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Muito antes dos europeus

Antes dos Primeiros: O montanhismo dos Incas


Categoria: História

Na história oficial, o montanhismo começa quando Gabriel Paccard e Jacques Balmat alcançam o cume do Mont Blanc no longínquo ano de 1785. Apesar de existirem registros de ascensões a montanhas antes da conquista da montanha mais alta dos Alpes, foi com esta escalada que começou uma cultura de escalar montanhas. Razões para isso se dá por diversos motivos, como a grandiosidade do feito e também pelas mudanças na forma de viver e de pensar que o século das luzes acarretou na vida privada das pessoas na Europa.

 
 
No entanto, outro montanhismo, muito diferente deste nosso atual e também dos primórdios do alpinismo europeu, se desenvolveu com muita força cerca de três séculos antes da primeira ascensão à montanha mais alta dos Alpes, e isso foi na mais extensa cadeia de montanhas do mundo: Os Andes. Esta cultura de ascender montanhas foi durante muito tempo desconhecida e, depois, ignorada. Trata-se do montanhismo praticado pelos Incas, que estiveram em quase todas as montanhas em seu vasto território que ia da Colômbia à Argentina.
 
Esta rica civilização pré-colombiana foi caracterizada por seu poder bélico e um sistema político eficiente que conseguiu dominar muitos povos e agregar conhecimentos de muitas outras culturas indígenas, o que durante um breve período de tempo acarretou em prosperidade econômica e avanço cultural.
 
Naturais da região de Cuzco, no Sul do Peru, os Incas são na verdade a civilização Quéchua que despontou como um império, o chamado Tawantisuyo (o país das quatro regiões) no final do século XV, cerca de 50 anos antes de Pizarro chegar ao continente sulamericano.
 
Por ser uma civilização andina, era natural para esses povos estarem na montanha e as considerarem sagradas. Nos Andes, a religião motivou os Incas a escalarem as montanhas. Um paradoxo já que na Europa era a religião e a crença que nas montanhas habitavam seres malignos o que impediu a evolução do montanhismo durante a Idade Média.
 
O maior problema dos Incas foi que suas histórias se perderam, exatamente pelo fato de ser uma civilização que não tinha escrita. Como a história era oral, contada boca a boca, ela foi esquecida e o que sabemos hoje de suas escaladas vêm de pesquisas arqueológicas que começaram há pouco tempo.
 
No entanto, há muito tempo colonizadores espanhóis já encontravam em grande quantidade e relatavam a existência de “objetos indígenas” encontrados em locais montanhosos e inusitados, como os muros de pedra nas encostas do Vulcão Misti no Peru por volta de 1540. No entanto, mesmo com uma colonização pautada no extrativismo mineral e na escravização de indígenas para trabalhar nas minas, os espanhóis deram pouca importância à cultura e à vida privada dos nativos e nunca desenvolveram uma cultura de ascensão ou exploração de montanhas.
 
As montanhas andinas começaram a ser escaladas por europeus somente no século XIX de forma muito dispersa. Primeiramente por exploradores naturalistas, como Humboldt e só no final deste século por esportistas, provenientes de países como a Inglaterra, que na época era a potência mundial e apostava no esporte como forma de propaganda imperialista.
 
Um destes montanhistas exploradores ingleses, William Martin Conway, que foi o primeiro a ascender várias altas montanhas andinas, encontrou no cume do Chachani de 6060 metros de altitude no Peru um túmulo incaico. No mesmo ano, em 1901, foi publicado na Argentina um livro detalhado descrevendo a descoberta de objetos indígenas no cume do Nevado Chañi no Norte do país. Estas descobertas levantaram interesses de exploradores e arqueólogos de que muitas montanhas da região da Puna do Atacama, uma região alta e seca onde se concentram a maioria das montanhas com mais de 6 mil metros dos Andes tivessem sido escaladas pelos Incas.
 
Era sabido que os Incas realizavam cerimônias de sacrifício humano, chamadas de “Capacocha” e não é de se imaginar que por serem sagradas eles realizassem estes rituais nas montanhas, mais perto de seu Deus “Wiracocha” ou “Pachamama”. Por mais que se tenha como pano de fundo este ritual terrível, é de fato surpreendente imaginar que 300 anos antes dos europeus, os Incas, que viviam na idade do Bronze, pudessem escalar montanhas até 2 mil metros mais altas que os Alpes.
 
No entanto, a Geografia da região de Puna do Atacama, que é uma região vulcânica, nem sempre impõe dificuldades técnicas. Como vulcões geralmente tem encostas como uma única inclinação e a região é muito seca para a evolução de glaciares, as dificuldades são mais da ordem climática (frio intenso e vento), logística e a própria altitude das montanhas.
 
Meu interesse em resgatar as histórias do montanhismo incaico começou em janeiro de 2013 quando participei de uma das etapas do Projeto Mundo andino com Waldemar Niclevicz e escalamos o vulcão Antofalla, de 6440 metros de altitude, no coração da Puna do Atacama no norte argentino.
 
O Antofalla não é uma montanha difícil, mas é muito alta e extremamente remota. Pouquíssimos a escalam e não se acha informações sobre esta montanha em lugar nenhum. No entanto, após o grande esforço fomos surpreendidos ao chegar ao cume. Lá encontramos uma área com cerca de 16m2 limpa e aplainada, cercada com pequenos muros de pedras e um totem ao centro com muita madeira ressequida espalhada pelo local. Estes totens de pedras são comumente achados em passos (as selas) entre montanhas e são chamadas de “Apachetas”.
 
Ainda naquela expedição escalamos muitas outras montanhas com presença de ruínas incas, como o Peinado (que foi a quarta ascensão moderna), Incahuasi, Pissis, Mercedário e Las Tórtolas, todas, com exceção da primeira, montanhas acima dos 6 mil metros.
 
A ascensão ao Antofalla me motivou um ano mais tarde a escalar o Llullaillaco, sétima montanha mais alta dos Andes que eu havia visto do Antofalla. Fiz uma aclimatação junto com Luis Antoniutti e seu filho Luca, de 15 anos, escalando o Sairecabur, no Chile e o Licancabur na Bolívia, onde também há ruínas incas.
 
O Llullallaico é uma montanha impressionante. Com 6770 metros de altitude é o sitio arqueológico mais alto do mundo. Quase em seu cume foi encontrado por uma expedição da National Geographic três crianças incas em perfeito estado de conservação em 1999. Com temperaturas sempre negativas e umidade do ar baixíssima, os corpos dos chamados “niños del Llullaillaco” se mumificaram naturalmente. O interessante foi a pesquisa que estudou como elas foram parar lá.
 
As crianças do Llullaillaco foram sacrificadas no cume da montanha num ritual religioso. Fazendo estudos toxicológicos com o cabelo das crianças foi possível saber que um ano antes de morrerem elas mudaram sua dieta, o que indica que suas origens eram populares, mas que ao serem escolhidas para serem sacrificadas, elas foram engordadas e meses antes de morrer empreenderam uma longa viagem, de Cuzco ao norte da Argentina. No momento de sua morte elas já estavam sofrendo com a altitude e estavam embebidas com Chicha, uma bebida alcoólica típica dos índios do Peru e Bolívia.
 
Junto com os corpos foi achado um rico enxoval funerário com objetos finamente ornamentados com ouro, prata, tecidos delicados, plumas de aves tropicais e outras coisas. Eram bonecos de pessoas e de lhamas, pentes, sapatinhos e outras vestimentas.
 
Sacrifícios humanos não foram exclusivos ao Llullaillaco. No norte da Argentina e Chile foram encontrados muitos sepultamentos nas montanhas, como foi o famoso caso da múmia do Nevado Plomo no Chile, e outras na Argentina, inclusive no Aconcágua, onde foi achado uma criança de 8 anos na face sudeste da montanha que foi posteriormente estudada por Juan Schobingen, o maior arqueólogo de montanhas da Argentina.
 
Os enxovais funerários eram tesouros valiosos e sua descoberta motivou a que outros escaladores anônimos escalassem as montanhas andinas, também antes dos europeus. Não se sabe quantos adoratórios foram saqueados com o objetivo de obter dinheiro vendendo ouro e joias dos incas. Um dos casos mais famosos foi a violação de uma ruína localizada quase no cume do Nevado Quewar na Província de Salta na Argentina por volta do ano de 1970.  Os “huaqueros” como eram chamados os caçadores de tesouros na região, dinamitaram uma construção inca e explodiram uma múmia que ali estava sepultada.
 
O Quewar é uma montanha até hoje pouco frequentada. Escalei essa montanha em 2015 com Maria Tereza Ulbrich, e pudemos ver e ficar admirados com as ruínas que foram dinamitadas. Ela está numa altitude de 6150 metros e é a maior e mais bela que já vi, sendo composta uma estrutura quadrada de base aplainada e uma escada que dá acesso à sala principal.
 
 
O norte da Argentina e do Chile junto com a Bolívia compunha a maior região do império Inca, chamada de Kollasuyo (região sul). Ali os Incas dominaram os Aymarás, que são os índios que vivem no altiplano e que são os habitantes naturais da Bolívia e outros índios que viviam nos vales entre a cordilheira principal e as prés cordilheiras, os chamados “índios dieguitas”. Interessante notar que até hoje há índios que falam o Quéchua, que é a língua nativa dos Incas, o que demonstra como eles interferiram culturalmente na região.
 
Para comunicar este imenso território os incas construíram estradas, cujo o tronco principal era chamado de Capac Ñan. Haviam entrepostos onde regionalmente serviam como locais para receber produtos que eram recolhidos como tributos e que viajavam por tropas de lhamas até Cuzco. Estes locais também eram locais onde se reuniam as tropas e de onde era exercido o poder dos Quéchuas sobre os índios locais.
 
O conquistador Diego de Almagro utilizou o Capac Ñan para invadir o norte da Argentina e através do Paso de San Francisco (onde estão dezenas de montanhas acima dos 6 mil, como o Ojos del Salado, segunda mais alta dos Andes) conquistou o Chile. A chegada dos espanhóis desestabilizou a estrutura incaica do Kollasuyo e antes mesmo dos europeus chegarem na região estes entrepostos já estavam abandonados e guerras internas já haviam libertado os povos subjulgados pelo Inca.
 
Na mesma expedição em que escalei o Quewar, por curiosidade, fui parar numa cidade na província de Catamarca chamada “Londres” que fui descobrir ser a segunda cidade mais antiga da Argentina, fundada em 1558 em homenagem a Maria Tudor da Inglaterra, esposa do rei Felipe II da Espanha. Londres da Nova Inglaterra foi várias vezes destruída e saqueada pelos Dieguitas, mas foi reconstruída depois. O curioso deste local, foi que mesmo sendo há muito tempo ocupado pelos colonizadores, somente no século XX foi descoberta a maior ruína inca da Argentina que era exatamente o maior entreposto comercial, fiscal e bélico do império Inca no atual território deste país.
 
Esta impressionante cidade pré-colombiana, que atualmente é chamada de “El Shical”, abandonada antes da chegada do europeu, ficou esquecido e sequer sabemos como os Incas a chamavam. Ela tem uma estrutura parecida com Machu Picchu, com uma praça central rodeada por pirâmides que eram pontos de observação bélica. Tinha armazéns para armazenamento de alimentos, casas dos soldados e dos funcionários que trabalhavam na burocracia do estado incaico. No centro de tudo uma construção retangular elevada acessada por uma escada chamada de “Ushnu”, era o “gabinete” do chefe da cidade. Curiosamente uma construção muito parecida com a ruína do Nevado Quewar.
 
Conversando com outros montanhistas que já escalaram muitas montanhas também escaladas pelos Incas, como Maximo Kausch, Waldemar Niclevicz e Angel Arnesto, pudemos concluir apenas por indução e nosso próprio conhecimento sobre Geografia e Montanhismo, que os Incas não teriam tanto sucesso em suas escaladas se não tivessem montanhistas treinados e especializados em conquistar estas montanhas. Estas pessoas, especialmente talentosas para suportar os infortúnios da montanha desempenhavam apenas esta função na sociedade. Pois acreditamos não ser possível para alguém desempenhar uma dupla função laboral, ou seja, eram pessoas que eram alimentadas e supridas por outras e tinham apenas esta função de escalar, já que devido as tecnologias da época, estas escaladas eram muito mais difíceis naquela época.
 
Os Incas não tinham barracas. Eles tinham que construir abrigos de pedra com teto de palha (muitos deste abrigos ainda estão na montanha em forme de ruinas), eles não tinham roupas de nylon e pluma de ganso, se viravam com roupas com lã de Alpaca. Não tinham botas, calçavam um tipo de uma pantufa com 8 camadas de Alpaca, chamada “Orco Kawkachun”. Para isolar o frio do chão dormiam em esteiras feitas de fibras naturais enrolados em peles de animais.
 
A profissão de montanhista no império Inca era muito perigosa e mortes eram frequentes. Muitas múmias Incas que encontramos nas montanhas não eram apenas dos Sacrifícios (Capacochas), mas são também de montanhistas que caíram e morreram durante uma escalada. Também morriam os animais por eles usados nas ascensões. No Aconcágua, por exemplo, foi encontrado um Guanaco ornamentado com enfeites indígenas no filo entre o Cume Sul e o principal, que não por acaso se chama de “filo del Guanaco”. O curioso é que o Guanaco não é um animal que frequenta alturas, habitando sobre tudo os vales. A presença deste animal é uma prova de que até o Teto das Américas foi escalado pelos Incas, um feito impressionante, já que a primeira escalada moderna na montanha ocorreu apenas em 1897.
 
Temos cada vez mais reparado nos indícios de escaladas pré-colombianas. As mais comuns são madeiras e muros de pedras, sendo que as primeiras são as mais fáceis de afirmar serem indígenas e antigas. Encontrei madeiras em dezenas de montanhas andinas, algumas muito altas, como o Sajama e o Mercedário. Somente nesta última observei a mesma queimada. No Socompa, vulcão localizado na fronteira entre o Chile a Argentina no norte destes países, vi a mesma sendo utilizada como sinalização de trilha num trecho pouco óbvio. No então não posso afirmar que esta seja a finalidade inicial do objeto. Seria muito interessante se tivéssemos acesso a um laboratório e poder datar estas madeiras pelo método de C14 ou Isótopos Cosmogênicos para provar que elas são ou não antigas.
 
 
Ainda em 2015 consegui um patrocínio da Mountain Everest Foundation, entidade britânica que financia projetos de cunho exploratório e científico em montanhas. Junto com a cientista inglesa Suzie Imber, o montanhista Maximo Kausch , o jornalista e fotógrafo Caio Vilela e o mecânico Jovani Blume fomos à Puna do Atacama escalar montanhas remotas e achar prováveis ruínas incas que vimos em imagens de satélite. Escalamos diversas montanhas que, de acordo com montanhistas locais da Argentina e Chile e seus clubes, eram virgens e em diversas delas achamos apachetas. Também achamos grandes concentrações de acampamentos, chamados de “tambos”,  com dezenas de muros de pedras circulares construídos para proteger viajantes dos ventos. Todos em locais próximos a lagos ou rios que tinham vegetação para a pastagem de animais e sempre a uma distância de 30 ou 50 quilômetros uns dos outros. Neste local pudemos perceber que as montanhas tinham uma importância significativa de servir como um mapa para indicar os locais corretos para trafegar com uma tropa de animais entre os centros produtivos do império cruzando a vastidão perigosa dos desertos de altitude.
 
Depois de tanta experiência de escaladas nos Andes, hoje posso afirmar sem errar que os Incas desenvolveram uma cultura de montanhismo e por isso estiveram e escalaram muitas montanhas de altitude e que, aliás, na maioria são as montanhas que mais se destacam na paisagem e que nem todas elas são fáceis.
 
Por uma questão natural, as montanhas de gelo não preservaram os resquícios dessas escaladas pré-colombianas. Mas acredito que nem mesmo os glaciares foram suficientes para barrar os incas em suas conquistas montanhísticas. Num dos poucos registros de escaladas em montanhas mais técnicas, o explorador britânico William Martin Conway em 1892 encontrou uma corda indígena há 6 mil metros de altitude no Illimani, Bolívia. Ótimos metalúrgicos, os Incas eram capazes de fabricar objetos que desempenhassem a função de freio e fixação de proteções no gelo. Será que eles foram tão longe?
 
Uma coisa é certa. É fato que os Incas foram os povos mais antigos a desenvolver uma forte cultura de montanhismo. É fato também que esta cultura desapareceu com o fim do império e nosso montanhismo atual todo descende das escaladas europeias. Do montanhismo incaico sabemos apenas através de pesquisas arqueológicas e nunca saberemos ao certo se foi apenas a religião a motivação principal para tantas ascensões ou se haviam outras relações culturais que entrelaçavam os homens às montanhas.
 
*Pedro Hauck é geógrafo e montanhista. Trabalha como guia de montanha pela agência GenteDeMontanha e como editor do site AltaMontanha.com. Ele também é sócio da Loja AltaMontanha, especializada em equipamentos para montanhismo.
 
Veja mais:
 
:: A ruína inca no cume do Nevado Quewar - Coluna Pedro Hauck



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