Aves Infelizes - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
Série Extinções de Alberto Ortenblad

Aves Infelizes


Colunista:

As moas gigantes eram aves enormes, das maiores que habitaram a terra, com 3 a 4 m de altura. Tinham asas pequenas, pernas grossas e pés grandes, com longos pescoços que terminavam em cabeças delicadas. Viviam em pares, junto a pequenos grupos familiares. Habitavam a Nova Zelândia e seu único predador era a imensa águia de haast. Eram os herbívoros dominantes do seu ambiente.

Os maoris chegaram à Nova Zelândia vindos da Polinésia e notaram que as moas eram animais dóceis, fáceis de serem caçados. Eles apenas consumiam suas coxas, pois acreditavam que elas fortaleciam seus guerreiros. As moas viviam nas florestas, que começaram a escassear por ação da agricultura dos maoris. Doenças trazidas por aves migratórias e efeitos de uma erupção vulcânica foram também causas da extinção. 
 
Existiam cerca de dez espécies diferentes de moas. Sua população chegou a 170 mil exemplares (dos quais 9 mil gigantes), mas não sobreviveram menos de dois séculos após a chegada dos homens. Tornaram-se extintas entre os séculos XV e XVI, aliás junto com as águias de haast. Porém, como existe ainda hoje uma grande quantidade de ossos, seria possível retirar material para mapear seu genoma e ressuscitar essas aves maravilhosas.   
 
O dodô era um grande pombo gordo e acinzentado, com 1 m de altura, patas amarelas e longos bicos coloridos. Sua aparência singular fez dele no Ocidente um símbolo de algo remoto e exótico e um ícone da extinção animal. Habitava a Ilha Maurício, onde a pouca competição por alimento permitiu que atingisse grande porte. A falta de predadores mamíferos fez com que perdesse a capacidade de voar. Não se conhece sua população nem seu comportamento, mas sabe-se que eram dóceis, sendo facilmente capturados.    
 
A Ilha Maurício é uma dessas formações perdidas no Oceano Índico, a quase mil km de Madagascar, por sua vez uma ilha no leste da África. Seu nome foi uma homenagem a nosso conhecido Maurício de Nassau. Antes da chegada dos holandeses, era inteiramente coberta por florestas, cujos frutos e raízes eram alimento dos dodôs. A primeira menção ao dodô ocorreu no fim do século XVI e o último avistamento, quase ao fim do século seguinte. Assim, a ave foi extinta em menos de um século.
 
Embora haja a versão de que o pássaro foi predado por marinheiros famintos, acho que as causas da extinção foram outras. A população da ilha nunca excedeu a 50 pessoas e os holandeses a abandonaram logo, em 1710. É possível que o dodô já estivesse em declínio, devido à sua pequena prole. O ecossistema da ilha foi muito danificado pelos homens, várias outras aves tendo sido também extintas – o papagaio, o ganso, a galinhola, o pato. Os humanos introduziram animais como cães, porcos e macacos, com efeitos nocivos sobre a fauna. Esse exemplo me mostrou que os homens conseguem extinguir, antes mesmo de precisar matar.  
 
Em seu apogeu, os araus gigantes se espalhavam da Noruega ao Canadá e da Flórida à Itália, contavam-se milhões deles. Eram aves com até 85 cm de altura e, no meu entender, muito bonitas, com dorsos pretos, frentes brancas, grandes bicos curvos e manchas claras abaixo dos olhos. Incapazes de voar, caminhavam lentamente, mas eram exímias nadadoras, devido ao uso das asas e nadadeiras. Mergulhavam muito fundo e submergiam mais longo que as focas. Eram animais sociais e monogâmicos.
 
Sua docilidade fez com que fossem caçadas desde a pré-história, como atestam os ossos encontrados em acampamentos neandertais. Seu extermínio aumentou com o início das navegações, pois os ovos e a carne serviam de alimento para os marinheiros, atraídos pela pesca do bacalhau. Eram também mortas como isca de pesca e lenha para fogueira, devido a seus corpos oleosos. Suas penas eram usadas em travesseiros e, à medida que a caça as fez mais raras, tornaram-se alvo de colecionadores. Já se disse que foram exploradas de todas as maneiras que o engenho humano podia conceber.
 
Eram poucos os locais adequados à sua ocupação; assim, juntavam-se em grandes colônias nas ilhas rochosas do Atlântico Norte. Seu maior criatório foi na Ilha Funk na costa canadense. Nela as aves eram recolhidas no interior de cercados de pedra, onde eram mortas ou depenadas. Após séculos de devastação, restou aos araus uma única colônia na costa da Islândia, até que uma erupção a afundou. Então, só tiveram um derradeiro refúgio no pequeno rochedo de Eldey.
 
Num dia de verão de 1844, três islandeses aportaram na ilha, onde vivia o último casal de araus, junto com o ovo que procriaram. As lentas aves foram enforcadas, enquanto o ovo se partiu. Elas foram vendidas a um comerciante por míseras nove libras. Ninguém mais sabe delas, mas o Instituto de História Natural da Islândia orgulhosamente exibe um exemplar (na realidade, um esqueleto), que pertenceu à coleção de um conde dinamarquês. Foi adquirido por exatas mil vezes o preço daquele último casal de araus.
 
O Lago de Atitlan é um local turístico perto de Antígua, cidade colonial que já foi a capital da Guatemala. É um local paradisíaco, cercado por cênicos vulcões e vilas pitorescas. Ele abrigava uma espécie de mergulhão que nunca foi numerosa, devido à sua distribuição restrita – não mais de 200 a 300 indivíduos.  Estes mergulhões de atitlan eram aves grandes, com envergadura de 120 cm, curiosamente incapazes de voar. De plumagem castanha e verde oliva, habitavam ninhos à margem do lago, eram territorialistas e monogâmicas.   
 
A extinção dos mergulhões de atitlan é uma história triste em cinco capítulos. Primeiro, o planejamento turístico do lago previu a introdução de robalos, peixes propícios para a pesca. Porém eles atacaram a população de crustáceos e moluscos, alimento dos mergulhões, reduzindo-a drasticamente. Segundo, a fabricação de esteiras de palha provocou a colheita dos juncos nas margens do lago, onde os mergulhões faziam seus ninhos.
 
Como em 1965 havia apenas 80 aves, houve uma negociação para controlar o corte dos juncos. Num local remoto do lago foi criado um santuário que recompôs o nível original de sua população. Porém dez anos depois um terremoto rebaixou o nível da água, diminuindo a área disponível para as aves e suas presas. E foi então que mergulhões caçadores apareceram, competindo vantajosamente contra a espécie local, por serem fortes e voadores. No fim, só restaram 32 mergulhões de atitlan.
 
Os cientistas resolveram caçar os últimos indivíduos, para recuperar a espécie em cativeiro. Porém, ao tentar capturá-los, descobriram que voavam. Eram todos fruto de cruzamentos com os mergulhões caçadores - e escaparam voando para longe. O último indivíduo puro morreu em 1989 e a espécie se extinguiu.   
 
Mas gostaria de encerrar esta coluna com uma nota otimista sobre a nossa ararinha azul. Ela era endêmica da caatinga baiana e foi primeiro descrita por Spix, na sua histórica viagem ao Brasil. Mas, devido ao corte de madeira, à competição com abelhas africanas e sobretudo ao tráfego ilegal, a população se reduziu a um único animal. Por volta do ano de 2000, ele desapareceu, após cantar inutilmente para chamar a companheira que não mais existia. 
 
Só havia então ararinhas em cativeiro, quase uma centena delas, o que as tornou uma das aves mais raras do mundo. Em 2014, registrou-se pela primeira vez o nascimento de duas ararinhas num centro de conservação paulista. Quem sabe possam ser gloriosamente reintroduzidas na natureza e voltem a pintar de azul o céu da caatinga.                      
 



Publicidade