecia condições adequadas para continuar.
Todas as tentativas foram encerradas
Com a interrupção da fixação das cordas e a deterioração das condições nas partes altas da montanha, as equipes comerciais abandonaram as tentativas de cume. Em 12/10, a temporada já era considerada encerrada, e os grupos da Seven Summit Treks, 8K Expeditions e 14 Peaks Expeditions desistiram de prosseguir.
O alpinista e esquiador polonês Andrzej Bargiel, que ainda mantinha uma tentativa independente, também acabou desistindo depois que os ventos impediram seu avanço para além do Campo 2.
O encerramento ocorreu sem que nenhum alpinista alcançasse o cume do Dhaulagiri nesta temporada. O episódio deixou em evidência não apenas os riscos objetivos de escalar uma montanha de mais de 8.000 metros, mas também a complexidade das relações entre operadoras, equipes de fixação de cordas e clientes em expedições comerciais.









