Histórias da Ilha Grande

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Acabei de falar da Ilha Grande na coluna anterior. Penso que seria interessante contar algumas histórias que conheci nas minhas visitas. Não vou falar de coisas amáveis, pois há histórias tristes por trás da alegria tropical da ilha.

Os Piratas Modernos: Devido à sua posição próxima a importantes portos, a Ilha Grande foi visitada desde os inícios da ocupação portuguesa do Brasil. Durante três séculos, do Descobrimento ao Império, foi refúgio de piratas, que rapidamente subjugaram os índios que nela habitavam. Curiosamente, é ainda a ameaça de piratas (no caso, modernos) que faz com que lá não haja até hoje nenhuma agência bancária – pois os valores poderiam ser assaltados, hoje como ontem, no longo trajeto do mar.

O Aqueduto do Lazareto, Ilha Grande, RJ

O Lazareto: Nem tudo é espetacular na Ilha Grande, a ocupação humana lá deixou alguns testemunhos infelizes. Nos fins do século XIX, foi construído na Praia do Abraão um centro de quarentena para os imigrantes europeus enfermos. Foi nele que Dom Pedro II passou sua última noite no Brasil, na sua viagem à Europa. O Lazareto foi uma obra magnífica, mais tarde abandonada e transformada em prisão. Demolido por ordem do Governador Lacerda, dele restam apenas sinistras ruínas, junto com as do aqueduto que o abastecia.

O Presídio: Havia na Ilha outra prisão, na deslumbrante Praia de Dois Rios, oposta ao Abraão. Antiga colônia agrícola na fazenda de mesmo nome, foi transformada em presídio após a desativação do de Fernando de Noronha. Ele acolheu em seguida diversos presos políticos na época da Ditadura, inclusive Graciliano Ramos. Foi implodido por determinação do Governador Brizola, seu esqueleto manchando hoje de forma lamentável talvez a mais bela enseada da Ilha.

O Coqueiro da Praia do Aventureiro, Ilha Grande, RJ

O Coqueiro do Aventureiro: Numa ocasião de forte tempestade, desabou da encosta um coqueiro, que veio parar nas pedras da costa. Apesar de caído, lá ele conseguiu criar raízes e evitar o mar. Com o tempo, voltou a crescer e envergou para cima o tronco, num impossível ângulo reto com o restante de seu corpo. Pode ser visto no canto direito da Praia do Aventureiro, local de camping no lado oceânico.

Lixo Preservado: As Praias do Sul e Leste ficam numa Reserva Biológica, um longo trecho de areia muito clara, cujo acesso é vigiado. Entre elas, corre o mais bem conservado rio do Estado, o único que não sofre qualquer ação humana no seu pequeno curso, da nascente à foz. Nesta situação, é inacreditável encontrar uma das praias mais imundas que jamais visitei, repletas de lixo dos navios em toda sua extensão. Custa a crer que foi preciso fazer uma Reserva para preservar todo aquele lixo.

A Praia de Parnaióca, Ilha Grande, RJ

Carnaval em Parnaióca: A Praia de Parnaióca, tão isolada e deserta, tinha até meio século atrás uma situação bem diferente. Lá existiam fazendas de café, armazéns, escolas e muitas casas. Havia desfile de carnaval e campeonato de futebol. A produção era levada nas canoas de voga, impulsionadas por fortes remadores, que levavam todo o dia para vencer o mar até Angra. A decadência da pesca e a proximidade do presídio em Dois Rios foram afastando os moradores, até restarem apenas três casais idosos, que hoje oferecem hospedagem. Nem os mortos podem mais ser enterrados lá.

A Ilha do Grego, Ilha Grande, RJ

O Pirata Jorge Grego: Uma das mais belas formações da região é a Ilha Jorge Grego, com seu contorno escarpado à frente da Praia de Dois Rios, já no mar aberto. Lá naufragou o pirata que lhe deu o nome, com suas duas filhas e um ajudante. Um dia, percebeu o romance de uma das filhas com o rapaz, que veio a matar. Jorge Grego foi castigado com uma tempestade, que destruiu suas propriedades e afogou suas filhas. Sozinho e isolado, ele enlouqueceu até sua morte solitária.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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