Carretera Austral: de Bahia Murta à Puerto Tranquilo (Capilla de Mármol)

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Acompanhe os relatos de Aline Souza em sua cicloviagem pela Carretera Austral desde o começo:

Dia 15 – 06/01/2019

  • Trajeto: de Bahia Murta à Puerto Tranquilo (Capilla de Mármol)
  • Distância: 25km
  • Acumulado de subidas: 297m
  • Acumulado de descidas: 300m
  • Terreno: rípio

Choveu bastante durante a noite o que me deixou bem preocupada, principalmente devido ao fato de que nosso plano para hoje era visitar as Capilla de Mármol.

Ao acordar, olhei pela janela e ainda chovia um pouco. Antes de ajeitarmos nossas coisas, descemos para tomar café. Depois de ‘causarmos’ ontem no jantar havíamos combinado de pagarmos pelo café da manhã.

O café foi simples, mas suficiente. Pão quentinho, queijo, doce caseiro (delicioso) e o café solúvel de sempre.

Começamos a organizar nossa saída. As bikes estavam no fundo da casa, peguei todos os sacos estanques, que carrego diariamente para dentro das hospedagens, e fui ajeita-los na bike, logo Julien chegou para fazer o mesmo (no caso dele acaba sendo mais fácil, apenas precisa reconectar os dois alforges na bike.

A dona da hospedagem se aproximou de nós com 3 mamadeiras a tiracolo. Perguntei o que faria com as mamadeiras e ela nos convidou a segui-la, não pensei duas vezes. No caminho contou que daria de mamar a 3 ovelhinhas que haviam ficado órfãs de mãe, meu coração já se partiu. Ela deu uma mamadeira para mim e outra para Julien. Chegando ao local ela abriu o celeiro e as ovelhinhas vieram correndo em nossa direção. Havia mais de uma família ali, a Senhora sabia exatamente quais eram as órfãs e separou o grupo, disse que as outras ovelhinhas tinham mamá da mamãe.

Nos apontou qual ovelhinha cada um deveria alimentar, e ela alimentou a menorzinha (da foto abaixo) com uma mamadeira um pouco maior. Foi uma experiência linda. Coloquei a mamadeira na boca da minha ovelhinha e ela sugou sem parar até que a mamadeira secasse, foi muito rápido (tem um vídeo no insta), me senti muito grata por aquela experiência e por poder de alguma forma ajudar aquele bichinho, agradeci a Senhora pelo convite.

A Senhora recolocou as ovelhinhas no celeiro e continuamos seguindo-a, no caminho nos ofereceu umas frutinhas diferentes e saborosas (não lembro o nome), disse que o doce que comemos no café da manhã foi feito com aquelas frutinhas, nos mostrou sua estufa de verduras e seguiu para alimentar as galinhas. Conversamos um pouco mais sobre a pequena fazenda e as atividades e seguimos para finalizar nossa arrumação.

Antes de partir, por volta das 10 h, tirei a foto clássica na frente da hospedagem. Não chovia mais e havia um sol tímido aparecendo.

O rio da foto abaixo passa atrás da hospedagem e é de um verde lindo, super clarinho. Durante nosso conversa na pousada comentei com a dona que deveriam fazer umas cabanas na margem do rio e ela disse que o rio sobe bastante em alguns períodos do ano. Enquanto me falava do rio, vi a imagem abaixo lá longe, na direção do nosso caminho, à margem totalmente florida, coisa mais linda. Quando passei por ali fiz a foto abaixo.

O trajeto até Puerto Tranquilo foi incrível, seguimos percorrendo o lago General Carrera, que é de um verde (dependendo da luz azul) espetacular. Parei milhares de vezes para admirar e tirar fotos.

O trajeto todo de rípio é cheio de sobe e desce, uma das subidas era tão íngreme que até haviam calçado, coloquei a vovozinha, sem medo de ser feliz, e fui pro ataque.

Depois de pedalarmos por umas 2h comentamos sobre pararmos para comer nossos clássicos cookies, disse ao Julien, que seguia na frente, que assim que achasse um local com uma vista bonita poderia parar, ele achou esse belo local:

Sentamos numa pilha de brita, comemos nossos cookies, comentamos sobre a beleza daquele lago, tirei umas fotos e seguimos rumo à Puerto Tranquilo.

O trajeto continuou incrível, com as paisagens encantadoras, e eu segui fotografando.

Chegando em Puerto Tranquilo, passando pela primeira agência de passeios, fomos chamados pelas holandesas, Margareth e Greet, que estavam na nossa hospedagem. Foi bem bom encontrá-las, elas já haviam contratado o passeio e fomos encaixados no grupo delas, saímos em 15 min. Se não tivéssemos encontrados as meninas, certamente demoraríamos um bocado para escolher a agência e fechar o passeio. A propósito, achei o passeio bem barato, se fosse no Brasil certamente seria o dobro do preço.

Para visitar a Capilla del Mármol pegamos um bote (8 pessoas mais guia e capitão) e percorremos o lago por uns 20 min até chegar nas atrações (Capilla Marmol, Catedral de Marmol, Condores). A viagem é linda, mas pra mim foi bem assustadora. Havia bastante vento e em decorrência disso muitas ondas no lago. Gente, não eram ondinhas, eram ondas grandes. Tenho um certo trauma com embarcação e águas turbulentas, participei de uma Corrida de Aventura na China, onde tivemos que descer um rio super turbulento, com água de degelo, num bote inflável altamente mequetrefe, o bote virou e eu fiquei um bom tempo presa embaixo do bote, foi assustador.

Chegando na Capilla de Mármol esquecemos de tudo, as formações ficam numa baía protegida do vento e das ondas, com uma água clarinha, coisa mais linda. O bote não é pequeno, mas mesmo assim foi possível entrar em alguns túneis, foi bem legal.

Durante o passeio bombardeei a guia cm perguntas e servi de tradutora para as holandesas, que me agradeceram muito por isso.

Sempre que tenho essas experiências fico muito grata por ter estudado inglês e espanhol e aumento minha vontade de me aperfeiçoar mais nessas línguas.

A volta foi uma loucura, havia ainda mais vento e frio. Mesmo sentindo muita confiança no capitão, que vinha fazendo manobras perfeitas nas ondas, vim tensa, grudada no banco e rezando. Deu tudo certo, chegamos ao Puerto ‘Tranquilo’ sãos e salvos.

De volta à agência, sugeri tirarmos uma foto, com o piloto e a guia, para selarmos aquele momento.

Nos despedimos das novas amigas, que disseram que ficariam na vila por mais dois dias descansando numa cabana e seguimos. Havia passado tanto frio no passeio e estava tão gelada que segui pedalando com meu casaco de pena e o anorak, mesmo sabendo que em pouco tempo precisaria parar para tirá-lo.

Já passava das 14 h. Julien sugeriu comermos algo na vila, tipo umas empanadas ou qualquer coisa que encontrássemos. No centrinho havia um pequeno estabelecimento de sanduíches. Olhei o cardápio, tinha uma opção veg (com palta), fizemos nossos pedidos. Lembrei do vinho que carregava na bagagem e peguei uma dosezinha para ‘calientar’ o corpinho.

O sanduíche não era nada demais, mesmo esquema do Brasil se pedimos um sanduíche sem carne pagamos o mesmo preço do com carne, sendo que tiram a carne. Enfim …

Para deixá-lo mais nutritivo inclui dois ovos cozidos que tinha no alforje. A fome é grande gente.

Estávamos comendo quando tivemos uma grata surpresa, Benjamin nos encontrou. Nos cumprimentamos fazendo aquela festa, falamos sobre os últimos dias e intimamos ele para se sentar comer conosco.

Até então eu e Julien seguiríamos por mais uns 50 km, mas Julien mudou completamente de ideia quando soube que Ben ficaria em Puerto Tranquilo. Começou a dizer que estava tarde, que era melhor ficarmos ali e talz.

Ein?!

Tentei argumentar, disse a ele que precisávamos seguir uma programação que incluía chegar a Cochrane no dia seguinte, por conta do nosso tempo limitado, e que se ficássemos ali precisaríamos fazer 115 km no dia seguinte, com muita altimetria, o que eu achava essa estratégia bem complicada.

A conversa não fluía, parte devido ao inglês limitado de Julien, nessa hora foi bom ter Ben, que é francês, como intérprete (mesmo achando chato incluí-lo na discussão). Passamos mais de 30 min discutindo sem chegar a lugar nenhum. Acabei cedendo, até porque agora já estava realmente tarde. Fiz minha sugestão de hostel, que foi aceita.

No hostel haviam dois quartos disponíveis, fiquei no quarto com cama de casal e os meninos no quarto com 2 camas de solteiro.

O clima estava meio estranho. Eu estava bem incomodada não gostei nada daquela discussão da tarde. Tomei banho e sai para dar uma volta. Estava chuviscando. Era domingo e os mercados maiores estavam fechados. Andei a Vila toda e busca de ovos. Comprei pão quentinho num local, pimenta no outro e, por fim, encontrei os ovos num mercadinho quase ao lado do hostel. Estava com fome, aí já viu, comprei mais do que o necessário, mas foi bom, parte das compras eram frutas, estava precisando.

No jantar tentei quebrar o gelo. Sentei com os meninos, tomamos o vinho que eu vinha carregando na bike e Julien dividiu seu omelete comigo, junto do omelete comemos as lentilhas que eu havia feito na noite anterior. Em resumo, fiquei com a comida que comprei para carregar no dia seguinte.

Durante o jantar voltamos a ‘discutir’ a respeito de nossas possibilidades de concluirmos o trajeto ao qual nos propusemos inicialmente. Desde o princípio já estava certo que precisaríamos cortar parte do trajeto para chegarmos à El Chalten/El Calafate até a data do nosso voo, que era dia 13/01. Nos meus estudos anteriores a viagem, inclusive conversei com o pessoal do @bikeadois sobre isso, minha intenção era fazer o trajeto de Cochrane à Villa O’higgins de ônibus.

Ben comentou que o ferry de Villa O’Higgins não saia todos os dias, tive dificuldade de acreditar, tinha quase certeza de ter lido em algum local que na alta temporada saia. A internet era muito ruim no hostel e estava difícil confirmar essa informação, queria ter certeza. A Aline, do @bikeadois, tentou me ajudar a distância. Encontramos um calendário de 2019 num site e, pelo menos aparentemente, o comentário do Ben fazia sentido, nos próximos dias, teríamos ferry apenas nos dias 09 e 12.

O ferry do dia 12 estava descartado, com ele era impossível chegarmos a El Calafate em tempo para nosso voo. Para pegarmos o ferry do dia 09 precisaríamos chegar em Villa O’higgins em 02 dias, mesmo assim o risco era grande.

Julien veio com um papo de que precisaríamos chegar em Villa O’higgins no dia seguinte. Ein? Estávamos a exatos 347km de Villa O’higgins, não há nenhum ônibus que segue de Puerto Tranquilo a Villa O’higgins, não cogitamos pagar um transporte privado até lá (penso que sairia caríssimo). Perguntei qual seria a estratégia para chegarmos lá, ele? Ele disse que poderíamos pegar um carona …

Gente, o fluxo de carros pela Carretera Austral é super baixo, achar que iriamos para a estrada pegar carona e que apareceria um carro que levaria duas pessoas e duas bikes até Villa O’higgins, assim num passe de mágicas é subestimar a complexidade do local. Eu havia estudado bastante nosso trajeto, fiquei um pouco estressada com esse comentário.

Para ajudar tínhamos previsão de bastante chuva para o dia seguinte. Sugeri irmos dormir para no dia seguinte tentarmos uma carona até Cochrane e de lá pegarmos um ônibus no dia seguinte, mesmo sem estar convencida do sucesso dessa estratégia.

Ben e Julien foram dormir, eu estava bem nervosa e sabia que não conseguiria dormir tão cedo. Segui avaliando nossas possibilidades, agora na sala com um casal de Santiago, com a dona do Hostel e na sequência com um morador de Chile Chico. Comecei a fazer perguntas para esse povo.

Cochrane fica a 235km de Villa O’higgins. Soube que não há ônibus direto de Cochrane para Villa O’higgins, apenas de Cochrane para Tortel (127km). Tortel fica a 22km da Ruta 7, ou seja, poderíamos pegar esse ônibus, parar na Ruta 7 e estaríamos a cerca de 130km de Villa O’higgins. Esse trajeto poderia ser feito de carona (qual será o fluxo de carros?) ou de bike, o que nos tomaria pelo menos mais um dia.

Conversando com o pessoal da sala sobre essa possibilidade, me trouxeram mais um elemento, na opinião deles o ônibus de Cochrane não levaria nossas duas bikes, Os ônibus que passam nessa região são ônibus pequenos, tipo micro-ônibus e o transporte de bagagem é bem limitado. Eu estava ficando cada vez mais preocupada.

Seguindo nossa conversa e minha pesquisa na internet, surgiu uma nova possibilidade, mudar o trajeto planejado inicialmente e fugir da dificuldade relacionada ao ferry em Villa O’higgins. Vi que poderia ir em direção a Ruta 40 na Argentina, primeiramente pensei em pegar um ônibus em Chile Chico ou em Perito Moreno, já na Argentina.

Julien apareceu na sala e fui tentando colocá-lo a par dos novos elementos.

Conversei com o morador de Chile Chico que estava na sala e ele falou que os ônibus que saem de lá também são pequenos. Segui na pesquisa e vi que Perito Moreno é uma cidade maior e que de lá saem ônibus noturnos diariamente para El calafate (15 h de viagem).

Perguntei ao Julien o que achava dessa mudança de plano e ele concordou que era mais seguro do que irmos para Villa O’Higgins. Então … Bora para Perito Moreno.

O plano é pegar o ônibus dia 10 a noite em Perito Moreno, fazendo esses trajetos nos próximos dias:

  • Dia 1: de Puerto Tranquilo até Puerto Guadal
  • Dia 2: de Puerto Guadal até Chile Chico
  • Dia 3: de Chile Chico até Perito Moreno

Fiquei mais tranquila com essa nova estratégia e segui para o quarto para tentar dormir, já passava da meia noite.

Continua em:

Carretera Austral: de Puerto Tranquilo à Puerto Guadal

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Sobre o autor

Aline Elétrica

Aline Souza, mais conhecida como Aline Elétrica por ser engenheira elétrica é uma multi atleta de Florianópolis - SC. Ela pratica corridas de aventura, trekking, ciclo turismo e escalada em rocha. Siga ela no Instagram @alineeletrica

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