A cachu de Califórnia

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Califórnia é um município norteparanaense, situado a 70kms de Londrina, que deve seu nome ao engenheiro francês que fez a medição de suas terras, Alberto Le Veillie Du Plessis, por achar seu clima e aspectos naturais semelhantes ao estado norte-americano de mesmo nome. Pacato por natureza, seu principais acidentes geográficos são o rio Taquara e o rio Jacucaca. Entretanto, é dum afluente menor, o córrego do Atum, que vem o maior atrativo natureba local, a Cachu Portelinha. E foi pra lá que nos mandamos num domingo de tempo bom pra banhos refrescantes.

A manhã daquele domingão nascia radiante quando a Elenice pegou eu e a Lau em casa, pouco antes das 9hr, pra depois zarpar ininterruptamente pelo asfalto da BR-369. Tangenciamos a cidade de Rolândia, entramos em Arapongas e depois cruzamos Apucarana, conhecida por ser a “Capital do Boné”. Papo vai e papo vem, o tempo passou incrivelmente despercebido, tanto que nem vimos o marco do Trópico de Capricórnio, que por sinal serve de marco limítrofe destas duas últimas cidades.

Só pouco depois de Apucarana e da minúscula Vila Reis é que finalmente cruzamos o portal de entrada da pacata Califórnia, que nos dá as boas vindas. Contudo, nem precisamos adentrar no interior do povoado e de sua simpática praça central, algo típico dos vilarejos do Terceiro Planalto Paranaense. Ao invés disso, estacionamos num dos postos de gasolina situados depois logo depois do tal pórtico. Califórnia é um ovo de vilarejo que se esparrama á margem da BR-369, bem menor que todas as cidades cruzadas no rolê.

Ajeitamos as mochilas ás costas, enchemos os cantis e pusemo-nos a andar, retrocedendo tranquilamente pelo asfalto até a primeira entrada á nossa esquerda, onde adentramos rumo sudoeste. Como referência existe na frente um estabelecimento de nome Gasparetto. Cruzamos os trilhos da antiga Estrada de Ferro SP-PR e na estrada de chão a seguir viramos á direita, tocando um trecho bem breve em meio a algumas residências pro norte.

Em direção ao vale do ribeirão Atum

Logo a frente existe a via se divide em duas, onde me mantenho na ramificação da esquerda, que finalmente ganha os vastos campos e horizontes que se descortinam a sudoeste. E nesta poeirenta estrada de chão que vamos nos manter durante um bom tempo, ininterruptamente, descendo sempre de foma quase imperceptível. Campinas douradas alternam-se com pequenos focos verdes de mata que salpicam aqui e acolá, onde destoa uma ou outra fazenda ao longe. Na margem da via alguns boizinhos nos olham com curiosidade, assim como uma oportuna farta goiabeira faz a festa das meninas, que se lambuzam com a facilidade que seus frutos estão á mão.

Assim, sempre descendo suavemente em linha reta e ignorando saídas laterais, começamos a bordejar o sopé da morraria florestada que surge a oeste. Mas logo penetramos num setor da estrada, que continua sempre desviando pra oeste aos poucos, onde o frescor do alto arvoredo dá enfim adeus aos amplos horizontes antes palmilhados. Sim, estávamos nos limites do vale do pequeno Córrego do Atum, cujo rabicho de verdejante mata se espichava no miolo dos campos dourados e era visível de longe.

Ruínas da antiga fazenda

Trilha desce ao fundo do vale

Abandonamos a estrada antes duma curva fechada pro sul, onde existe uma pequena cerca de arame á nossa esquerda. Existe também, como referência, as ruínas de um antigo casario tomados pelo mato, provavelmente vestígios duma das antigas fazendas que colonizou a região no século retrasado. Dali, após a cerca, tomamos uma simpática vereda gramada que segue na direção contrária á estrada antes percorrida, porém adentrando diagonalmente no centro do vale em questão. Pronto, aqui não tem mais erro.

A trilha visivelmente é uma antiga estrada em desuso, uma vez que conforme perdemos altitude a encosta a nossa esquerda apresenta-se relativamente aprumada. Simultaneamente a mata arbustiva logo dá lugar ao alto arvoredo que nos refresca com sua convidativa sombra, assim como o som do rugido de água correndo que aumenta conforme seguimos vale adentro.

Caminho mais fechado e com mais obstáculos

Um tempo nesse ritmo compassado a precária vereda desembocou numa grande clareira gramada, quase do lado da margem onde o ribeirão Atum marulhava mansinho e tranqüilo. Mas dali nascia outra estreita vereda que acompanhava o ribeirão em meio a muita mata, troncos tombados e voçorocas de arbustos espinhentos que teimavam em fechar nosso caminho. Trecho mais áspero e rústico de todo trajeto, porém breve e nivelado com o rio, que se fazia ouvir cada vez mais e mais alto.

Dito e feito, num piscar de olhos pisamos na margem pedregosa do enorme lago formado pelo represamento das águas do ribeirão, que despencavam duma altura de mais de 20m. Ali as águas do riacho despencavam inicialmente na vertical pra depois seguir seu curso pela superfície inclinada rochosa da queda. Naturalmente que jogamos as tralhas no chão, a exato meio-dia,  e mandamos ver um refrescante tchibum naquela piscina natureba que era totalmente nossa.  O dia, que alternava seu humor entre nebulosidade clara com frestas de céu azul, cismou naquele exato momento em brilhar pra gente, tornando nossa estadia muito mais agradável.

E depois do banho veio a comilança. Sandubas se reversavam com salgados e bolachas, enquanto goles de suco eram avidamente bebericados naquele inicio de tarde especial.  Enquanto as meninas confabulavam entre si resolvi xeretar a outra margem do rio, facilmente acessível saltando as pedras pelo leito raso. Ali havia sinais de acampamento e, infelizmente, algum lixo. Latas de cerveja e garrafas sinalizam não apenas os irresponsáveis como a facilidade de acesso aquele belo recanto.

Mas dali nasce uma vereda que se pirulita encosta acima, mato adentro, em direção ao lato da queda. Trecho breve porém com bastante inclinação, onde o arvoredo ao redor fornece o apoio mais que necessário em galhos e raízes pra finalmente desembocar no alto da bela cachoeira. A vista do alto é privilegiada pois contempla todo o verdejante vale do Rio Atum seguindo seu curso direção sudoeste, além de todo o arredondado espelho d’água formado pela queda. Momento de cliques e contemplação, claro.

Cachu Portelinha

Só curtição na cachu do córrego Atum

Vale maravilhoso

Tchibum no poção

Visu do topo da cachu

Retornei no exato momento em que o sol brilhava com toda sua potência, aumentando o calor daquele rincão natureba a níveis insuportáveis, e me presenteei outra vez com mais uma rodada de refrescante banho. Nesse meio termo as meninas se pirulitaram pro alto da queda e na volta igualmente me acompanharam num tchibum mais prolongado, dando vazão á sua veia de sereias do mato.  Por incrível que possa parecer, não apareceu ninguém mesmo sendo final de semana.

Nos juntamos depois a margem do piscinão afim de descansar, conversar futilidades e novamente beliscar guloseimas, mas devia ser coisa das 14:30hr quando decidimos por bem arrumar as coisas e começar a voltar. A decisão se dava porque naquele momento o céu mudava suas feições amistosas pra outras nem tanto, lançando um negrume acompanhado de vento. É, a previsão tinha alertado de pancadas naquela tarde e por conta disso resolvemos partir. Sim, o domingo havia sido proveitoso mesmo com todo aquele agouro meteorológico.

Partimos tranquilamente e sem pressa, refizemos todo trajeto até ali enquanto o firmamento na direção de Londrina apresentava uma cortina negra de chuva vindo em nossa direção. Mas por sorte, os primeiros respingos da dita cuja só nos alcançaram quando estávamos perto do veículo. Sim, a pernada tinha sido friamente calculada pra isso, me gabei pras meninas. Bebericamos e mordiscamos  mais alguma coisa no posto de serviço e tomamos nosso rumo em direção á “Pequena Londres”.

Califórnia é uma cidadezinha na qual sequer chegamos a entrar, uma vez que nos mantivemos praticamente á sua entrada, no posto de serviços. “Onde fica isso? Conheço não!”, disse o frentista do posto quando lhe mostrei fotos da cachu que tínhamos visitado. Sim, por incrível que possa parecer toda galera do posto desconhecia a existência dessa queda, sinal que nem mesmo os locais sabem as belezas naturebas que tem no próprio quintal. Ali pelo menos sei que há mais duas grandes quedas, que estão já devidamente marcadas pruma futura e vindoura visitação. De preferência num dia de sol e muito calor.

Trilha bem colorida

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Sobre o autor

Jorge Soto - Colunista

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

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