20 ANOS da primeira TRAVESSIA VEÚ DE NOIVA – MORRO 7

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Serra da Farinha Seca vista do Anhangava.

Em julho de 1995 realizamos o Projeto Alpha-Ômega, ligando o Morro do Canal ao Marumbi. Foi um tipo de caminhada diferente, na qual subimos a serra por um lado, percorremos vários cumes, e descemos pelo outro extremo da serra, distantes mais de 10Km um do outro. A ideia de tentar uma aventura semelhante na Serra da Farinha Seca era uma seqüência lógica na serra, estas duas serras citadas têm características semelhantes: se estendem aproximadamente na direção Norte-Sul e possuem em torno de 11 Km de extensão. Em 1994, 95 e 96 fizemos várias visitas na parte norte da Serra da Farinha Seca, então tínhamos várias informações a respeito dos morros: do 7, da Crista da Graciosa (Pequeno Polegar), do 00B e do Pico da Farinha Seca, mas em compensação a parte sul desta serra é pouco explorada, e as informações eram escassas e imprecisas, foi difícil até obter o nome das montanhas. Para temperar um pouquinho mais os planos, a parte sul da serra se divide em 3 grupos de montanhas paralelos entre si. Estes grupos se confundem quando observados de vários pontos da serra como por exemplo do Anhangava, Pão de Loth e do Marumbi.

Serra da Farinha Seca vista do Anhangava – Foto do Emerson SIMEPAR.

1ª INVESTIDA

A ideia da travessia tomava forma em julho de 1996. No dia 20 o Edenilson (“Canidia”) e eu(Giancarlo (“Cover”)) descemos o Itupava, bivacamos na Estação do Véu de Noiva e no dia seguinte subimos uma montanha localizada ao norte da estação. Na verdade é uma elevação que está separada da Farinha Seca por um rio que nasce nas proximidades da Fazenda Diana e corre no sentido leste, o Pico do Coroados faz parte desta elevação. Apesar do tempo parcialmente nublado, do cume foi possível observar a parte sul da Farinha Seca. Entre estas 3 “serrinhas” da parte sul há uma região plana coberta por campos. Estes mesmos campos podem ser facilmente observados do Marumbi, de onde parecem campos de futebol perdidos no meio da serra, pois são planos e verdinhos. Mais tarde ficamos sabendo que trata-se dos “Campos do Cipriano”, existem várias lendas a respeito deste lugar, muitas curiosas, como por exemplo a de que a décadas atrás havia criação de gado naquele local. Com esta investida obteve-se o primeiro contato visual com a tão escondida parte sul da Farinha Seca. Os planos já estavam traçados, mas a segunda investida demorou.

2ª INVESTIDA

Por motivos diversos só voltamos a região exatamente um ano após a primeira investida. No dia 11 de julho de 97 partimos pelo Itupava, eu (Cover), Canidia, Gustavo (“Tavinho”) e o Sérgio (“Quindin”, irmão do Silmar, que eram antigos membros dos Montanhistas de Cristo). Estávamos preparados para encarar 5 dias no mato. Na sexta-feira a tarde, no Itupava, o dia estava belíssimo, sem nenhuma nuvem, a temperatura estava agradável, tudo certo para uma bela caminhada. Montamos acampamento na região do Véu de Noiva, noite estrelada, seca e silenciosa. Mas como sabemos a Serra do Mar tem “muitas cartas escondidas na manga “ e o outro dia amanheceu com uma densa garoa e um “friozinho” para pingüim nenhum botar defeito! Os planos foram alterados, o equipamento foi deixado de lado e realizamos apenas um “ataque” até na primeira montanha, a qual já havia sido visitada pela equipe de julho de 96. O esquema havia furado, e o que era para ser a travessia acabou sendo uma pequena investida, mas que serviu para alguma coisa, pois os rastros deixados em 96 haviam sumido totalmente. Esta foi a única oportunidade em que foi possível que todos os membros tivessem folga simultaneamente. Então nossa nova meta era tentar a travessia nos 3 dias do feriado do 7 de Setembro de 97. Mas para isso era preciso realizar uma “boa” investida na parte sul da serra.

3ª INVESTIDA

3ª INVESTIDA. Canidia, Daniel e Cover acampados no Campo dos Ciprianos. Ao fundo o Morro Isolado.No último final de semana antes do 7 de setembro foi realizada a terceira investida, desta vez apenas com o objetivo de avançar na parte sul da serra, para no feriado completar a travessia. Desta vez participaram o Canidia, eu (Cover), Daniel (“Doceiro”) e o Quindim. Saímos de Piraquara na noite do dia 29 de agosto de 97. De rabeira num trem cargueiro chegamos rapidamente na região do Véu de Noiva, onde novamente montamos acampamento, mas desta vez o tempo colaborou. Na manhã do sábado subimos a “montanha isolada”, e lá do topo azimutamos os Campos do Cipriano. O plano era descer desta montanha, atravessar os Campos do Cipriano e subir a primeira montanha da “serrinha do meio da parte sul da Farinha Seca”, o “morro da avalanche” e lá no topo montar o acampamento. Eram 2 Km de percurso, levando em consideração que parte era por campos, seria possível percorrer em aproximadamente 7 horas. Mas os campos não eram só campos e os planos foram “por água abaixo”. Triste momento em que entendemos porque nos filmes qualquer “metido a Indiana Jones” tem um binóculo pendurado no pescoço, lá de cima do “morro isolado” pareciam campos perfeitos! Eram mais de 5 horas da tarde, e estávamos “encalhados” no meio dos “malditos campos”, região repleta de caraguatás, bambus e cipós para todo lado. Faltavam mais 500 metros para o “pé” do morro da avalanche e tivemos que fazer um “acampamento forçado”. No domingo resolvemos não tentar avançar mais, pois eram preciso umas seis horas para retornar até na região do Véu, e mais um tempinho para subir o Itupava até na Borda do Campo, onde chegamos às 9 horas da noite do domingo, totalizando 21 horas de caminhada em apenas 2 dias. Com o fracasso desta investida constatamos que não seria possível realizar a travessia no 7 de Setembro, principalmente depois da grande conclusão do fim de semana: “Os campos não eram só campos”!

3ª INVESTIDA. Cover e Canidia caminhando no leito de um rio, em direção aos Campos do Cipriano.

3ª INVESTIDA. Sul da Farinha Seca, acampamento na região do Véu de Noiva.

3ª INVESTIDA. Canidia e Rodrigo Camarão atravessando uma das piscinas do rio do Meio

4ª INVESTIDA

4ª INVESTIDA. Cover e Tavinho no cume do Pequeno Polegar. À esquerda, o cume do Morro 7

No feriado do 7 de setembro resolvemos inverter a “carta” e tentar uma investida pela parte norte da serra, desta vez participaram eu (Cover), Lauro e o Tavinho. Saímos no meio dia do sábado, de ônibus da Princesa dos Campos, descemos no Portal da Graciosa, na BR-116. Caminhamos até na região do Alto do Corvo, e subimos o morro Mãe Catira ( o qual muitas pessoas confundem com o Morro do 7). O tempo estava ruim, acampamos no cume. No sábado o tempo melhorou, e os planos foram definidos: percorrer o grande vale do Rio Taquari, passando pelo Pequeno Polegar, em direção ao morro 00B, montar acampamento nesta montanha e na segunda-feira descer em direção ao povoado do Rio do Meio. O trecho do Mãe Catira até no Pequeno Polegar já era conhecido, de umas visitas a montanha em 1996. Nesta investida do 7 de Setembro realizamos a provável terceira ascensão do Polegar. Aproveitou-se a oportunidade para deixar um livro de registros neste cume. Do Pequeno Polegar seguimos em direção a um morrinho localizado entre o Pequeno Polegar e o 00B. Analisando que o Polegar foi conquistado em Abril de 96, desconfiamos que esta pequena e escondida elevação ainda não havia sido visitada, e resolvemos apelidá-la de “Casfrei”. Passamos pelo Casfrei às 4 horas da tarde, e o relógio anunciava o início do apuro, pois ainda faltavam 700 metros para o 00B. Chegamos no cume do 00B às 18:40hs bem depois do por do sol. O ritmo imposto no fim da caminhada foi muito acelerado e todos tiveram alguns “probleminhas”: um chegou quase vomitando; outro com a cabeça explodindo de dor; e o último com câimbra. O livro que deixamos no cume em dezembro de 94 “criou pernas”, então resolvemos colocar outro. No dia seguinte a caminhada prosseguiu em direção ao Pico da Farinha Seca, quando chegamos na base deste morro a caminhada mudou de direção e seguiu um leito de rio, depois de várias horas de caminhada atingimos uma fazenda na localidade do Rio do Meio. Pela nossa condição física percebemos que a travessia era algo um pouquinho mais complicado do que a equipe pensava. Foram gastas 19:30 horas de caminhadas nesta investida. Somando-se os tempos de caminhada das duas últimas investidas totalizava-se 40:30 horas de “passeio” pela serra. O percurso da travessia é de 11,5 Km em linha reta e ainda faltavam mais 4 Km sem reconhecimento. A turma estava atarefada com os compromissos particulares, o verão se aproximava e as investidas foram abandonadas em 97, mas o compromisso com a travessia ficava incomodando o pessoal, e mesmo com todos os inconvenientes do verão resolvemos fazer mais uma investida logo no começo de 98.

5ª INVESTIDA

5ª INVESTIDA. Rodrigo Camarão e Canidia caminhando no leito do rio do Meio em direção ao Pico da Farinha Seca

Mais uma vez optou-se por um ataque no norte da serra, desta vez o objetivo principal era escalar o Pico da Farinha Seca, que pode ser considerado um ponto médio da travessia . No sábado, dia 10 de janeiro, saímos de Quatro Barras eu (Cover), Canidia e o Rodrigo Machado. O percurso seria por um rio que desce do pico e passa perto da localidade do Rio do Meio. Naquela semana havia chovido todos os dias, e assim continuava naquele sábado, e mesmo assim os 3 teimosos queriam subir o rio. Logo no começo percebemos que seria “barra pesada”, pois o nível do rio estava muito alto, e quase todo o leito de pedras estava tomado pela água. A caminhada prosseguiu rio acima, em alguns trechos foi preciso caminhar com a mochila no ombro e a água na altura do peito. Acabamos desistindo por dois motivos, primeiro que estávamos andando duas vezes mais devagar que o planejado e não seria possível chegar no cume naquele dia e segundo porque estava frio, e todos estavam molhados da cabeça aos pés.

6ª INVESTIDA

Os 5 dias do feriado do carnaval tornavam mais do que obrigatório uma tentativa final. Segundo as “análises” da turma seria possível fazer a travessia em 4 dias. Formou-se um novo grupo, desta vez participaram o Canidia, eu (Cover), Quindim, Silmar e o Tavinho. O grupo pernoitou na residência do Silmar, em Borda do Campo, do dia 20 para o dia 21 de fevereiro ( de sexta-feira para sábado ). Já haviam sido realizadas 5 investidas e o pessoal já estava meio furioso, “desta vez tinha que sair”. Saímos da Borda do Campo às 5 horas da manhã, debaixo de garoa em direção ao Véu de Noiva , pelo Caminho do Itupava. Do véu subimos o morro isolado e descemos em direção aos Campos do Cipriano, onde perdemos um tempo se escondendo de um temporal, no final da tarde subimos o morro da avalanche e montamos as barracas no cume, foram 13 horas de caminhada neste dia. O tempo estava chuvoso, mas com nuvens altas. No domingo o tempo fechou, um denso nevoeiro não deixava visualizar nem 10 metros a frente. Parecia um desafio da serra, pois seria necessário “navegar” de bússola num dos locais mais desconhecidos da Serra. Mudamos os planos, ao invés de continuarmos pelas cristas das montanhas, optamos em avançar por um rio que seguia para o norte, entre as “serrinhas” da parte sul da Farinha Seca. Andar pelo rio tem várias vantagens, não há tanto mato para atrapalhar, mas este rio era um rio especial, em 2 Km há um desnível de apenas 20 metros.

Subida do Morro da Avalanche, ao fundo o Campo dos Ciprianos e o Morro Isolado

Mas o que há de errado nisto? Na prática o rio é uma “lagoa” comprida e estreita sem corredeiras e sem pedras no leito, e foi preciso caminhar por dentro do leito com água pela cintura durante 5 horas. Estava muito frio e depois da “aula de natação” resolvemos azimutar uma “provável” montanha na direita. Às 17:30 horas atingimos um local inesperado, uma crista comprida que caía bruscamente para a direção que seguíamos, ficamos meio desorientados e fomos obrigados pelo frio e pela chuva a acampar por ali mesmo. A situação não poderia ser pior, os sacos de dormir estavam molhados assim como boa parte da comida, e tudo mais o que ficou na parte debaixo das mochilas, pois em alguns trechos do rio a mochila ficava mergulhada na água. Os planos estavam complicados, o tempo precisava melhorar para a travessia continuar, era preciso secar as tralhas, pois não seria possível pernoitar mais uma noite no mato com os equipamentos encharcados e com um frio típico de serra. Mas desistir também era complicado, não sabíamos onde estávamos e nem sabíamos se era possível retornar em um só dia. As opções eram descer um rio para leste que provavelmente sairia no Salto dos Macacos, ou tentar uma saída para oeste, pelo rio Capivari-Mirim, e a terceira retornar pelo percurso de vinda, que totalizou 17 horas desde o Véu até neste local. Acordar molhado, em algum lugar no meio da Serra do Mar, com a chuva balançando a barraca, e uma densa neblina do lado de fora não foi nada tranquilo. O jeito foi abandonarmos a ideia de travessia e tentarmos voltar em um dia, escolhemos voltar pelo mesmo percurso de vinda, pois encarar mais lugares desconhecidos sem saber ao certo onde estávamos era loucura. Caminhamos 6 horas pelo tal “rio plano” até chegar nos campos do Cipriano, este tempo demonstra a vontade de bater retirada. No total foram mais de 10 horas de caminhada em ritmo hiper-acelerado até na região do véu de noiva. Chegamos indignados pois foi a sexta investida, e mais uma vez a natureza falou mais alto. O retorno foi por Porto de Cima, onde chegamos pelo Itupava “chutando pedras de raiva”.

Caminhando no rio Plano, durante a retirada na grande roubada

7ª INVESTIDA

Depois de 6 investidas, várias idéias foram por “água abaixo”, e a travessia não era mais um compromisso e sim um desafio, uma questão de honra. Nos dias 14 e 15 de março o Canidia e o Lauro realizaram a sétima investida, a terceira na parte norte. Subiram o Farinha Seca pela localidade do Rio do Meio, montaram acampamento no cume onde quase foram fulminados por raios. A vareta de alumínio da barraca conduziu uma certa corrente elétrica do solo que acabou atingindo um deles. No dia seguinte desceram do cume no sentido oeste, e subiram uma elevação próxima do Farinha Seca, mas que estava fora do provável percurso da travessia, deste local foi possível analisar bem detalhadamente o trecho médio da travessia( ao sul do Farinha Seca). A descida foi pelo rio Capivari-Mirim, e como de praxe para esta época do ano, outro temporal incomodou o pessoal, desta vez de outra forma. Os dois saíram do rio segundos antes de uma “cabeça d’água” passar. A caminhada ficou complicada, tanto psicologicamente quanto tecnicamente, pois além do susto da “cabeça d’água”, a caminhada ficou restringida a uma só margem do rio. No pé da serra o rio inundou as pastagens das fazendas e foi preciso caminhar com água pela cintura no meio de bambuzais durante duas horas. Foi uma investida que assustou a equipe.

8ª INVESTIDA

Depois de esperar o clima regularizar, especialmente no que diz respeito a temporais e consequentemente “cabeças d’água” tentamos mais uma vez. Aproveitamos o feriado do dia do trabalho, saímos da estação de Roça Nova às 23:30 horas do dia 30 de abril de 98. Estavam no grupo o Canidia, eu (Cover), Lauro e o Tavinho. Desta vez era tudo ou nada, era a oitava investida e a brincadeira estava indo longe demais. Andamos pelo trilho do trem até a Estação de Banhados, onde bivacamos. No dia 1º de maio saímos de madrugada, passamos pelo Ipiranga, onde logo cedo os “malacos” já estavam de festa. Era uma época em que as edificações históricas do Ipiranga estavam sendo totalmente depredadas por vândalos. Chegamos na região do Véu e logo começamos a escalar o “morro isolado”, chegamos no cume, o dia estava belíssimo. Descemos em direção aos Campos do Cipriano e seguimos nossos rastros do Carnaval até no cume do “morro da avalanche”, já era mais de 14:00 horas, resolvemos desviar da rota do carnaval ( pelo “rio plano”), e seguimos em direção a um morro que apelidamos de “morro dos macacos”, devido a estar lá a nascente do Rio dos Macacos. Chegamos neste cume às 18:00 horas, sem sol, e tivemos uma triste surpresa , era impossível acampar no cume devido a uma densa floresta de altitude. O jeito foi retornar rapidamente em busca de uma brecha em meio a floresta. Armamos acampamento com lanternas e iluminados por uma bela lua crescente. O dia foi cansativo, foram 11 horas de caminhada.

1º de Maio de 1998. Canidia e Tavinho, logo após a subida do vale da Cachoeira Rui Barbosa. Ao fundo, Marumbi e as encostas do Morro Isolado

Na manhã seguinte, madrugamos novamente, amanheceu um belo dia. Este era o dia “chave” da aventura, precisávamos chegar no 00B na próxima noite, distante 3,5 Km ao norte do local onde estávamos. Caminhamos em direção a um grande morro de campos, neste trecho passamos pelo local onde pernoitamos a segunda noite do carnaval, e constatamos que o local era mal definido na carta topográfica (1:50.000), por isso o engano na investida do carnaval. A precisão daquela carta mão representava uma crista em que atingimos na 6ª investida. Ao meio dia chegamos no cume do tal morro, fizemos um breve lanche e partimos logo em direção ao Farinha Seca, restavam seis horas de luz, e precisávamos avançar mais 2 Km. A subida do Farinha Seca foi complicada, o tempo piorou e ameaçava chover, quando chegamos no cume, nuvens carregadas vinham do litoral e logo encobriram a serra. Apesar da virada do clima, estávamos otimistas, pois pela hora seria possível chegar no 00B até às 18:00 horas. Era apressado, mas o sucesso da travessia dependia disto. Deixamos um livro de registros no cume, e descemos o vale em direção ao 00B, o nevoeiro tornava macabros vários locais, principalmente os fundos de vale. Nos abastecemos de água e iniciamos a tão desejada subida do 00B, a preocupação era a orientação nos campos de altitude, já que a neblina não permitia orientação visual, e pelo adiantado da hora não podíamos se perder. A “profecia” se realizou e levamos um “olé” dos campos de altitude, ficamos totalmente desorientados. Eram 17:30 horas o sol estava se pondo e nós estávamos encalhados em meios as densas florestinhas de altitude. O jeito foi “chamar” a velha companheira, a bússola. Conseguimos chegar no cume às 18:15 horas, quase no breu total. Mas tudo era festa, pois esta era a cartada final. Era preciso dormir, levantar cedo, e completar a travessia. Montamos as barracas com lanternas, e constatamos que o segundo livro de registros que deixamos lá também sumiu, estamos desconfiados que os “ ET’s ” estão fazendo coleção de livros de registro de cume.

INVESTIDA FINAL. Acampamento no cume do 00B

No domingo dia 3 de maio começamos a caminhar cedo, com garoa e um pouco de frio. A caminhada seguiu pelo cume do Casfrei, e do Polegar, no qual constatamos que esta escalada foi a quarta ascensão desta montanha. Agora era só ir para a “Bandeirada”, restava apenas mais um vale para chegarmos no Mãe Catira. A chegada foi entusiasmada, mesmo com as pesadas cargueiras colocamos um ritmo aceleradíssimo na subida, tudo isso era vontade de chegar logo. Saímos no cume do Mãe Catira. Deixamos as mochilas e descemos até no 7 onde chegamos às 13:35 horas. Comemoração total, depois de mais de um ano e meio tentando, 8 investidas, muita caminhada a travessia estava completa. Estava muito frio, batemos as tradicionais fotos, comemos uma comidinha para comemorar, e não tinha champanhe, o brinde foi com água mesmo, pois até os sucos em pó já haviam acabado. Assinamos o livro de registros no qual fizemos uma rápida descrição da travessia e agradecemos a todos os amigos que nos ajudaram nas investidas e não puderam concluir a travessia junto conosco: Daniel, Rodrigo, Sérgio ( “Quindim”) e o Silmar. Tínhamos que pegar o ônibus na graciosa e tivemos que nos arrancar, pena que o tempo continuava fechado. Subimos novamente o Mãe Catira, e descemos em ritmo acelerado até na Graciosa. Chegamos no recanto Engº Lacerda às 16:30 horas, totalizando 32 horas de caminhada desde a região do Véu de Noiva. Depois de 3 dias andando no meio do mato, com cipó segurando na canela, bambu enroscando na mochila e caraguatá espetando a perna, era estranho caminhar na estrada, andávamos até meio tortos e levantando a perna mais alto que o normal. Do jeito que nos recepcionaram no recanto parecia que estávamos voltando da guerra, não sei se parecíamos mendigos ou fugitivos de batalha, as mochilas todas sujas de barro, camisas manchadas de tanto barro e as calças todas rasgadas pela vegetação, só para ter ideia tinha um de nós que não tinha metade da perna direita da calça, a perna esquerda era calça e a perna direita era bermuda. Melhor do que o gosto do caldo de cana do recanto só mesmo o gosto da vitória. Fazia um ano e dez meses que tínhamos este plano engasgado na garganta e parecia que a conclusão da travessia era um sonho, mas o sonho era real: a travessia estava completa. É muito recompensador relembrar as investidas frustadas e as roubadas, foram muitos momentos inesquecíveis de alegria, surpresa, cansaço, decepção, e muitos outros, como a sensação de acordar molhado sabendo apenas que estávamos em algum lugar da Serra do Mar, muito longe do ponto de civilização mais próximo. Ao pensarmos na conclusão de uma caminhada deste tipo imaginávamos que com este feito descobriríamos novas regiões da serra, novas trilhas, novas paisagens, mas não é bem por aí , na verdade descobrimos que a Serra do Mar guarda surpresas e segredos onde menos imaginamos, que existem locais onde um simples passeio é uma aventura e tanto, e que às vezes a natureza “fala” mais alto.

03 DE MAIO DE 1998. Cover na Estrada da Graciosa, final da travessia.

Texto extraído do informativo “MONTANHA”, da Associação Montanhistas de Cristo, edições nº 27 e 28, respectivamente de maio e julho de 1998.

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Sobre o autor

Giancarlos Castanharo

Giancarlo Castanharo, mais conhecido como "Cover" no meio da montanha paranaense é um dos mais experientes montanhistas de Curitiba. Junto com seu irmão "Tavinho", formaram uma dupla reconhecidamente exploradora de locais de difícil acesso na década de 90 e inspiraram muita gente a trilhar novas caminhos pela Serra do Mar.

1 comentário

  1. Getulio

    Grande Cover!
    Relato histórico de montanhismo puro, de um desbravamento de grande envergadura, em tempos que não havia facilitadores como GPS, celular e até mesmo conseguir cartas topográficas era complicado. Tempos em que o montanhismo tinha poucas “trilhas” e ainda não tinha virado “modinha”, mais valia raça e “sangue no zóio” do que a marca de bota que se tinha no pé.

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