Há montanhas em que alcançar o cume ainda deixa metade do trabalho pela frente. No Yerupajá, nos Andes peruanos, uma cordada espanhola enfrentou uma situação ainda mais exigente: avançar até o topo passou a ser a saída para conseguir descer. A travessia de Bru Busom, Rubén Sanmartín e Marc Toralles está entre as ascensões premiadas pelos Piolets d’Or 2026, cuja programação acontece de 21 a 25 de outubro, na França.
O feito ocorreu em agosto de 2025. O reconhecimento deste ano traz de volta uma história que merece ser conhecida: alpinismo de exploração, enorme exposição e decisões tomadas muito longe do conforto de uma trilha bem marcada.

Uma vizinhança conhecida de quem assistiu a “Tocando o Vazio”
O Yerupajá é o ponto culminante da Cordilheira Huayhuash e vizinho do Siula Grande, cenário da dramática história de Joe Simpson e Simon Yates, contada no livro e no filme Touching the Void, conhecido como Tocando o Vazio. A proximidade é geográfica: são montanhas distintas, mas ambas ajudam a compreender a dimensão desse ambiente de grandes paredes e geleiras.
A Andeshandbook descreve o Yerupajá como uma montanha de acesso difícil, cercada por arestas aéreas. Para quem já conhece a região pelas imagens do filme, o nome agora ganha outra história de grande compromisso.
Rocha, gelo e uma travessia muito além do grau
A via recebeu o nome L’essència del compromís, ou “A essência do compromisso”. A FEDME registra cerca de 3.000 metros de percurso, 1.400 metros de desnível e dificuldades de 6c+, M6+ e 95°. A altitude do cume adotada no relato da ascensão é de 6.634 metros.
O 6c+ é da escala francesa de rocha, na faixa de 7b/7c brasileiro, com variações entre tabelas de conversão. O M6+ identifica dificuldade em terreno misto, combinando rocha e gelo; os 95° indicam inclinação que ultrapassa a vertical. São medidas diferentes, e nenhuma delas, sozinha, resume o esforço da travessia. A UIAA destaca que condições do terreno e fatores ambientais também pesam na avaliação de uma escalada.
Segundo o relato oficial dos Piolets d’Or, a aresta superior apresentou formações instáveis de neve e gelo e poucas possibilidades de proteção. O material disponível não permitiria uma retirada realista pelo caminho de subida. A solução era continuar até o cume principal, atravessar para o Yerupajá Sur e descer pela face sudeste.
Esse é o sentido de compromisso no alpinismo: a dificuldade de abandonar uma rota com autonomia quando a situação muda. Não basta saber executar um movimento difícil; é preciso sustentar decisões, orientação e capacidade técnica durante dias. Ali, um “depois a gente vê como volta” estava completamente fora de cogitação.
Preparação para encontrar a saída
Antes da tentativa, o trio reconheceu o terreno previsto para a descida. A preparação foi decisiva para completar a primeira travessia integral da montanha desde o leste, reconhecida pelo júri. A aventura também foi divulgada pela Associação de Guias de Montanha do Peru, no Instagram.
Em jornadas de alta montanha, alimentação, abrigo e uma jaqueta de pluma adequada ao frio integram o planejamento dos momentos de parada. Esse cuidado com conforto e recuperação acompanha a preparação técnica; o equipamento não elimina os riscos de uma aresta exposta.
Para conhecer os protagonistas, acompanhe Bru Busom, Rubén Sanmartín e Marc Toralles. E, para explorar a região pelo olhar de quem caminha ao redor dessas montanhas, leia também nosso relato do Circuito Huayhuash.









