Travessia da Serra do Ibitiraquirê

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Eu já conhecera a borda de alguns dos impérvios serranos na Alpha-Omega e na Farinha Seca, onde a passagem, árdua e dificultosa do corpo e da mochila pede benção e paga tributo de sangue à cada dezena de metro e faz refletir sobre a epopeia que foi a conquista daquelas estreitas veredas. Mesmo sob a proteção das roupas os espinhos e caraguatás lanham a carne. Em 2022, eu e o Douglas planejamos atravessar todo o maciço, entrando pela Fazenda Rio das Pedras e subindo, em sequência os muitos cumes que havia na espinha da serra. Premidos pelo tempo, havíamos acordado abrir mão do conjunto Ibiteruçu, para completar a travessia em 4 dias.

No primeiro dia, faríamos Guaricana, Ferreiro, Ferraria, Taipabuçu e Caratuva. acampando no A1. O segundo dia, teria como meta o acampamento Colina Verde, após o Siririca e contaria adicionalmente com os cumes do Itapiroca, Taquaripoca, Cerro Verde, Tucum, Camapuã, Camacuã, Lua, Luar, Ovos, Sirizinho, Siri e Baixo Siri. No terceiro dia, faríamos o “grosso” da Inter-Agudos, subindo o Agudo da Lontra, da Cotia, da Cuíca, da Marmosa e já no Circuito dos Pássaros, o Tangarim e o Tangará. acamparíamos na Garganta 235, para atacar no último dia o Corocoxós e o Araponga, antes de tocarmos embora para o Marco 22, através da trilha na encosta e vale, passando pelo Dique Diabásio e pelo Salto da Mãe Catira.

Dia por dia, as altimetrias e as quilometragens, observadas pelo viés paulista, não permitem aquilatar o nível desse desafio. Exceto por pouquíssimos grupos que ainda fazem pernadas exploratórias pela serra do mar paulista, arrisco dizer que nenhum outro ousaria fazê-lo. Não apenas as altimetrias são avantajadas como a progressão é muito dificultada pela vegetação, quase que impérvia e, sem dúvida alguma, bem espinescente.

C i e n t e d a e n o r m i d a d e q u e pretendíamos, em exíguo tempo, nos comprometemos a fazê-lo com cargueiras pequenas e compactas, no “leve possível” para aquelas bandas. Infelizmente, a pandemia de COVID-19 me alcançou, e, à despeito de ter tido uma evolução muito favorável, optamos por postergar os planos, por segurança. A temporada de montanha de 2023, nos trouxe algumas estrelas, permitindo que repetíssemos a Serra Fina Full, na “maior” caminhada que se consegue fazer por ali… subimos muitos picos, que em pouco mais de uma década de frequência, não chegam a contar com duas vintenas de assinaturas.

Montanhas ermas, inóspitas, longe de tudo e onde ainda se pode, mesmo num feriado de lotação da Serra Fina, passar muitas horas sem ver outro ser humano. Outra travessia que nos rendera muita satisfação foi concretizar uma travessia *inédita* ligando o bairro dos Marins até o Itaguaré, passando pelo Focinho de Cão, Mariana, Maria, Marins, Marinzinho e, finalmente, o próprio Itaguaré. Ali, num dos “berços” do montanhismo paulista, ainda se encontra condição de projetos autorais, e de ligações ainda não tentadas. Fizemos uma travessia muito aprazível (e sofrida) com o grupo dos Arcanjos, com direito ao galgar de uma raiz de vulcão, que se desmanchava sob nossos passos… como se fosse para valorizar, um descuido meu na navegação nos levara exatamente para a pior face da encosta. Sofremos. Suamos.

Felizmente, subimos e sorrimos. Passei um bom perrengue com quantidade insuficiente de água coletada. Nos metemos também na travessia Baependi-Aiuruoca, outro projeto dos Arcanjos, após vaticinarem que era “inviável/impossível” fazê-lo em apenas dois dias …. seguimos o forte ritmo da Amanda e o limite formal de 48 horas foi mais que suficiente para a travessia completa … 14:30, estávamos nos Garcia, saboreando trutas e quitutes mineiros. Bão demais da conta, sô. Esse é um relato que estou a dever. Logo retomo e quiçá concluo ele. Feito todo esse prelúdio encaremos a roubada da vez. Incomodado com o fato de preterirmos o conjunto Ibiteruçu, o Douglas propôs acrescermos mais um dia aos 4 que a emenda do feriado propiciava. Consultei a chefia e, negociada a folga, topei o adicional de metros e dores que o dia extra permitiria. Refiz o planejamento, redistribuindo na medida do possível os cumes ao longo dos dias disponíveis.

Arrumei a mochila, tendo o cuidado de escolher uma barraca autoportante e idêntica à do Douglas, o que permitiria que dividíssemos as tarefas quando chegássemos aos pontos de acampamento. Com um adiantando o rango enquanto o outro tratava de preparar os abrigos. Depois de conseguir queimaduras solares ao ponto da pele sangrar durante as 75 horas corridas da SFF, nos policiaríamos mutuamente para usar o protetor solar e não apenas carregá-lo, como é nosso inadequado costume.

O começo de junho nos prometia uma janela perfeita, de 5 dias de céu azul, antes que uma frente fria chegasse na segunda, mudando tudo. Calejados pela travessia da Farinha Seca, eu decidira por manter uma garrafa térmica com bebidas quentes, caso precisássemos andar na chuva. A perspectiva de alguma das cordas fixas que existem nas encostas ter sido removida, ou um eventual cruzo de rio com condição menos favorável nos fez optar por levar 10 m de fita. Tanto a garrafa térmica, quanto a fita seriam minhas “Cruzes” do rolê, somando ao menos 1 quilo de inutilidade na cargueira.

Como não faríamos parada para almoço, tratamos de incrementar bem os lanches de trilha, de forma a termos o que mastigar quase que todo o tempo. Com essa estratégia, ganha-se mais de uma hora de caminhada e, evita-se a concorrência no gasto calórico entre a digestão e o subir de montanha. Faríamos refeições mais substâncias à noite, antes de dormir e procuraríamos manter a disciplina de cuidar dos pés e do corpo, a cada acampamento. Na terça, 17:15 peguei o ônibus em santos com destino à Curitiba, onde o Douglas tinha previsão de chegar às 23 h e me aguardaria. Marcamos o transfer para meia noite, com a pretensão de entrarmos na trilha à uma da madrugada. Sem pressa, acreditávamos que veríamos o nascer do sol já próximo do cume do Ferreiro.

Dia 1

No planejamento, é mole, é fácil, é lindo… na realidade, algum acidente atrasou tanto a mim quanto ao Douglas e fizemos o registro no IAP com 1,5 h de atraso, às duas e meia da madrugada. Como a coisa sempre pode piorar, erramos o caminho, dando uma longa volta antes de voltar até a entrada da fazenda Rio das Pedras, e consternados em acordar o responsável, pedimos informações.

Com as explicações, voltamos a tentar e 4:50 alcançamos o primeiro portão metálico que marcava a entrada na trilha, na divisa entre as duas propriedades vizinhas. Dali, tocamos pelo Picadão do Cristóvão até o cruzo para a subida ao Guaricana. Nesse ponto, deixamos as cargueiras à beira da trilha e tocamos para cima com a expectativa de fazermos um rápido ataque. Ledo engano. Apesar de ser o primeiro cume da travessia, consumimos 1,5 h na subida. Ao descermos, decidimos por pegar as garrafas d’água para coletarmos o precioso líquido. Com isso, consumimos duas horas entre descer do cume até o cruzo, coletar água e retornar ao cruzo. Saberíamos depois, que não teria sido necessário, pois cruzaríamos diversos pontos de água logo adiante. Com a água coletada, partimos do cruzo Guaricana às 9h50 e, passando pela rede e l é t r i c a a é r e a e depois pela simpática c a c h o e i r i n h a , alcançamos o cume do Ferreiro às 11h40.

Fizemos uma rápida parada e seguimos em direção ao Ferraria, acumeado às 13:50. Com o atraso criado pelo nossos erros de navegação na madrugada, tínhamos procuramos fazer paradas bem rápidas, apenas para registros nos livros e alguns cliques. Partimos rapidamente para o Taipabuçu, nosso penúltimo cume do dia. A descida do Ferraria foi bastante morosa pela inclinação e quantidade de raizes a ser vencida. Alcançamos o Taipabuçu às 16h45 e tendo deixado os devidos registros no livro de cume, que estava em excelente condições, diga-se de passagem. Depois, pelo Facebook, eu saberia que pouco dias após a nossa passagem, algum vândalo o queimara. Felizmente, o Clube Paranaense de Montanhismo, faria a reposição com brevidade.

Grande e importante trabalho que esse pessoal desempenha na manutenção e guarda dos livros de diversos cumes ali no Paraná. Com os registros feitos descemos o Taipabuçu em direção ao colo com o Caratuva e a trilha que passa por aquela crista. Alcançamos o cume do Caratuva às 19h e, após um curto descanso para verificar eventual disponibilidade de sinal de celular/internet descemos pela Trilha da Conquista, em direção ao A1, alcançado 20h30. Montamos acampamento, subimos alguns metros para resgatarmos os mantimentos que haviam sido previamente enterrados lá. Retornamos ao acampamento e fiquei preparando nosso jantar enquanto o Douglas descia para buscar água para o café e os os ataques do dia seguinte. Com tudo preparado, nos recolhemos para dormir 22h30, com previsão de sairmos às 05h para vermos o sol nascer no PP antes de seguir para os demais ataques ao conjunto.O receio de pegarmos trânsito nas ferratas nos fez antecipar a saída para 04h30, decisão que se mostraria acertada.

Dia 2

Partimos no horário previsto, com alguns lanches de trilha, localizador via satélite, celulares, 1 litro de água pra cada um, lanches de trilha e uma blusa seca nas mochilas de ataque. Eu levava comigo um poncho de emergência, aluminizado, que se mostraria precioso companheiro na empreitada. Apesar do intenso trânsito, a habitual gentileza de montanha nos permitiu ultrapassar diversos grupos que seguiam em passo menos célere, e cerca de 6h30 alcançamos o cume do PP.

Ali, retirei a blusão molhada pelo orvalho da vegetação, vesti a blusa seca e me enfiei sob o poncho, tentando manter minha temperatura. Felizmente, não havíamos apressado por demais o passo, e, o arrebol do dia que nascia prenunciava mais um dia de intenso calor, acompanhado de noite gélida. Pouco depois do nascer do sol, iniciamos a descida ao Tupipiá, uma decida quase que à prumo, segurando na vegetação para não despencar nos imensos degraus formados pela erosão e raízes. Na descida, minha garrafa de água, com preciosos 1000 ml de hidratação soltou-se do bolso da calça e desapareceu rolando pela escarpa. Engolimos em seco e continuamos a descer, na esperança recompensada de que ela estivesse de alguma forma recuperável.

Apesar de recuperarmos a garrafa, intacta, uns 40 m abaixo de o de ela se soltou, percebemos que uma coisa simples, como a ruptura/trinca de uma tampa de garrafa poderia prejudicar nossa travessia. Deixamos combinado de coletarmos alguma garrafa no lixo deixado lá no cume do PP por trilheiros ineptos, descuidados e relaxados com o meio ambiente que apregoam tanto curtir. Por vezes, o lixo de uns se torna o tesouro de outros…

Terminamos a descida até o colo PP/Tupipiá e iniciamos uma célere subida para o cume. Alcançamos a caixa de cume, na face voltada para os Camelos/Taquaripoca às 8h30, ficamos algum tempo apreciando o visual dos arredores a partir de um cume inédito pra nós, fizemos os devidos registros no livro de cume (impecável) que o CPM mantém ali é tratamos de retomar montanha acima, alçando novamente o cume do PP às 10h05. Dali seguimos para a dupla União e Ibitirati, onde deixamos breve registro da passagem às 10h50 e iniciamos o retorno ao PP, alcançado às 12h. Ficamos um tempo no cume antes de descer até o A2 e, virando à esquerda seguirmos para o Camelos. Alcançamos esse cume 13h30. Foi muito legal observar o registro da minha passagem anterior ali, junto com a Amanda Mascaro, no “distante” julho de 2021.

O livro se encontrava em boas condições, apesar de já bem mais avançado no uso das páginas.

Feitos os registros, apreciado o impactante visual da face quase que vertical do PP e os paredões imensos do Tupipiá tratamos d e r e t o m a r a c a m i n h a , a l c a n ç a n d o o acampamento as 14h20. Rapidamente arrumamos as tralhas e seguimos para a derradeira tríade do dia: Itapiroca (17h50), Taquaripoca (20h53 – livro destruído pela má guarda que o expos às chuvas – reposto em 25/06, quando voltei ali com a Amanda e o pessoal mais forte dos Arcanjos) e Cerro Verde, onde acampamos às 22h20. Ali encontraríamos, com o nascer do dia seguinte, os amigos Brenon e Allan, velhos conhecidos do Douglas de uma das primeiras SFF quando acampamos no bosque ao pé do Três Estados. Jantamos rapidamente e perto das 23h já estávamos recolhidos.

Dia 3

Dia de alvorada tardia, que cobraria seu preço no acampar quase que na madrugada, no Colina Verde. Um rápido café da manhã, tralhas arrumadas e seguimos para o cruzo Tucum, onde deixaríamos as cargueiras para seguir, de ataque, ao Tucum e Camapuã. Subimos em ritmo mais forte, tentando recuperar um pouco do acordar mais tarde, passamos direto pelo Tucum para cumear o Camapuã, que infelizmente, estava desprovido de livro. Retornamos ao Tucum, registrando a passagem às 10h40. Fizemos uma pequena síntese do executado, sem porém apontar nosso destino de acampamento. Omissão grave, em caso de intercorrência que exigisse buscas. Felizmente, sem maiores consequências, já que tudo transcorreu como previsto.

Optamos por não ir ao Pedra Branca e ao Camacuã, frente ao que ainda precisaríamos andar antes da parada noturna. Retomamos as cargueiras e seguimos, sem ataques extras, em direção ao Siririca. Encontramos a Daniele, que trilhava sozinha, depois de ter subido o Siririca com o Claudio Macedo, que em breve se somaria à nos na pernada mais forte e exigente que já tive o prazer de me arrastar (a AC). Também encontramos a Fabiana e o Éverton, que completará há pouco a Alpha Crucis e que encontrávamos registros do feito em vários livros de cume. No caminho, passamos pela sequência de cumes do Lua, Luar, Siri, Sirizinho …. apesar de passarmos ao lado do Ovos de Dinossauro, optamos por não cumeá-lo para ganharmos alguns poucos, mas preciosos, minutos.

Alcançamos o Siririca 18:30, já sob a luz das lanternas. Fizemos uma parada para resgatar os mantimentos levados previamente pelo Douglas com a p re s t i m o s a a j u d a d o s a m i g o s Guilherme e Éverton (conferir), antes de reencontrar a trupe do Breno e do Allan (insta do grupo/pessoal), que nos contaram um “causo” que se tornaria mote dos dois dias subsequentes… nas palavras do Allan: “Chegamos no meio da tarde ao Siririca e após montarmos as barracas para acampamento, fomos observar o ponto em que vcs haviam comentado que pretendiam pernoitar, o Colina Verde, lá bem adiante do Siririca. Uma moça, que não conhecíamos, ouvindo nossa conversa, se manifestou:

⁃ ah, seus amigos estão pretendendo terminar domingo, eles não vão passar no rio. A gente ia fazer essa travessia e desistimos por causa da chuva. Brincando, eu disse que meus amigos passariam. Ela replicou: ⁃ não passa lá no rio, ele enche. Na mesma toada da brincadeira, eu voltei a afirmar que meus amigos passariam.

Ela, cheia de si voltou a insistir:

⁃ não passa, você não conhece o rio!! Eu arrematei com “e você não conhece os meus amigos!!!” e demos muita risada, kkkkk” Apesar de todo o estudo prévio do clima, em diversos sites e avaliando diferentes modelos numéricos, sabíamos que previsão é isso… incerteza, maior ou menor, mas incertezas… aproveitamos o pouco e intermitente sinal de celular e pedimos atualização da previsão climática aos amigos na civilização e tratamos de solicitar (e registrar) previsões climáticas via comunicador por satélite, que utiliza um modelo climático específico.

Apesar de não termos as melhores condições de avalizar o grau de acurácia da informação metereológica fornecida pelo IReach mini da Garmin, tínhamos a esperança de conseguir “extrapolar” as informações, utilizando a tendência da previsões como balizador para o que ocorreria de fato. Ficamos ainda uns minutos batendo papo antes de registrarmos a passagem pelo livro de cume e iniciarmos a descida do Siririca, agora em direção ao nosso acampamento. Tínhamos esperança de que o Will se somasse a nos, assim como o Guilherme… uma sinalização luminosa, originais dos lados o de pretendíamos acampar nos trouxe a certeza momentânea que estavam a nossa espera, já acampados.

O avançar das horas, traria comunicação plena e desfaria essa ilusão… houvera um desencontro entre nossos amigos e eles não nos encontrariam nessa empreitada. Resignados, continuamos a avançar até alcançar o cruzo para o Agudo Lontra. Não fosse os sinais luminosos, provável que montássemos acampamento ali mesmo, devido ao cansaço e a incerteza das condições de acampamento no desconhecido cume do Colina Verde. Com a curiosidade aguçada pelos sinais luminosos, quedamos à direita para dentro do vale e seguindo por ele, ora mais perto do curso d’água, ora mais longe, após algum tempo encontramos o acesso ao Colina Verde, que tratamos de galgar sem muito conjecturar. No amplo cume, havia duas barracas, de médio/grande porte. Seus ocupantes já estavam recolhidos, dado o avançado da noite. Escolhemos um ponto não muito longe, plano e tratamos de amassar o mato, basicamente gramíneas, para acamparmos à moda do Paraná.

O impacto desse modo de acampar é relativamente pequeno, a menos que a sucessão de acampamentos não permita a vegetação se recuperar. Não é o caso, felizmente, dessa face da serra do Ibitiraquire, muito menos frequentada que a região entre o Siririca e o PP. Uma vez instalada minha barraca, adiantei os preparativos para o jantar enquanto o Douglas tratava de instalar a barraca dele. Jantamos e pouco após as 23h estávamos dormindo.

Dia 4

Acordamos com o dia nascendo e tratamos de preparar o café da manhã em paralelo com a arrumação das cargueiras. Conhecemos nossos colegas de cume, três montanhistas que ficaram surpresos ao saberem que vínhamos da Rio das Pedras… acabamos por encontrar um novo dono para as luvas de vaqueta encontradas na descida do Guaricana e que eu transportava com intenção de descartar ao chegarmos no Marco 22. Apreciamos bastante o visual dos Agudos, do Siririca com sua extensa crista, Baixo Siri ao lado… ficamos a tentar identificar as muitas montanhas visíveis no dia que nascera ensolarado e das quais se via apenas uma porção, maior ou menor, a depender do enquadramento que as circunvizinhas propiciavam.

Com as tralhas acondicionadas às cargueiras, partimos às 9h00, em direção ao Agudo da Cotia, com a intenção de encontrar o cruzo para a ligação “alta” entre esse e o Agudo Lontra, uma abertura “ re c e n t e ” d o Elcio e da qual d i s p ú n h a m o s apenas de um “ r i s c o ” n a i m a g e m d e s a t é l i t e p a r a indicar o “onde” entrar. Sabendo da posição relativa e de que teria fitas azuis a marcar a passagem, subimos atentos ao lado esquerdo da trilha, buscando rastros que indicassem a passagem ou a própria fita, o que observássemos primeiro. A marcação estava bastante evidente, e ao localizarmos a primeira fita, pouco antes das 9h50, deixamos as cargueiras ao largo na trilha, com o painel solar recarregando um dos bancos de bateria, e seguimos os rastros da vereda em construção que compõe o começo da Inter-agudos. Seguindo por ela e depois pela rota clássica, alcançamos o cume do Agudo da Lontra às 10h20.

O registro no livro de cume ficou prejudicado porque a tampa do tubo de cume está trincada e o tubo não tem furo para saída de água. O livro, apesar de envolto em plástico, encontrava-se totalmente encharcado, talvez de forma irrecuperável. Deixamos um adesivo do MDA e voltamos sobre nossos passos para retomar as cargueiras e buscar o cruzo para o ataque ao Agudo da Cotia. Na passagem pela interligação Lontra-Cotia, uma pequena língua d’água, talvez sazonal, permitiu que recarregássemos nosso estoque de 1 litro de água pra cada.

Deixamos as cargueiras no cruzo Cotia / Cuíca e subimos para o cume do Agudo da Cotia, que alcançamos às 12h00. Fizemos um rápido registro e retornamos sobre nossos passos para pegar as cargueiras e seguir para o próximo agudo, Agudo da Cuíca. A trilha divergia do caminho que subimos, flanqueando a encosta do Agudo da Cotia, sem ganhar ou perder altura significativa, buscando permitir a descida ao colo entre as duas montanhas. Ao chegar na direção do colo, a trilha apruma numa descida mais intensa, e antes de alcançar o que talvez seja um curso d’água, no fundo do vale, com declividade à esquerda, desvia-se pela direita para permitir a passagem mais eficaz à encosta da nova montanha que logo começamos a galgar.

A subida até o agudo da Cuíca é na maior parte do tempo por dentro da mata, o que nos abrigou do sol forte. Alcançamos o cume às 13h40, fizemos um breve registro n o l i v r o , aproveitando p a r a documentar c o m fotografia as p á g i n a s j á preenchidas. Passaria a ser um procedimento padrão para os cumes menos visitados. Dessa forma, em caso de eventual dano catastrófico ao livro, não se perderia totalmente os registros. Partimos para o próximo cume, Agudo da Marmosa, onde chegamos às 15h00. Quando acessamos o tubo de cume para o registro fizemos a infeliz descoberta de que o livro estava comprometido pela umidade.

Encharcado, para ser mais preciso… isso apesar de estar dentro do invólucro plástico e o tubo ter sido encontrado na posição correta, com a tampa para cima. Seguimos para o ponto de acampamento, na garganta 235, cumeando na passagem o Tangarim. Chegamos na garganta com s o l ainda, às 17h30. Montamos rapidamente as barracas e subimos para fazer o ataque ao Tangará, aproveitando os minutos finais de claridade.

Por precaução levamos lanternas extras, junto com as demais tralhas de ataque: localizador, blusa seca, poncho de emergência, lanche de trilha, GPS, canivete e celulares. Chegamos ao cume d o Ta n g a r á à s 1 8 h 5 0 , constatando que o livro de cume dessa montanha também e s t a v a p r e j u d i c a d o p e l a umidade. Apesar de não estar totalmente comprometido, as páginas encontravam-se bastante umedecidas, com a tinta começando a borrar.

Conseguimos registrar as páginas, preservando as informações históricas. E deixamos o livro com um adesivo MDA, que, dada a umidade não ficou aderido ao caderno. Paciência. Retornamos ao acampamento, ponderando nossas chances de conclusão do trajeto na íntegra e os tempos envolvidos… tanto de pernada quanto para chegada da frente fria. Pegamos as previsões do pessoal da civilizavam-se, nossa extrapolação a partir das tendências da previsão numérica do IReach Garmin e arbitramos que nosso horário limite para cruzar o salto Mãe Catira seria domingo, 12h30. Ainda haveria um cruzo importante posterior, mas já estaríamos caminhando para a saída e a chuva não seria tão problemática, por supormos que em mais 1h30 de trilha teríamos cruzado o último ponto de cruzo de rio. Isso nos colocaria no ponto do último cruzo importante às 14h.

Concluímos que, para conseguirmos fazer todo o previsto e passarmos com segurança pelo Salto Mãe Catira no horário limite que havíamos imposto, precisaríamos iniciar a caminhada a partir da G 2 3 5 e m direção ao Marco 22 a t é a s 09h00. Para irmos e voltarmos até o Arapongas precisaríamos de 6h de caminhada. Com a arrumação da tralha consumindo cerca de 1 h, acordamos de fazer a alvorada às 02h00 para irmos e voltarmos do Arapongas sem impactar a segurança frente a chegada da frente fria, mesmo no pior cenário. R e t o r n a m o s a o a c a m p a m e n t o , providenciamos rapidamente um jantar coletivo e pouco após as 22h já estávamos dormindo… ou cochilando, dadas as circunstâncias.

Dia 5

Alvorada combinada, alvorada cumprida. Às duas da madrugada, rapidamente nos enfardamos de trilheiros, revisamos as mochilas de ataque e aproximadamente 02h30 começamos a caminhada para o Araponga, passando no caminho pelo Corocoxós. Combinamos de fazer qq registro apenas na volta para ganharmos alguns preciosos minutos. Alcançamos o Corocoxós na ida às 03h00 e o Arapongas às 04h30. Fizemos os registros devidos, observando que o livro estava muitíssimo bem protegido por sacolas plásticas. Como notamos que alguns livros estavam danificados pela umidade, decidimos passar a registrar, sempre que possível, com foto ou vídeo as páginas já preenchidas dos livros.

Dessa forma, caso ocorra a perda do meio físico, a informação ficaria preservada. Retornamos (6h40) ao ponto onde o tubo de cume do Corocoxós marca a área de acampamento do cume e constatamos que estava sem livro no tubo.

Dali apreciamos o dia que nascia por alguns momentos antes de retomar a descida para o acampamento na G235, onde chegamos 7h10. Tratamos de desmontar acampamento e fazer um substância café da manhã com tapiocas antes de iniciar a caminhada para o Marco 22. Partimos da G235 às 08:05, com alguma margem extra em relação ao projetado inicialmente. Rapidamente começamos a descer em direção ao vale, bordejando, na maior parte do tempo a encosta do Corocoxós primeiro, e depois a do p r ó p r i o A r a p o n g a .

Alcançamos o Dique Diabásio às 11h30 e seguimos por dentro do rio, ainda com bastante sol até o Salto Mãe Catira, onde usamos uma trilha à esquerda do rio para perder altura até sua base, alcançada às 12h00. Fizemos alguns registros fotográficos, aproveitamos para agradecer à Deus que havia dado tudo certo até ali e pedir mais um pouco de compreensão para São Pedro quanto à chuva que viria. Retomamos a caminhada, passando pelo último cruzo importante de rio pouco antes das 14h00 e subindo aos poucos até o Marco 22, onde chegamos às 15h27, antes da chuva prevista. O sol já se ocultara atrás de densas nuvens de nevoeiro, mas ainda estava seco.

Um erro de plotagem criara a errônea leitura que teríamos que andar 9 km extras… então, foi uma deliciosa e grata surpresa nos descobrirmos já na borda da estrada e com pelo menos um pé fora da mata em tempo adequado para evitarmos a tempestade prometida. Tomamos a estrada serra acima, em direção ao primeiro quiosque, ávidos por pastéis, cocas e caldos de cana.

Decidimos nos preocupar com o transfer para a rodoviária de Curitiba apenas depois d e a l i m e n t a d o s e a b r i g a d o s . Encontramos um simpático senhor que se prontificou a nos levar até a rodoviária de Curitiba, no carro que levava a esposa para um exame medico.

Agradecemos a gentileza. Descobriríamos que nossos amigos estavam nos acompanhando pelo link do rastreador via satélite quando, de surpresa, “num passe de mágica” surgiram no quiosque para nós resgatar. Ficamos bem felizes com esse cuidado e zelo, ao qual somos muito gratos.

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1 comentário

  1. Bela pernada! Ótimo relato! Parabéns pela empreitada. Infelizmente, por maior que seja o trabalho e o empenho do nosso time do GT Memórias de Cume (CPM), não conseguimos manter 100% do tempo todos os livros de registros, pois o cuidado com a guarda dos mesmos depende de cada usuário. Em breve, a substituição dos tubos de PVC por caixas metálicas também deverá contribuir para melhor preservação.

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