Expedição Vallunaraju, Urus e Tocllaraju, Peru.

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Há meses vinha planejando onde seria meu próximo destino para praticar montanhismo de altitude. Como tinha minhas férias planejadas para Julho/2019, sabia que minhas melhores opções nos Andes seriam Bolívia e Peru. Diferentemente do restante dos continentes, é no inverno que esses países apresentam as melhores condições para escalar devido ao clima mais seco e sem chuvas. Depois de muito planejar e ler sobre as possibilidades e opões de montanhas de ambos os países, escolhi o Peru.

Huaraz é a capital da região de Ancash ao norte de Lima, e também é considerada a capital do montanhismo Peruano e, talvez, de toda a América Latina. E isso não é à toa, a cidade está localizada a 3091 metros sobre o nível do mar e à beira da Cordilheira Branca, uma sub cordilheira da Cordilheira do Andes. Em um raio de 100 km é possível ter acesso a 17 picos acima de 5500 metros e 16 picos acima de 6000.  Além de escalar, existem diversas opções trekkings famosos como o Huayhuash e o Santa Cruz.

Por todos esses motivos e possibilidades, escolhi a Cordilheira Branca como meu destino.

Aclimatação

A região oferece dezenas de opções de hiking e trekking de altitude, com lagoas e lindas paisagens para conhecer. Eu realizei três ciclos de aclimatação, escolhendo os destinos mais populares da região e sempre retornando a Huaraz para dormir.

No primeiro dia fui a Laguna Parón, uma bela lagoa localizada a 4300m de altitude aos pés do Cerro Caraz.

Laguna Parón

No segundo dia fiz a trilha da Laguna 69, que é o destino mais famoso e procurado da região e está localizada a 4700m de altitude. Nesse dia eu senti, efetivamente, os efeitos da altitude, sofrendo muitas dores de cabeça. A Lagoa em si é muito bonita, mas o que vale mesmo é toda a trilha até a lagoa, que tem uma distância de 16km ida e volta e contorna alguma das montanhas mais bonitas da região, incluindo o Huascarán Sur.

Tirei um dia de descanso e no dia seguinte fui para a Laguna Churup a 4600m de altitude. O que mais me chamou a atenção foi, na verdade, a beleza de uma árvore que existe naquelas montanhas, uma árvore com aspecto bem diferente, galhos e troncos torcidos e um marrom que parece ter sido pintado com lápis de cor. Ela, que só cresce na altitude entre 3900m e 4200m.

Com esse programa, senti que estava preparado para seguir para as montanhas.

Vegetação a 4000m de altitude.

Vallunaraju 5686 m.

Vallunaraju é uma bela montanha que faz parte do skyline cidade de Huaraz, muito fácil de ser reconhecida da cidade pelo seu formato de chifre com seus dois cumes norte e sul. É uma montanha sem grandes dificuldades técnicas e uma ótima opção para quem está iniciando na alta montanha. Para chegar ao acampamento base, é necessário pegar um taxi ou um ônibus (coletivo) até a laguna Llaca a 4300m de altitute. A laguna se encontra aos pés do belo e impressionante nevado Ranrapalca de 6162m, uma das montanhas mais difíceis da região.

Vista do Vallunaraju desde a cidade

A partir do acampamento se inicia uma subida bastante difícil até o acampamento morena a 4950 m. São 600 metros de desnível que se faz em 3 horas, passando por trechos bastante íngremes com escadarias e cordas. Sem a opção de burros, é necessário levar toda a comida, barraca e equipamentos, totalizando 25 kg na mochila cargueira. Mesmo me aclimatando há cinco dias, sentir a cabeça latejando foi inevitável, passei muito mal e quase precisei descer, mas após algumas horas de sono, felizmente, a dor passou.

Amanhecer do acampamento

Durante todo o dia da véspera do ataque ao cume nevou muito. Tivemos 5 cm de neve no acampamento, logo imaginamos que o acúmulo na montanha seria maior e, com isso, maior dificuldade, além de mais atenção com as gretas (fendas de gelo). Levantamo-nos a uma da manhã, tomamos café e logo seguimos para ao ataque. Percebemos que, após nossa saída, outros grupos começaram a se organizar para sair também e notamos que todos estavam esperando o primeiro grupo abrir o caminho, pois, com a nevasca, a rota não estava mais demarcada, aumentando o risco de desviar da rota e se perder ou até cair em gretas.

Logo de início, cruzamos as rochas da morena (área com acúmulo de rochas). Estava muito escorregadio e as botas de plástico dificultavam a mobilidade. Após a linha dos 5000m começou a geleira. Colocamos os crampons, nos encordamos e começamos a subir. Apesar da nevasca, o gelo estava na condição ideal, a lua estava cheia e a vista era impressionante e se podia ver todo o horizonte e, ao fundo, as luzes de Huaraz com a lua iluminando a geleira. Não precisamos nem das lanternas frontais. A montanha estava silenciosa e sem vento, estava tudo perfeito. Fomos avançando, desviando de dezenas de gretas e paredes. A subida era tranquila e a inclinação não passava de 55 graus. Eu estava eufórico, me sentindo bem e confiante.

A cerca de 5500 m chegamos no colo dos dois cumes da montanha, o cume sul com 5605m e o cume norte com 5686m. Obviamente, seguimos em direção ao cume norte e, antes disso, tínhamos que pular uma greta de cerca de 80 cm. Os últimos metros foram os mais impressionantes. A crista, combinada com as luzes do nascer do sol, formava uma visão de tirar o fôlego. Chegamos ao cume as 06h15min, o ataque durou apenas 4h15min, um ótimo tempo para aquela montanha. De lá se podia ver toda a Cordilheira Branca, com destaque para o Huantsan 6395m, considerado o K2 peruano e o Huascarán 6768m, a montanha mais alta do país e sexta mais alta do continente.

Cume do Vallunaraju

Descendo a montanha recebo, talvez, o maior presente que essa viagem poderia me dar: a oportunidade de ver o majestoso Condor que passou sobrevoando de forma imponente o vale a nossa frente. O Condor é a maior ave voadora do mundo e é extremamente rara de ser avistada nessa região e latitude dos Andes, inclusive muitos habitantes locais nunca a viram.

Descendo a crista do cume, à direita se pode ver as gretas que tivemos que desviar ao longo do caminho.

Após o Vallunaraju, retornei a Huaraz e logo veio o dilema: qual seria a próxima montanha? Inicialmente, o plano era tentar o Huascarán Sur. Porém, só havia mais 5 dias e, para essa montanha, o tempo estava muito justo e as condições meteorológicas estavam muito instáveis para o mês de Julho no Peru, com chuvas e nevascas anormais para essa época do ano. Meu objetivo era de tentar pelo menos um 6000m. Contudo, uma coisa é certa: se você busca um 6000 fácil, o Peru, definitivamente, não é o melhor lugar. Todos as montanhas acima de 6000m são bastante técnicas e muitas delas as mais perigosas do continente. As rotas e os níveis de dificuldades dessas montanhas mudam todos os anos devido ao movimento constante dos glaciares e, principalmente, ao aquecimento global, que ano após ano está expondo, cada vez mais, as gretas. Conversando com os guias locais, chegamos à conclusão que uma ótima montanha para tentar ataque seria o Tocllaraju, com 6025m de altitude. Falaram que esse ano ele estava mais acessível que nos anos anteriores e seria uma ótima oportunidade para praticar técnicas de escalada em gelo. Além disso, está localizada na Quebrada Ishinca, com outras ótimas opções de cumes.

Urus 5495m

Para chegar ao acampamento base, localizado a 4400 metros, foi necessário caminhar 13 km cordilheira adentro por um dos vales mais bonitos que já passei, rodeado por paredões de rocha que se elevam a 1000m. A caminhada foi leve e durou 4 horas. Nesse caso, utilizamos burros para ajudar com a carga. Ao chegar, armamos acampamento e logo fomos descansar, pois naquela madrugada iríamos atacar o Urus.

Quebrada Ishinca

Acordamos, saímos do acampamento às 3h e já havia dois grandes grupos na trilha. A subida não era técnica e, em sua maior parte, era um caminho batido e bem demarcado, sem dificuldades. O gelo começou a 5100m de altitude, sendo os últimos metros os de maior dificuldade, e onde era pra ser um misto de rocha e gelo, tinha apenas rocha. Todo o gelo havia derretido tornando o trecho mais perigoso que o normal devido às rochas expostas e soltas. Chegamos ao cume às 8:20 e fomos os primeiros da montanha. Mesmo tendo saído depois, o céu estava limpo, permitindo vista para os Huandoys, Huascarán, Tocllaraju, Ischinca, Ranrapalca entre outras montanhas.

Cume do Urus

Tocllaraju 6025m

O “Toclla”, como é carinhosamente chamado pelos locais, é uma linda montanha com formato quase perfeito de pirâmide e com duas rotas famosas, a rota mais comum pela face noroeste categoria nível D e a rota pela face oeste, com uma parede+70° de 400 m. Escolhemos prudentemente a rota comum.

Vista do Tocllaraju desde o acampamento base

Saímos meio dia do acampamento base em direção ao acampamento alto localizado a 5200m. A subida foi fisicamente muito exigente. Tínhamos que passar por longas morenas (acúmulos de rochas) e carregar todo o equipamento, que não era pouco. Além do básico, estávamos com todo o equipamento técnico de escalada. Chegamos às 16h e logo percebemos que não havia mais ninguém na montanha, logo, seríamos os únicos a tentar cume naquele dia. Armamos acampamento e jantamos. Eu, na verdade, empurrei a comida goela abaixo, pois estava sem fome e comecei a sentir a barriga meio estranha.

Raposa nos fazendo companhia.

A visão de lá era de tirar o fôlego e fiquei pelo menos uma hora admirando as belezas daquele lugar. Uma raposa chegou e me fez companhia por um bom tempo. Estranhei o que aquele animal estaria fazendo naquela altitude e sem medo de humanos, mas logo percebi que ela já estava acostumada com escaladores e provavelmente ela deveria ir todos os dias para o acampamento tentar ganhar alguma comida.

Vista da montanha desde o acampamento alto

Após uma péssima “noite” de sono, na verdade não dormi mais que 30 minutos, nos levantamos as 00:00. Observamos, nos dias anteriores, que o cume se escondia atrás das nuvens todos os dias exatamente às 8h da manhã, ou seja, teríamos que chegar antes desse horário se quiséssemos garantir a vista lá de cima. Saímos 00:15. Logo no início a subida era leve, íamos desviando das gretas, o gelo estava firme e bom de caminhar. Após cerca de 3 horas, o meu corpo começou a cobrar o cansaço acumulado dos últimos dias e a última noite mal dormida. Eu diminuí o ritmo consideravelmente, ainda para piorar, a barriga que estava meio estranha no dia anterior estava totalmente virada naquele momento, sentia muitas dores. Foi uma luta incansável contra minha mente e corpo, eu estava prestes a desistir, até que chegamos na primeira parede. Olhei para ela e, enquanto preparávamos as cordas e as estacas, pensava comigo mesmo: “se for pra desistir, tem que ser agora”. Pedi 10 minutos para descansar e, nesse momento, fechei os olhos e mentalizei o objetivo de finalizar aquele projeto, foquei meus pensamentos nas partes do corpo que mais precisavam de atenção e meditei.

Essa primeira parede começava em uma ponte suspensa de gelo para passar uma greta bem profunda. Antes havia duas pontes, mas a segunda caiu na semana anterior. Era a única forma de passar e tinha que ser rápido para evitar que essa segunda também caísse. Meu guia foi primeiro e eu fui fazendo sua segurança. A parede tinha cerca de 60 metros com alguns pequenos trechos de ângulo de +80°. Ao final dela, já havia um sistema de rapel instalado para descer. Já estávamos a cerca de 5800m de altitude e os primeiros raios de sol começaram a sair.

Vista da aproximação ao cume.

De repente, todas as dores e cansaço que estava sentindo sumiram, eu estava admirando aquele momento e aquela vista me dava forças para ir em frente, sentia meu corpo pedindo para continuar subindo sem parar e meu coração batia forte de emoção. Eu estava me sentindo mais vivo que nunca e mentalizava o objetivo respirando de forma totalmente consciente e concentrada. Chegamos na reta final, os últimos 100 metros seriam os mais técnicos e difíceis, o céu estava limpo e já deslumbrava a possibilidade real de cume. Começamos a subir a parede de cerca de 60 metros e dividimos a liderança. Chegando próximo ao cume o tempo começa a fechar, olho para o relógio, oito horas em ponto. Dito e feito: neblina densa. Ainda assim, não ofuscou a sensação do momento. Quando eram 08:15 chegamos ao cume e meu coração explodia de alegria, meus pulmões imploravam por oxigênio e lágrimas caíam do meu rosto.

Vista do Cume antes do tempo fechar.

Cume do Tocllaraju.

Com a piora do tempo, tivemos que descer logo. O primeiro rapel teve que ser feito com bastante cuidado, pois a visibilidade estava muito baixa. O restante da descida foi tranquila, o tempo foi melhorando a medida que descíamos e o resto foi só alegria.

Quando sou questionado pelas pessoas sobre os motivos pelos quais procurei praticar o montanhismo, sinceramente, é algo muito difícil de responder e também algo que, para muitos, é difícil até de ser compreendido. Existem muitas frases e ditados de montanhistas famosos que me ajudariam com essa resposta. Mas, efetivamente, a única coisa que poderia responder a essa pergunta é tendo a oportunidade de vivenciar essa importante conexão e respeito com a natureza, independentemente do local: se for na serra do mar paranaense, nos Andes ou no Himalaia. O resultado final é a busca constante pela superação e principalmente alto conhecimento mental e corporal.

 

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Sobre o autor

Henrique Gracia

5 Comentários

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    Interessante e lindo relato Henrique Delgado, parabéns pela coragem , persistência e muito amor a natureza . Sucesso , vai em frente !

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    Parabéns Henrique pelo ótimo relato e por compartilhar essa história!
    No momento mais difícil um instante meditativo fez toda a diferença, esses são os benefícios que o montanhismo na essência nos trazem, o querer é poder sim e vence a barreira física…
    Sucesso e que venham as próximas acima dos 6.000!!!
    Abraço

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