Alpha Ômega: Uma Jornada Iniciática!

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Equipe de montanhista preparada para o a grande travessia.

Já não sou mais o jovem Escoteiro da década de 90, tão pouco o neófito das Montanhas de 15 anos atrás, porém estou satisfeito com as Montanhas que percorri e os ensinamentos que aprendi desde minha Iniciação no Abrolhos.

Confesso que não estava me programando para fazer a mítica Travessia Alpha Ômega: Tinha planos mais urgentes por concretizar nos Agudos e, na Serra do Mar, minha atenção se voltava para os cumes que ainda não fiz no Ibitiraquire.

Entretanto, numa dessas felizes coincidências (elas existem?) recebi um convite para a ∆Ω do Irmão Marcelo Knieling, de Campo Mourão. Imediatamente, convidei meu cunhado Lucas Zerbinati, que acabou embarcando na trip sem saber a magnitude da enrascada em que estava se metendo.

Após alguns dias, em uma visita ao CETEC do Clube de Montanha Norte Paranaense, acabamos fechando a equipe rolandense com os Irmãos Wanderley Massuci Neto e Henrique Tolkmitt, nosso famoso climber Cachoeira.

Eis que uma semana antes da empreita, o Lucão acabou descobrindo que a ∆Ω é considerada uma das Travessias mais difíceis do Montanhismo Brasileiro, com exceção, obviamente, das mega-travessias. Como era tarde demais para desistir, restava-nos tentar controlar a ansiedade e iniciar os preparativos!

A Travessia Alpha e Ômega na Serra do Marumbi.

Já foi dito e escrito que a ∆Ω separa os homens dos meninos. Fazendo uma analogia maçônica, posso assegurar que ela é a divisa entre os Aprendizes, Companheiros e Mestres. Trata-se, evidentemente, de uma jornada Iniciática onde tudo conta: Espiritual, mental, físico, consciente e subconsciente.

Pois bem. Partimos de Rolândia na véspera do feriado de Corpus Cristhi e aportamos na base do Canal, às 23h. O Lucão ficou na Defender e nós fizemos as “camas” na Lanchonete. Como a ansiedade não me deixou dormir, estava acordado quando os Frateres de Campo Mourão chegaram.

Além do Marcelo, a equipe mouronense era composta pelo Paulo Weber e pelos“tratorzinhos” Marquinhos  “Credicoamo” e Alexandre “Graxa”.  À equipe se juntou o Irmão Thiago Jugler, de Quatro Barras, que conhecia a trilha até o Morro do Carvalho. Dali para frente, todos contávamos com o GPS do Weber.

Eram 4h quando o Onildo e a Lu entraram na ∆Ω. Em seguida, foi a vez da equipe liderada pelo Jonathan, Daniel Mayer, esposas e a Rose. 4h30 foi a nossa vez! Em pouco tempo chegamos ao cume do Canal (o primeiro dos 16 cumes) onde contemplamos um visual noturno incrível da metrópole curitibana!

Sem delongas, seguimos rumo ao Vigia aonde chegamos durante o alvorecer. Seguindo nossa maratona, alcançamos o Ferradura por volta das 9h30. Após um breve descanso, atingimos o cume do Carvalho às 10h30m. Estávamos decididos: diálogos frívolos eram cada vez mais raros na equipe.

No Acampamento Fantasma.

No vale que antecede o Sem Nome, alcançamos o Onildo. Trocamos algumas palavras e seguimos em nosso ritmo alucinado. Às 11h30m alcançamos o Acampamento Fantasma, um local rodeado de mistérios e suposições. Em minha modesta opinião, pode tratar-se de uma peça pregada por alguém.

Na subida do Sem Nome, alcançamos a equipe Johnny & Mayer. Mayer era mais aberto, Johnny mais reservado, de perfil militar. Formam uma dupla excelente. Imediatamente, senti simpatia por ambos. São grandes atletas e estavam realizando sua terceira ∆Ω. Enfim, teríamos companhia naquela imensidão.

No vale, enfrentamos nosso primeiro perdido. Recorremos ao GPS do Weber, que não correspondeu. Fizemos uma varredura e acabamos reencontrando a trilha. Esta seria nossa sina até o Boa Vista! Chegamos ao cume do Mesa às 13h30m. Enquanto a galera de Campo Mourão preparava um macarrão, fomos novamente ultrapassados pela equipe Johnny & Mayer… Era preciso seguir em frente!

Vara Mato na Alpha & Ômega.

Aceleramos rumo aos Alvoradas 4, 3 e 2. Dali para frente a trilha praticamente desaparece: Bambus, cipós, unhas de gato e gretas dificultam o progresso! Parte da equipe já dava sinais de esgotamento. O Cachoeira começou a reclamar do joelho e os perdidos eram constantes: A Travessia faz jus a sua fama!

No cume do Alvorada 3, as equipes acabaram reunidas novamente. O Onildo resolveu acampar por ali. Johnny & Mayer seguiram em frente. Por maioria, decidimos seguir até o Espinhento. No interior do vale mais e mais perdidos.

No vale do Espinhento encontramos uma convidativa clareira para duas barracas. Optamos por seguir em frente, enquanto Neto, Cachoeira e Thiago pararam por ali. Disseram que iriam acampar… Equipe dividida, dilema evidente, stress e mais perdidos! Acabamos reencontrando a equipe Johnny & Mayer.

Às 17h20m, a névoa tomava conta da Serra e a escuridão se avizinhava. Fomos fitando a trilha para auxiliar nossos comparsas que ficaram no interior do Vale. Finalmente chegamos aos campos do Espinhento. O clima era o pior possível: Vento, garoa e frio. Só nos restava montar o acampamento para passar a noite.

No apagar das luzes, em meio a densa névoa, eis que chegam Neto, Thiago e Cachoeira. Alívio geral! Tomaram uns perdidos e foram salvos pelas sacolas que amarramos naquelas ermas paragens. Acampamento montado, cozinhamos e tentamos avaliar o perrengue que enfrentamos e o que estava por vir!

Dormimos 12 horas consecutivas. As 7h acordamos sob a persistente garoa gelada. E a previsão de sol? Na Serra do Marumbi, previsões não valem nada!!! Aquilo é uma outra dimensão. Fizemos um rápido desjejum, vestimos nossas roupas surradas, molhadas e desmontamos o acampamento.

Partimos juntamente com a equipe Johnny & Mayer. A situação do Cachoeira se complicou bastante.  Passei a acompanhá-lo e testemunhei o esforço descomunal que ele empreendia. No cume do Pelado, fizemos uma pausa para fotos nos destroços da aeronave argentina que caiu na montanha em 1992, infelizmente, vitimando duas pessoas.

Destroços do Aero-Boero AB-115 no cume do Pelado

Seguimos em frente. Após um quebra cabeça, acabamos entrando na famosa trilha Free-Way, que leva direto à Estação Marumbi. Neto, Tolkmitt e Thiago decidiram retornar por ali para o conforto da Civilização. Entregamos a chave do carro e ficamos de dar um sinal quando terminássemos a ∆Ω.

Voltamos para o cume e logo reencontramos a trilha correta para o Ângelo. Descemos um vale profundo e repleto de gretas ameaçadoras. A tensão era recompensada pela vegetação luxuriante: um verdadeiro e intocado éden, descortinado por um seleto grupo de Montanhistas mais intrépidos.

A subida para o Ângelo, naquela situação climática foi exaustiva. A Rosa fez uma comparação, digna de registro, entre a  ∆Ω e a famosa Travessia da Serra Fina: Na Serra Fina, pelo menos, se consegue rezar; Hesse, com certeza, diria: A ∆Ω é só para os raros; Só para loucos! Chegamos no Ângelo perto das 14h30m.

Atingimos o cume do Leão pouco tempo depois. Naquela altura começava a ficar claro que terminaríamos a ∆Ω a noite. A escalaminhada para o Boa Vista é exigente. Atingimos esse cume às 17h. Houve uma breve abertura de tempo e conseguimos ver Curitiba, o Olimpo e a Usina Hidrelétrica do Marumbi.

A muralha entre o Boa Vista e o Olimpo!

Imediatamente entramos na Trilha que conduz ao Olimpo percorrendo uma muralha alucinante, com vários trechos de rocha exposta. Retornarei para percorrê-la com tempo aberto. Alcançamos o Olimpo às 18h. Alegria geral. Senti-me aliviado, como se estivesse chegado em casa!

Neste momento, eu e o Lucão decidimos acelerar para o Gigante. A galera de Campo Mourão seguiu com a equipe Johnny & Mayer. Chegamos a Ponta do Tigre sob os últimos raios de sol. Rochas molhadas, atenção redobrada. Pouco antes do cruzamento com a trilha do Abrolhos escutamos vozes na Montanha.

Quem seria? Nossos comparas? Impossível! Havíamos aberto boa distância. O Cosmo? Eles não sabiam que estávamos ali! Espíritos? Vai saber! Até hoje não encontrei explicação. Seguimos em frente. Nosso primeiro contato com a Civilização, foi ouvir o apito do trem! Logo em seguida enxergamos as luzes de Morretes. Enfim, havíamos deixado aquelas nuvens geladas!

Às 20h chegamos a Estação Marumbi. Concluímos a lendária ∆Ω em 40 horas. Demos “entrada” oficial no Parque e fomos para o camping. Fizemos uma janta, conversamos com os Irmãos Escoteiros, tomamos um banho quente e montamos nossa barraca. Perto das 22h o pessoal de Campo Mourão chegou. Alegria geral! Enfim, dormiríamos realizados… No dia seguinte ainda teríamos que caminhar até Porto de Cima para esperar nossa carona.

As 4h levantei para mijar. Puta que pariu: Céu estrelado! Se tivéssemos partido na sexta, percorreríamos metade da travessia sob tempo perfeito… Mas, foda-se! Por algum motivo iniciático, era preciso percorrer a ∆Ω com aquele tempo tenebroso!

Conjunto Marumbi e o camping próximo a estação.

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Sobre o autor

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Advogado e Corretor de Imóveis em Rolândia. Casado, 3 filhos. Jardineiro e Montanhista nas horas vagas.

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