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Perigo

Avalanches


Categoria: Meio Ambiente

Avalanches são uma das forças mais destrutivas da terra. Muitas pessoas associam a palavra avalanche com aquelas compostas de neve somente. O termo avalanche no entanto, abrange muitos outros tipos e formas.

Texto: Maximo Kausch

Acontecem quando um material em forma granular consegue vencer o seu ponto de fricção estática, causando com que o próprio se deposite em lugares mais baixos. Qualquer coisa que esteja depositada num terreno inclinado, pode cair num efeito de avalanche: neve, gelo, rochas, areia, barro, terra, brita, etc. Nas grandes montanhas porém, as de rocha, neve e gelo são as mais comuns e as que trataremos aqui neste artigo.

Na grande maioria das vezes, durante uma ascensão, se você for pego por uma avalanche em cheio, terá mínimas chances de escapar vivo. Eis os tipos de avalanches que nós escaladores temos que lidar:
 ,

Avalanches de Gelo

Eu diria que a maioria das avalanches enfrentadas por montanhistas durante as suas escaladas são de origem glaciária. Estas são formadas por blocos de gelo que se desprendem de uma massa maior e desabam. Por se tratar de milhares de toneladas de gelo, estas massas viajam grandes distâncias, muito mais do que uma avalanche de neve. Não preciso dizer que são muito mais perigosas e causam mais estrago. Além do próprio gelo, é comum que rochas sejam transportadas neste tipo de avalanches.

A maior tragédia na história do montanhismo se deve à uma avalanche glaciária. Em julho de 1990, alguns blocos de gelo se desprenderam e atingiram o acampamento 2 do Pico Lenin de 7150 metros de altitude, no Quirguistão. 43 pessoas morreram no incidente e somente 3 corpos foram recuperados. Acredita-se que um terremoto iniciou a avalanche.
 

Glaciar de penhasco no Ama Dablam, no Nepal. O histórico glaciar desprendeu um pedaço em 2006 e matou 6 pessoas no acampamento 3, a 6300 metros de altitude.

Línguas glaciárias e glaciares suspensos são os principais locais a temer. Como todos já sabem, a culpada desta também é a gravidade. No entanto, ninguém sabe ao certo dizer em que momento é que que a gravidade vai influenciar ao ponto de causar uma. Há pessoas que digam que avalanches glaciárias se iniciam quando são atingidas pelos primeiros raios solares, outros dizem que elas são causadas por pequenos movimentos sísmicos. De fato, eu já vi avalanches caírem assim que o sol iluminou uma encosta glaciária pela manhã, também já vi avalanches que começaram por terremotos, ou mesmo por pedras soltas, etc. Mas também já testemunhei avalanches que começaram sem aparente razão. Já que nunca entendi muitas delas, decidi começar a ter medo de línguas glaciárias e glaciares suspensos. Todos deveríamos fazer o mesmo.
 

Quebra de cornisas

Esta pobre animação mostra a quebra de uma cornisa causada por um escalador. O desprendimento desta iniciou uma avalanche na cobertura de neve recente depositada na montanha, logo abaixo da cornisa.

Para nós montanhistas, cornisas são uma grande armadilha pois nunca sabemos onde uma crista termina e uma cornisa começa. Tente evitá-las ao máximo. Cornisas são muito comuns em montanhas que recebem muita precipitação e vento. Esta interessante formação de gelo e neve deve-se ao acúmulo de neve no lado oposto ao que o vento sopra numa crista. Acumulando-se horizontalmente durante centenas ou até milhares de anos, cornisas chegam a ganhar imensas proporções. Com a queda de neve fresca no topo de uma crista, alguns colchões podem formar-se logo abaixo de uma cornisa e trazer o perigo de formação de uma avalanche de neve mais tarde.
 


Montanhistas chegando ao topo do Alpamayo no Peru escalando visíveis flautas e canaletas. As setas apontam algumas cornisas bem evidentes.

Avalanches de Neve

Avalanches de neve são as mais complexas de todas. Por haverem tantas variáveis envolvidas na formação de condições para que uma avalanche de neve ocorra, é difícil, porém não impossível, de prevê-las.
Em montanhas a neve geralmente se acumula na face oposta à que o vento sopra. Em encostas com inclinação inferior a 50 graus, a formação de camadas de neve com diferentes densidades e composições, pode causar com que as camadas superiores simplesmente deslizem por cima das inferiores, causando assim, uma avalanche de neve.
Em terrenos com inclinação inferior a 25 graus, a neve da camada superior acaba compactando as camadas inferiores, no lugar de deslizar sobre elas. Se diz que as inclinações mais críticas são entre 25 e 50 graus, acima disso, a neve tende a deslizar antes de se acumular.
Em encostas com inclinação crítica, as condições para a formação de uma avalanche de placas de neve é um tanto complexa, vamos tratar deste assunto separadamente.
 

Avalanches de placa de neve

Uma vez depositada numa encosta, a neve em camadas precisa certas condições para deslizar:
 

  • O tempo em que uma camada de neve demora em se depositar é um dos fatores decisivos. Se muita neve for depositada em pouco tempo sobre uma camada de neve mais velha, é muito provável que esta deslize, pois não houve tempo das duas se consolidarem. Neve compactada tende a deslizar menos que a neve solta.
  • Quanto maior for o floco de neve, mais fraco ele é e maior é a possibilidade que deslize sobre outro.
  • Granizo ou gelo entre 2 ou mais camadas de neve é um forte sinal de que pode ocorrer um deslizamento.
  • Água de chuva, assim como a de degelo, pode atuar como um lubrificante entre 2 camadas, fazendo com que uma delas deslize sobre a outra. Um dia quente seguido de uma tempestade à noite por exemplo, pode formar uma fina camada de gelo que provavelmente fará com que a neve depositada sobre este deslize mais tarde.
  • Superfícies cobertas por árvores ou grandes rochas sobresaentes são obviamente uma boa barreira para deslizamentos. Em contrapartida, superfícies mais lisas como morenas glaciárias ou rochas nuas e erudidas, contribuem muito para que uma avalanche ganhe velocidade e força após iniciada.

Sabendo de tudo isso, você pode usar muitos métodos para avaliar o risco de que estas camadas produzam uma avalanche. Dentre eles, destaquei um bem simples no qual você só precisa de uma pá e 5 minutos:
 

  • cave uma trincheira de mais ou menos 1 metro de longitude e com a largura da pá. Esta não deve acompanhar a descida, ou seja, deve começar e terminar na mesma inclinação. Sua profundidade deve ser até onde você encontre uma camada de neve mais dura ou o que a sua pá lhe permita
  • Usando a pá para cortar a neve perpendicularmente desde a superfície, isole um trapézio. Este deve começar na sua trincheira para cima. A parte superior deve ter 40cm, as laterias 50cm e a base 80cm (a base termina na sua trincheira)
  • se a sua trincheira for muito funda, cave outra trincheira na parte superior, acima do seu corte de 40cm assim as suas mãos irão caber

vista superior

A idéia é que você force o bloco a deslizar usando a pá. É importante que você empurre a pá como um todo e não só um cabo. Para isso talvez seja necessário que você cave uma trincheira na parte superior assim as suas mãos possam empurrar a pá.
 


A força que você exerceu na pá é inversamente proporcional ao perigo de avalanches, ou seja:
 

  • força de menos de 10kg – muito risco
  • força entre 10kg e 20kg – risco moderado
  • força maior de 20kg – pouco risco

Avalanches de neve pó

Em ambientes extremamente secos como montanhas de grandes altitudes e baixas temperaturas, a neve se deposita em forma de pó nas encostas, preenchendo qualquer espaço vazio em inclinações de até inexplicáveis 80 graus! Portanto é possível que avalanches de neve pó deslizem neste tipo de encostas.
Geralmente, estas são bem menos perigosas do que as suas primas formadas em inclinações e altitudes menores. No entanto, se estas avalanches adquirirem grande força e velocidade, podem causar bastante estrago, assim como desprender um bloco de gelo ou mesmo rochas.
Este tipo de avalanche começa na superfície da neve (ao contrário das avalanches de placa que começam nas camadas profundas). Geralmente elas começam em um ponto e se ramificam para outros, formando um triângulo.
 

Avalanches de Rocha


Aiguille du Dru, na França, durante uma avalanche de rochas em 2005
Foto: RockClimbing.com

Ultimamente, estamos ficando cada vez mais familiarizados com avalanches de rocha. Com o aquecimento global, o permafrost em muitas montanhas está derretendo e muitos destes espetáculos se tornam cada vez mais comuns. Neste tipo de avalanches, centenas de toneladas de rochas se desprendem de uma massa maior e desabam.

As causas são geralmente associadas com variações bruscas de temperatura. Um dia quente com muito derretimento, seguindo de temperaturas congelantes à noite, faz com que água se deposite em rachaduras rochosas e congele mais tarde. A formação de gelo nas rachaduras faz com que rochas se separem, o que pode mais tarde causar uma avalanche rochosa. Assim como qualquer outra avalanche, movimentos sísmicos contribuem muito para iniciar estas.
 

Previna-se de uma avalanche


Colgante Morado, uma língua glaciária no Chile

Uma vez que uma avalanche começou e você está no caminho dela, você terá apenas alguns segundos para decidir como é que você será pego, talvez você ainda tenha tempo de fazer últimos pedidos e coisas do gênero. Muitos recomendam que você crave as suas piquetas e fique deitado, com o peito no chão, esperando pela avalanche. Pessoalmente, eu recomendo que você se teletransporte se você consegue fazê-lo...

As suas chances mesmo estão em prevenir elas. Existem diversos mecanismos para isso. Em estações de ski e cidades próximas à encostas montanhosas onde avalanches são uma ameaça direta para centenas de vidas, avalanches são causadas artificialmente antes que causem danos maiores. Para a tarefa, explosivos são lançados desde helicópteros, morteiros ou colocados à mão mesmo. Adicionalmente, barreiras são montadas nas encostas, fazendo com que a neve se acumule nelas e não nas encostas mais baixas.

Agora esqueça dos explosivos e das barreiras, pois nas grandes montanhas não temos nada disso (Não sei de onde foi que tiraram a idéia de carregar nitroglicerina em tubos no filme Vertical Limit?)

Às vezes, dependendo da rota que escolhemos na montanhas, não temos outra opção que não seja ficar no caminho das avalanches durante semanas e rezar para que elas não ocorram. A única coisa que nos resta fazer, portanto, é minimizar as chances:
 

  • Fique longe de cornisas, contorne elas sempre que possível. Nunca espere chegar a um cume escalando por uma cornisa. Se você tiver que fazê-lo, a sustentação é geralmente tão precária, que você vai entender o porquê da minha advertência.
  • Fique longe de qualquer foz glaciária. Se você tiver que enfrentar uma, tente ficar no meio, longe das laterais. Evite grandes seracs e blocos com inclinação negativa. Planeje a sua rota com antecedência. Não gaste muito tempo escalando debaixo de glaciares suspensos (como eu fiz várias vezes)
  • Assim como você sempre procura saber a previsão do tempo antes de escalar, procure também saber sobre o risco de avalanches. Use o "simancol" e fique longe de encostas que tenham cornisas no topo ou vales com muita neve recente. Nunca é demais carregar uma pá de plástico na sua mochila. Para o teste do trapézio são necessários apenas 5 minutos ou menos dependendo da prática.
  • Prefira escalar longe do centro de canaletas. Escale elas transversalmente, ziguezagueando e colocando proteções nas laterais. Jamais monte ancoragens e paradas no meio de uma. Em regiões com muito deslizamento de rocha, prefira fazer as suas atividades nas horas mais frias, como madrugada. Não há dúvidas que você irá morrer se for pego em cheio por uma destas. Preste atenção no material novo depositado na base de canaletas. Estes apontam as direções que devemos tomar cuidado. Sempre leve um capacete!






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