Agora que você já conhece fatos básicos sobre a Islândia, deixe-me descrever um pouco da minha experiência ao percorrer o país por duas semanas.
Acredito que o fato mais notável sobre a Islândia seja a diversidade (e expressividade) de suas paisagens, apesar de a maior parte dela ser um monótono campo de lava intercalado por grama rasteira.

O Ring Road.
Você pode contornar a ilha através do Ring Road, são 1.300 km de uma esplêndida obra de engenharia. Na realidade, percorri o dobro disso, seja pelo acesso a localidades no interior do anel viário, seja pela necessidade de contornos dos fiordes.
O trajeto normalmente começa pelo sul, onde o país é uma grande planície. Ele é chamado de Golden Circle, acessando inicialmente o Parque de Thingvellir, o primeiro dos três PNs da Islândia. Seus preciosos 24 mil hectares abraçam o desfiladeiro que separa as duas placas tectônicas sobre as quais o país se assenta.
Foi neste local impressionante que o primeiro parlamento do mundo foi estabelecido, quando os chefes tribais se reuniam acampados para resolver suas disputas. Ele é especial, por unir a natureza à história.

Thingvellir com a fenda entre as placas tectônicas.
Essa região, como muitas outras, é geotérmica, com muitos gêiseres. O maior deles, entretanto, permanece dormente desde o início do século – foi ele que nomeou todos os demais. Há cachoeiras belíssimas, abastecidas pelos glaciares – grandes correntes que jorram de cânions estreitos ou saltos vertiginosos que vertem de paredões fraturados. É uma natureza que às vezes até parece teatral.
Mas a maior atração talvez sejam as geleiras. A principal delas é Vadnajokull, onde foi estabelecido o maior dos PNs islandeses, com 1.400 mil hectares. É uma área enorme até mesmo para o Brasil. Vale comentar que, além dos três PNs – e possivelmente um quarto, a ser criado nas terras altas centrais – a Islândia possui uma centena de áreas protegidas, que cobrem 25% do país.

A cachoeira de Godafoss.
Os glaciares são formados pela contínua e sucessiva deposição de gelo – apesar do aspecto plácido, eles se movem e na realidade estão recuando devido ao aquecimento global. Atravessá-los com grampões é bem mais difícil do que parece pelo seu relevo gracioso. As geleiras sempre me pareceram estranhas – suave imobilidade convivendo com força e ameaça. Esta região abriga também o ponto culminante do país, emergindo imponente acima do glaciar que o recobre.
Em oposição à alvura das geleiras, existe nas proximidades uma praia de areia preta de Reynisfjara, formada pela lava. Você estará num ambiente dramático, com uma parede de basalto ao lado, visitada por aves marinhas, um mar de incansáveis ondas furiosas à frente e duas ilhas rochosas ao longe, com um aspecto abrupto e desolado.

A praia de areia preta de Reynisfjara.
O percurso leste começa na Lagoa Glaciar, belo local que combina uma formidável queda d´água e um lago repleto de icebergs a uma mansa praia habitada por focas e à melhor sopa de lagosta que jamais experimentei. Como tantos lugares na Islândia, esse cenário só surgiu depois do recuo do glaciar. É curioso pensar que são acidentes tão opostos como os vulcões e as geleiras os maiores agentes modeladores do relevo.
Na frente da lagoa existe mais uma praia especial, a Diamond Beach. É realmente irreal encontrar blocos de gelo como se fossem grandes diamantes reluzentes, pousados sobre mais uma areia preta, à frente de um mar revolto. Como nada é manso nesse país, existem à volta os rochedos dessas lavas imemoriais que parecem sempre à nossa espreita.

A caverna de gelo Anaconda.
Há também outros glaciares no interior do percurso. Foi num deles que conheci minha primeira caverna de gelo, a Crystal Blue. É uma experiência única, parece Disneyland, uma realidade inventada. Foi como um sonho penetrar na abóboda entre as imateriais paredes de gelo, encontrar a coloração azulada daquela câmara e enxergar os precipícios que a água esculpiu no seu vórtice.
Imagine que toda a cuidadosa estrutura de acesso à caverna foi feita em semanas, sem qualquer consulta ao IBAMA local. Sabe por quê? Essa caverna não vai durar, o recuo do glaciar de quase 20 metros/ano irá destrui-la em dois ou três anos. Uma mágica tão incrível que não foi entretanto feita para durar.
A Islândia desenvolveu seus próprios cavalos, animais pequenos e pacientes, com muito pelo e grandes crinas. São um tanto rudes, com um trote duro e pouca velocidade. Fiz um passeio convencional numa égua preta chamada Krona – e pude sentir seu carinho simples em resposta a meus agrados. Depois, ela ficou bufando e farejando à minha volta, como se quisesse que eu não a deixasse mais.

Os cavalos islandeses são criados há mil anos.
Uma fazenda média de ovelhas possui apenas 10 hectares, que são usados para plantio. Os animais pastoreiam as terras altas, que são públicas. Mas a quantidade de cavalos que avistei é totalmente desproporcional ao seu possível uso. Como as exportações de carne equina são mínimas, depreendo que os fazendeiros criam em parte os cavalos para comê-los.
O norte islandês é mais alto e frio, com passagens por passos nevados onde você se sentirá frágil diante dos amplos campos nevados. Existem cânions basálticos, que uma vez mais abrigam grandes cachoeiras, vertendo em arcos para os turbulentos rios abaixo. Fico pensando que são essas belezas rústicas que tornam tão emocionantes os panoramas na Islândia.
Foi nesta região que a captura da energia geotermal avançou no país. Talvez tenha sido minha mais forte impressão observar os dutos metálicos descendo de forma impossível das distantes, quase infinitas, encostas nevadas. Eles abasteciam uma usina geradora logo à minha frente, que parecia um mecanismo maligno, emitindo vapores para o céu.

A cratera na montanha.
Logo abaixo deste mundo fica o Lago Myvatn, que integra o chamado Diamond Circle. Essa região sofreu no passado remoto fortes erupções de lava, que modelaram várias crateras e criaram esse grande lago raso. Ele é cheio de vida, pela abundância de sua vegetação aquática, que atrai várias espécies de patos – alguns deles com belos coloridos. No inverno, entretanto, o lago simplesmente congela.
A região à volta é rica em fontes termais, com suas fumarolas emergindo dos campos pedregosos. Abrange fontes aquecidas no interior de cavernas de lava, bem como grutas com pingentes de gelo. A cratera situada no alto de uma montanha é impressionante, você pode circundá-la por trilha.
Assim como fazer outras três atividades: aproveitar os banhos termais ao fim do dia, dar-se um trato em Akureyri, a bonita capital do Norte, e procurar a aurora boreal nas noites limpas de inverno, atravessando longos túneis no interior das montanhas.

Akureyri, a bela capital do norte.
Mas, antes disso, acontece o curioso campo de Dimmuborgir, decorado por grutas, paredes e pináculos de lava. Era no passado um esconderijo de malfeitores e tornou-se conhecido como lar dos medonhos monstros chamados trölls, ogros tão apreciados na Islândia. Eles são travessos ou malignos e especialmente ativos no Natal.
Queria comentar sobre os campos de lava islandeses. Diz-se do Mar do Caribe que suas águas têm sete cores. Pois assim também me pareceram as lavas do país. Elas começam com uma coloração ferrugem, que aceita manchas ocres e cinzas. Mas há também áreas na cor grafite e mesmo preta. E ainda mosaicos esbranquiçados, castanhos ou esverdeados. Um tranquilo patchwork, fruto da violência vulcânica, que restou composto por tantas cores sóbrias.

Campo de lava na Islândia.
E agora começa o trecho oeste final. Você pode procurar as baleias jubarte nos antigos navios pesqueiros adaptados que zarpam do vilarejo de Hauganes. Eles percorrem o fiorde de águas protegidas até o mar aberto – gaivotas, tartarugas e patos fazem companhia ao voo das imensas jubartes.
As praias do oeste são diferentes, pois suas areias são agora brancas (ou melhor, amarelas). E elas acolhem colônias de focas, das quais existem dois tipos na Islândia, as cinzas e as comuns. Você as verá descansando preguiçosamente com suas crias nas rochas do litoral. Mas os mares continuarão sempre revoltos.
Você chegará ao terceiro PN do país, na Península de Snaesfellsness. Seus 18 mil hectares são surpreendentes, por incluírem os panoramas de glaciares, montanhas, campos de lava e litorais. Desta vez, mesmo no inverno você encontrará uma vegetação variada de bétulas e salgueiros, arbustos e samambaias, musgos e líquens. Assim como em todo o país, você visitará simpáticos vilarejos, especialmente à beira mar.

A península de Snaesfellness.
Existe ainda uma última atração: uma caverna de lava. Essas cavidades tubulares foram formadas quando a lava esfriou, formando uma casca sólida, dentro da qual fluiu a lava ainda aquecida. A caverna é bastante larga e alta, com cerca de 1 ½ km, sendo a maior do país. Como em muitos outros casos, ela abrigou moradores. Ela possui uma decoração de lava e gelo, em paredes curiosamente coloridas.
As erupções de lava são especialmente destrutivas quando ocorrem no interior dos glaciares, pois nestes casos explodem ao deslocar o gelo e formar as crateras. Na Islândia, entretanto, as erupções são mais efusivas do que explosivas – o magma basáltico é fluido e normalmente escorre sem destruição. Aliás, com frequência as erupções são apenas fissurais.
Gostaria de comentar que nem todo turismo na Islândia é contemplativo. Embora não sejam rotas técnicas, muitas montanhas apresentam trilhas interessantes. A mais cobiçada é naturalmente a do Hvannadals, um bonito cume abaulado que é o ponto culminante do país. Outras ascensões conhecidas são as do Heckla e do Keilir, e há mais, apenas escolhi os nomes curtos.

Hvannadalshnúkur, ponto culminante da Islândia.
Ocorre ainda bastante atividade nos boulders do sul. O melhor point de escalada é conhecido como Hnappavellir, com quase duas centenas de vias, sejam livres ou grampeadas, a mais difícil sendo 5.14a. E existem travessias de até uma semana nas muitas geleiras do país.
Alessandra e eu viajamos no terço final do inverno, sob um clima excepcional, embora bastante frio: desde -15⁰ ou -8⁰C até um máximo de 10⁰C. Existem excursões pelo país inteiro, mas você pode percorrê-lo por sua conta, alugando um veículo, desde que não ocorram fortes nevascas.
Existe na Islândia o hábito de trabalhar apenas duas semanas por mês, portanto os jovens viajam muito pelo país. Nos meses de junho a setembro os locais turísticos ficam lotados, com dificuldade de hospedagem pelo menos em toda a borda sul até Hófn. Note que 2 milhões de turistas visitam a cada ano o país.
A Islândia é um país muito caro (possivelmente o terceiro do mundo), não se surpreenda com preços do dobro dos nossos. Mas é também bastante organizado, procure recorrer aos passes para atrações e transportes e aos mercadinhos. Mesmo assim, você chegará bem mais pobre de volta.
Queria fazer mais um comentário. Até certo ponto, a Islândia se desenvolveu algo parecido com o Brasil: explorando seus recursos naturais. Derrubamos e savanizamos a mata nativa, exaurimos suas madeiras de lei, ameaçamos nossos animais, fragilizamos nossos rios. E nos tornamos o quarto maior produtor e o primeiro exportador mundial de alimento.

Os mares de arenque no norte da Islândia.
Apesar de sua fauna limitada, a Islândia extinguiu os araus gigantes (numa das mais absurdas violências jamais feitas contra a vida) e as morsas litorâneas (leões marinhos com presas frontais) – e também praticamente a totalidade de sua floresta. Mas a grande exploração foi marítima, não sendo visível como a nossa. Os mares fecundos à volta foram pilhados por séculos à busca de baleias, bacalhaus, arenques e pargos.
Essa situação de overfishing foi sendo crescentemente questionada, até que em 1990 a Islândia criou um sistema de cotas individuais, segundo o qual cada entidade pesqueira passou a deter direitos de captura por espécie, que estimularam a sua preservação. Esses direitos são permanentes e negociáveis e resultaram na exploração sustentável dos estoques pesqueiros. A indústria se manteve rentável e aparentemente hoje não há mais espécies ameaçadas.

As gerações numa árvore de família islandesa. São aproximadamente 150 anos.
E agora uma reflexão final. Estou conversando com Kristjan Stefansson, o empreiteiro que construiu o acesso à caverna de gelo. Como tantos islandeses bem-sucedidos, ele me parece um tanto arrogante. Comenta algo que já tinha ouvido, que ele pode recuar sua genealogia até os primeiros povoadores do século X.
Indago sobre a dificuldade deste registro, pois os colonizadores eram analfabetos. Mas ele me conta que a era das sagas iniciou-se naquele tempo. Os registros escritos foram desenvolvidos baseados nas tradições orais, a partir do século XII. Para Stefansson, isso é plausível; para mim, soa fantasioso.
Então me lembro do boto amazônico. Diz a lenda que ele se transforma num jovem sedutor, que frequenta as festas e engravida as moças na beira dos rios. No fim da noite ele desaparece e seu filho nasce sem pai. Conta-se então da criança que é filho do boto. Na Islândia, recuam-se as origens por mais de dez séculos. No Brasil, elas não sobrevivem a uma geração.







