Walther Penck. O Kaiser dos Andes - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
Quando a ciência e o montanhismo se misturam

Walther Penck. O Kaiser dos Andes


Categoria: Personalidades

No começo do século XX, o geógrafo alemão Walther Penck percorreu a Puna argentina para confeccionar sua carta geológica. Quase cem anos depois, em uma entrevista cedida ao Centro Cultural Argentino de Montanha, seu neto, Gerhard relembra os passos do avô.

Por Griselda Moreno- Centro Cultural Argentino de Montanha - CCAM.
Tradução: Pedro Hauck
Fotos: Arquivo fotográfico de Gerhard Penck


Ele tinha tudo: Juventude, profunda formação geológica, geográfica, topográfica e amor pelas montanhas. O governo argentino de então escolheu ele; pois era um dos poucos que podia estudar cientificamente a região da cordilheira dos Andes. E ele o fez, montado em um cavalo, com indumentária básica e peões de confiança, entre 1912 e 1914 explorou, mapeou e detalhou milhares de quilômetros quadrados da Puna, região alta e árida dos Andes, da Argentina e Chile, incluindo aí a ascensão de mais de trinta montanhas que até hoje permanecem isoladas e pouco frequentadas.

Aos seus 24 anos, quando o fugor da ciência iluminava a Europa, Penck arrumou suas malas e veio para a América do Sul para trabalhar em um lugar que neste momento parecia ser “o mais desolado do planeta”. Logo, seu país solicitou seus trabalhos e ele partiu para lutar na Primeira guerra. Ele se foi muito jovem, vitima de um melanosarcoma. A comunidade científica emudeceu ao dar conta que uma extraordinária mente desapareceria em outubro de 1923, com apenas 35 anos!

Todos seus estudos e pesquisas passaram a ser pilares para a ciência na região noroeste da Argentina e em outras partes do mundo, inclusive no Brasil (leia aqui), já que Penck é o autor de um importante paradigma que explica a evolução do relevo por interferências climáticas.

Acompanhe as realizações deste importante cientista/montanhista:

•    Nasce em 30 de Agosto de 1888 em Viena
•    Morre em 23 de Setembro de 1923 em Stuttgart, antes que seu pai, o também geocientista Albrecht Penck, que faleceu em 1945.
•    Casado com Aenne Lamper e tem 2 filhos
•    Requerido pelo Ministério de Agricultura, Diretoria Geral de Minas, Geologia e Hidrologia de Buenos Aires entre os anos de 1912 e 1924.
•    Trabalhos em trigonometria, Geologia, Geografia, hidrogeografia e topografia de 12.000 quilômetros quadrados, compreendendo desde Tucuman até a cidade chilena de Copiapó, com ênfase na região de Tinogasta e Fiambalá.
•    Seus livros, tratados e publicações em revistas científicas são numeroso, mas os mais importantes foram: “A análise morfológica” e “A borda austral da Puna de Atacama”, esta última, publicada em 1920.

Durante suas expedições, venceu alturas entre os 4 mil e 6 mil metros, montanhas dentre as quais se encontra o Incahuasi e o San Francisco e também um cume secundário do Cerro Bonete Chico.

Por seus trabalhos realizados, a famosa academia de Ciências Naturais de Córdoba, Argentina, o nomeou como membro honorário. Na Alemanha, a associação de Geografia
 
Lembranças com História


“Não posso relembrar quantos anos tinha, mas era pequeno. No meu quarto de brincar havia uma foto pendurada na parede, era meu avô sentado em um cavalo com um rifle em suas costas. Eu sentia orgulhoso de ter um avô como o velho Shatterhand, o herói nos livros de Karl May”. Diz Gerhard, perguntado sobre com que idade ele ficou sabendo das histórias de seu avô. Logo completou: “ Em nossa sala de estar, tínhamos uma sela e a usávamos como cadeira. Era a sela que ele usou durante seus trabalhos na Puna argentina”.

Gerhard, arquiteto de 48 anos, radicado na Alemanha, leva os genes do insigne geocientista Walther Penck. Tristemente, apenas seu pai, Helmut, o conheceu. Sua morte prematura deixou grandes vazios no mundo da ciência, não podendo representar sua grande contribuição às teorias geomorfológicas que fez durante suas pesquisas na Argentina e posteriormente na Ásia Menor. Seu trabalho principal - A análise geomorfológica - foi publicado por seu pai, o bisavô de Gerhard, Albrecht Penck (cientista que propôs a criação da carta mundial em escala de 1.1.000.000), baseada nos manuscritos que ficaram depois da morte de Walther em 1924.

Foi em sua juventude que o neto realmente descobriu seu avô. “Em 1982, duas pessoas argentino-alemães procuraram os descendentes de meu avô. Federico Kibus, jornalista muito interessado em sua vida e o engenheiro florestal Enrique Funk, responsável pela comissão do governo para construir a estrada ao Paso San Francisco e quem estava muito impressionado pelos mapas tão precisos feitos por meu avô” expressou e continua: “Meu pai, Helmut, resgatou a memória dele, fazendo uma copia escrita, palavra por palavra de seus diários. Ambos os pesquisadores convidaram meu pai a ir para à Argentina, mas devido a uma doença, ele não pode e então fui eu em seu lugar”. “Te dou meus olhos e meus desejos e você me trás todas as sensações”. Disse Gerhard, sobre o comentário de seu pai antes dele viajar os locais que encantou e deu notoriedade ao seu avô.

Gerhard chegou à Argentina em 1985. “Fiquei um pouco mais de um ano na Argentina, fazendo mais do que podia ter imaginado. Trabalhei na selva em Misiones e em uma aldeia Guarani, depois, na Puna de Jujuy, em um povoado chamado Cerro Bayo, obtive material para minha tese sobre o  futuro desenvolvimento urbano da cidade de San Salvador de Jujuy”.

Gerhard continua a falar sobre as aventuras de seguir os passos do avô:  “Eu tinha um cachorro e dormia sobre a pele lanuda de ovelhas no chão das cabanas e casinhas da região noroeste da Argentina, como deveria ter feito meu avô. Fui conhecer o Paso San Francisco no ônibus dos trabalhadores da estrada. Admirei o Cerro San Francisco e o Incahuasi e me senti orgulhoso em saber que meu avô conseguiu chegar no cume de ambas as montanhas em apenas 4 adias”.

Diário da Puna

Lendo seus Diários de pesquisas e viagens à Cordilheira dos Andes, me dei conta que Walther deixou muito coração e ficou maravilhado por estas montanhas: “... A noite é fresca, quase grandiosa. Nas vinhas abundam os bichos de luz. Como escuras sombras se apresentam nossa bagagem. As mulas pastoreiam. Ao lado de uma vela, toma mate meu secretário Marcelino. Um cachorro se entretém com os ossos. Eu me entretenho com a escrita. Outra vez saluda-me o Órion. É fabuloso. O silêncio, o ar fresco, tudo!”. Os diários foram traduzidos pelo engenheiro Funck e publicados em Catamarca em 2003, mais de 75 anos depois que o bico de pluma de Walther os criou.

Tanto Gerhard como Helmut pesquisaram sobre a vida do geocientista, tentando resgatar os passos que deixou em solo argentino, os amigos que teve e sua inspiração pelos Andes. Walther escreveu diariamente, usando dezenas de pequenos cadernos. Todas suas aventuras, impressões e observações científicas ficaram como lembrança do arquivo familiar. “Estudei com determinação o diário que ele escreveu em abril de 1915, durante a Primeira Guerra Mundial, quando permanecia nas trincheiras – me disse Gerhard – e lí algo que me emocionou”:

“Muitas vezes tenho lindos pensamentos e creio que estou na Puna, deus, tenho sonhos com ela (a Puna) e com Tino (Tinogasta). Preciso ir para lá. A paisagem aqui tem muito de lá, e posso lembrar-me de tudo o que vi. Ali, como homem livre, e aqui como servidor”.

Em 1955, uma expedição de montanhistas da Associação de Andinismo de Tucuman (ATA), liderada pelo reconhecido professor Orlando Bravo, rebatizou com nome de Walther Penck o então Cerro Cazadero. Ele fez em “homenagem ao cientista alemão que nos anos de 1912/13 foi o primeiro a levantar a carta geológica da região e ascender alguns de seus cumes”.

Gerhard fala amavelmente pelo telefone e me diz que os restos de Walther descansam no cemitério de Stuttgart e confessa que “pude entender meu avô. Na Puna se trabalho dura, as noites são frias e os dias quentes, a paisagem é indescritível e está quase sempre só, sente-se livre e deseja sempre regressar à Puna. E nunca pode esquecer que esta experiência, a paisagem e tudo é a felicidade que sente”.

De repente, um silêncio na linha. Logo, em um emotivo balburdio, Gerhard se expõe: “Em muitas ocasiões, regresso 20 anos atrás, naqueles dias que trabalhei na Argentina e nestes momentos sinto que meu avô e eu somos uma só pessoa”.


 Gerhard Penck hoje em dia em sua residência na Alemanha.



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