Evento levou uma das maiores fitas de highline da América Latina para o cenário urbano da cidade e reuniu atletas, moradores e profissionais de diferentes países.
Nos dias 19 e 20/09, São Bento do Sapucaí, no interior de São Paulo, tornou-se palco de uma das maiores linha de highline já realizadas no Brasil. Uma fita de 1.111 metros conectou o Morro do Cruzeiro ao heliponto da Pousada do Quilombo, tendo a Pedra do Baú como cenário. Considerada a terceira maior estrutura de highline do país, a iniciativa reuniu atletas, riggers, profissionais de audiovisual e produção do Brasil e do exterior.

Uma linha atravessando o céu da cidade de São Bento do Sapucaí. Foto: Federico averna
Mais do que uma travessia de longa distância, o projeto foi pensado para aproximar o esporte de montanha da população e inserir o highline no cotidiano de uma cidade conhecida pela relação com atividades outdoor. O resultado foi uma cena pouco comum: moradores acompanhando os atletas das ruas, casas, praças e estabelecimentos comerciais, enquanto uma fita atravessava o céu da cidade.
“Todo mundo olhando para o céu. Todo mundo com atenção, todo mundo feliz, com o sorriso na cara”, conta o fotógrafo e produtor esportivo Federico Taverna, responsável pela concepção e organização do projeto.
Um esporte para ser visto
A experiência chamou atenção não apenas pelo tamanho da linha, mas pela reação de quem estava embaixo. Para os atletas Erika Sedlacek e Federico Eder Zurcher, acostumados a realizar travessias em ambientes urbanos, a recepção em São Bento foi diferente de outras experiências.
“Eu comecei olhando para a lateral, com a vista para a cidade, e comecei a notar tantas cabeças olhando para cima”, conta Erika. Durante a travessia, ela percebeu moradores acompanhando o percurso de diferentes pontos.

Os atletas puderam ser observados de diferente pontos da cidade. Foto: Federico Taverna.
“Eu conseguia ver tantas pessoas e todo mundo gritando, celebrando, uma energia tão boa que eu não quis nem virar. Continuei minha travessia inteira de lateral para poder buscar mais pessoas e acompanhar mais pessoas.”
Segundo a atleta, a experiência foi diferente até mesmo de outras travessias urbanas realizadas em São Paulo. “Já caminhei fitas urbanas, inclusive no Vale do Anhangabaú, e eu não senti essa energia que eu senti em São Bento de Sapucaí.”

A atleta Erika pode iteragir com o público durante a travessia. Foto: Federico Taverna
Do alto, o atleta Federico Zurcher também ouviu crianças incentivando os highliners. “Elas falavam: ‘Você consegue, você consegue’. Em um momento eu tive que segurar um movimento da fita e eles falavam: ‘Segura, moço’.”
A reação da população também apareceu depois do evento. Erika conta que recebeu mensagens de moradores que estavam realizando atividades cotidianas e foram surpreendidos pela presença dos atletas no céu da cidade.
“Eu recebi muitas mensagens. ‘Saí para pendurar roupa e você estava cantando em cima de mim’, sabe? A pessoa está no seu dia a dia e foi impactada por um momento de arte e esporte juntos.”
A intenção, segundo os atletas, é voltar a São Bento para realizar atividades que aproximem ainda mais a modalidade da população.

Atleta cruzando o céu de São Bento do Sapucaí com a Pedra do Baú ao fundo. Foto: Federico Taverna.
Mais que uma fita
A escolha de São Bento do Sapucaí não foi casual. Taverna vive na cidade há quase sete anos e já tinha uma relação construída com a comunidade de montanhismo local. A ideia de criar uma grande estrutura de highline com a Pedra do Baú ao fundo surgiu durante uma observação aérea da região.
“Eu sentei aqui no heliponto e vi. Assim que surgiu mesmo. Vi do outro lado o outro morro e achei perfeito”, conta.

Equipe trabalhando na montangem da linha no heliponto. Foto: Federico Taverna
A proposta era aproveitar uma paisagem já associada aos esportes de montanha e, ao mesmo tempo, levar o highline para um ambiente no qual pudesse ser acompanhado por pessoas que não necessariamente têm contato com a modalidade.
O projeto também buscava estabelecer uma nova relação entre o esporte e a cidade. Segundo Taverna, experiências anteriores haviam deixado uma percepção negativa do highline entre parte da população local. Por isso, um dos objetivos era mostrar que grandes estruturas podem ser realizadas com planejamento, diálogo, segurança e participação da comunidade.
Para Federico Eder Zurcher, esse processo passa por uma mudança na forma como o esporte é apresentado.
“Não é só trazer a personalidade do esporte. É trazer educação, conscientização, segurança. É pensar o que a gente vai deixar para o lugar onde está e como vai abordar isso, para existir essa troca.”

Atleta passando atrás da tradicional placa com nome de rua em São Bento do Sapucaí. Foto: Federico Taverna.
O que existe por trás de 1.111 metros
Para quem observava da rua, a travessia era o momento mais visível de um processo que envolveu meses de preparação e uma complexa operação técnica.
A inspeção da estrutura ocorreu em maio. A partir dela, Taverna buscou o apoio da Associação de Esportes de Montanha Pedra do Baú (ASSEM) e iniciou a articulação com atletas, profissionais e poder público.
A parte técnica contou com a participação do engenheiro e atleta Jurandy Ferreira de Melo Junior, conhecido como Juras, que ajudou a estabelecer a comunicação entre as exigências técnicas da estrutura e os procedimentos necessários para a realização do evento.

Equipe trabalhando na montagem da linha. Foto: Federico Taverna
“Produzir um highline desse tamanho exige estudo, conhecimento técnico, experiência, equipamento e vontade de fazer acontecer”, explica Taverna.
A segurança também foi um dos principais pontos destacados por Erika Sedlacek e Federico Eder. Antes mesmo da montagem, a equipe elaborou diferentes planos de resgate para situações possíveis durante a travessia.
“A gente pensa em um plano de resgate antes mesmo de pensar na montagem do highline”, explica Federico. “A gente tinha vários planos de resgate diferentes: a pessoa consciente, a pessoa inconsciente, a pessoa no meio da fita, a pessoa nas extremidades.”
A estrutura montada em São Bento também utilizou, pela primeira vez no Brasil, segundo os atletas, um sistema conhecido como método de cortina. A técnica utiliza uma guia tensionada para auxiliar a passagem da fita durante a montagem, reduzindo o peso que precisa ser movimentado e permitindo uma operação com uma equipe menor. O processo contou com a participação de Vinicius Cauhy, atleta de slackline de São Paulo, formado em Ciências do Esporte e conhecido na comunidade como “o professor”, que teve papel importante na aplicação do método durante a montagem da estrutura.

Usando o sistema. Foto: Federico Taverna
A redução do número de pessoas, porém, não significa uma diminuição da exigência técnica. Pelo contrário. Segundo Federico, uma estrutura dessa magnitude exige profissionais ainda mais capacitados.
“Quanto menos pessoas você tem, mais técnica, mais conhecimento e mais capacidade você precisa ter.”
Uma travessia que também é mental
Os 1.111 metros não representam apenas uma distância física. Para os atletas, a extensão da fita modifica também a experiência mental da travessia.
“Um highline desse comprimento é mental. É um esporte quase 70% mental e depois físico”, afirma Federico.
Uma travessia de 1 km pode levar aproximadamente uma hora. Durante esse período, o atleta permanece sozinho sobre a fita, embora tenha equipes posicionadas nas extremidades e envolvidas nos procedimentos de segurança.

Atleta solitário realizando a travessia. Foto: Federico Taverna.
“Você fica lá em cima, sozinho, uma hora. É uma meditação ativa, na presença durante todo esse tempo”, explica.
A concentração começa antes mesmo de o atleta subir na fita. Em uma estrutura de grande extensão, qualquer mudança nas condições pode alterar completamente a operação.
Foi também por isso que a estrutura não permaneceu montada durante todo o período inicialmente previsto. A instabilidade climática reduziu a janela disponível para utilização da fita.
“Quem manda no tempo que a fita está no ar, na verdade, é o clima, não é a gente”, explica Federico.
Em uma estrutura de 1 km instalada sobre uma área urbana, a margem para assumir riscos é ainda menor. Abaixo da fita havia casas e parte da cidade, o que exigia atenção redobrada às condições meteorológicas.
“A gente prefere que tudo esteja em segurança do que todo mundo aproveitar”, resume o atleta.
Uma produção feita por várias mãos
O projeto foi realizado de maneira independente, sem o aporte de um grande patrocinador. Cerca de 20 pessoas participaram diretamente da produção, entre atletas, profissionais de montagem, audiovisual e organização. Muitos dos atletas chegaram ao Brasil vindos da Europa e de outros países da América Latina.
A estrutura também contou com apoio de marcas e, principalmente, de parceiros locais.
No lado privado, a Pousada do Quilombo teve participação fundamental desde o início. O estabelecimento apoiou o projeto desde sua concepção, recebeu parte da equipe e da estrutura e, segundo Taverna, pretende continuar envolvido nas próximas edições. A pousada deve apresentar novamente o projeto em conjunto com o produtor para uma próxima edição.
Comércios e estabelecimentos locais também participaram oferecendo alimentação, hospedagem e outros tipos de suporte. A realização foi complementada por uma campanha de financiamento coletivo destinada a ajudar a cobrir despesas de transporte, seguro e produção.
Para Taverna, esse modelo revela a capacidade de mobilização da própria comunidade do highline.
“Eu não fiz isso sozinho. Foi uma construção de várias pessoas, dos atletas, da equipe, dos parceiros e da cidade.”
Crianças, equilíbrio e uma possível porta de entrada
A aproximação com a população também abriu uma possibilidade que não estava restrita à grande fita de 1.111 metros: apresentar o slackline e os princípios de equilíbrio a novos públicos.
Por causa das condições climáticas e da janela reduzida para a realização do evento, uma atividade que previa levar o slackline para uma praça e permitir que moradores experimentassem a modalidade precisou ser adiada.
“Foi uma pena, porque eu acho que teria sido uma troca muito enriquecedora com a cidade, com as pessoas e com as crianças”, afirma Erika.
Ainda assim, os atletas perceberam que a experiência já havia despertado curiosidade entre os mais jovens. Depois de acompanhar as travessias, algumas crianças chegaram a improvisar atividades de equilíbrio com estruturas metálicas encontradas na cidade.
Para Erika, esse tipo de reação mostra como uma apresentação pontual pode despertar interesse pela modalidade.
“Eu acho que isso pode fomentar muito o esporte, a prática do equilíbrio no slackline e até poder trazer também para o highline.”
A ideia é retornar a São Bento para desenvolver atividades sociais e criar uma relação mais direta entre atletas e moradores.
Uma modalidade em transformação
Embora ainda seja pouco conhecida pelo público geral, a comunidade do highline vem crescendo no Brasil. Erika começou a praticar há cerca de oito anos e relata que, naquele momento, havia ainda menos praticantes.
“Hoje ainda somos poucos, mas já somos mais. O esporte está crescendo, está tendo um boom muito grande.”
A evolução também aparece na complexidade das estruturas. Para os atletas, a montagem de uma fita de 1.111m no Brasil demonstra que a comunidade passou a dominar sistemas mais sofisticados, estudar melhor as forças envolvidas e ampliar sua capacidade técnica.
Federico Eder, que é argentino, vive no Brasil e mantém contato com comunidades de highline de diferentes países, vê o cenário brasileiro com destaque.
“A comunidade brasileira está muito bem posicionada no mundo. Teve um crescimento nos últimos anos exponencialmente.”
Segundo ele, a evolução não está apenas nos recordes e competições, mas também em projetos sociais, escolas e iniciativas que levam o slackline para crianças e comunidades.
“Esse tipo de projeto mostra que a gente está realmente capacitado e em condições de fazer coisas maiores ainda.”
Uma porta aberta para a Mantiqueira
Para além da estrutura de 1.111 metros, o projeto deixou uma possibilidade para o futuro: transformar a experiência de São Bento em um modelo que possa ser reproduzido em outros pontos da Serra da Mantiqueira e em municípios com características semelhantes.
O Highline da Mantiqueira nasceu em São Bento do Sapucaí e, a partir da experiência realizada na cidade, pode ganhar novos capítulos em outros pontos da região. Para Taverna, a intenção é retornar e, posteriormente, levar a iniciativa para outros municípios.

Organizadores pretendem repetir o evento. Foto: Federico Taverna.
“Eu espero que no próximo ano a gente consiga chegar a outros municípios, levando nossa arte”, afirma.
A experiência também pode ajudar a criar caminhos para que futuras iniciativas de esportes de montanha tenham processos mais claros junto ao poder público. Taverna defende a criação de um manual que facilite a compreensão das exigências técnicas e burocráticas para produtores interessados em realizar projetos semelhantes.
O impacto, porém, não se resume à burocracia. A expectativa é que a experiência deixe uma relação mais próxima entre a cidade e o esporte.
Para Erika, o objetivo de futuras ações é justamente ampliar essa troca: não apenas fazer com que os moradores olhem para os atletas no alto, mas permitir que eles participem, experimentem e compreendam o que existe por trás da travessia.
“Não só ‘olha eles lá em cima’, senão que eles estão aqui com a gente. A gente quer essa troca com a cidade.”
Em São Bento do Sapucaí, essa troca começou com uma fita atravessando o céu. Por algumas horas, moradores pararam suas atividades para acompanhar os atletas, crianças descobriram novas formas de brincar com o equilíbrio e comerciantes, hospedagens, poder público e profissionais do esporte participaram de uma mesma iniciativa.
O projeto mostrou que, em uma modalidade na qual um atleta pode parecer estar sozinho sobre uma fita, existe uma estrutura muito maior sustentando cada passo e, neste caso, uma cidade inteira olhando para cima.







