O Espinhaço: Serra Negra

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Existem dois Parques com uma posição curiosa, a oeste e leste do eixo do Espinhaço. O primeiro deles chama-se Serra Negra. Embora pouco conhecido, apresenta uma natureza diferenciada e atraente, com um fantástico visual do alto da serra.

Em algum momento eu teria de mencionar a Estrada Real – até parece que Minas é toda ocupada por ela. Com quase 1.800 km, é a maior rota turística do Brasil. Sua origem vem da iniciativa da Coroa em regular no século XVII os antigos caminhos por onde transitavam o ouro e o diamante.

São quatro os seus trechos, dos quais os maiores são chamados de Caminhos Velho e Novo, entre Ouro Preto, Parati e Rio de Janeiro (veja no mapa). Este último foi criado para impedir os ataques piratas entre as duas cidades litorâneas. Os outros dois são o Caminho dos Diamantes, naturalmente entre Ouro Preto e Diamantina, e o de Sabarabuçu, antigo nome da Serra da Piedade, cujo minério de ferro reluzia enganosamente como ouro.

Mapa da Estrada Real

Evidentemente, as antigas trilhas já estão descaracterizadas, só restando cerca de 5% do total. Entretanto, 75% ainda são em estradas de terra, o que é um mal menor. O percurso inteiro é dividido em planilhas, desde Diamantina e Serro ao norte, Ouro Preto, Mariana e São João Del Rei no centro e Petrópolis, Rio e Parati ao sul.

Ao longo do caminho, você atravessará espaços das Serras do Espinhaço, Mantiqueira e Órgãos. Ele é transversal às bacias dos rios, que têm quase todas uma orientação um tanto horizontal – como os rudes campos do Jequitinhonha, os sofridos cerrados do Paraopeba e das Velhas, as matas que já foram exuberantes dos Rios Doce e Grande e as colinas desflorestadas do Paraíba do Sul. É um importante momento de nossa história que pôde ter sua memória recuperada.

Escarpa da Serra Negra, PE Serra Negra, Itamarandiba, MG (Fonte: Divulgação)

A Serra Negra é um maciço montanhoso no Espinhaço mineiro, que parece escuro quando avistado contra a luz do sol, talvez devido à posição e à vegetação. Nele foi criado um PE relativamente pequeno, com 13.650 ha. Pertence ao município de Itamarandiba, próximo a Diamantina por asfalto.

Entretanto, o acesso ao Parque é por terra – os 35 km estavam em muito bom estado quando os percorri na seca. A estrada vai rumo ao distrito de Socorro ou Padre João Afonso (convém perguntar pelos dois nomes). O Serra Negra tem pouca estrutura: nenhuma cerca (exceto na porteira de entrada) e sinalização limitada. Não sendo indenizado, tem de conviver com a ocupação dos posseiros.

Vista do Cume do PE Serra Negra, Itamarandiba, MG

Não deixa de apresentar algumas atrações – principalmente a subida aos 1.580m da antiga torre de TV, com uma visão espetacular das colinas da região, incluindo o Pico do Itambé. No caminho, há indicações para o conjunto de pequenas cachoeiras próximas, em especial a do Camilo, para a região baixa chamada Campo dos Reis e para o Alto do Barro Preto, que acessa uma lagoa – esta seria a trilha principal.

Estes atrativos ocupam a extremidade leste do Parque, que se estende por um traçado estreito de leste para oeste. Sua cobertura inclui campo rupestre, cerrado e mata atlântica. Os campos de canela de ema foram os mais bonitos e extensos que já vi, com arbustos acima de 2 m de altura.

Campo de Canelas de Ema, PE Serra Negra, Itamarandiba, MG

Algumas destas espécies, de orquídeas e de samambaias são endêmicas. É uma vegetação muito sugestiva, cujo verde contrasta belamente lá no alto da serra com o solo de areia impecavelmente branca. A fauna é diversificada, com macacos guariba, lobos guará e capivaras, além de felinos, roedores, répteis e pássaros.

O Parque foi criado para conservar suas muitas nascentes, que abastecem o Jequitinhonha e o Doce. Os dois rios principais são o Itamarandiba do Campo e da Mata, afluentes do primeiro. É ameaçador o avanço das plantações de eucaliptos para os fornos siderúrgicos em Sete Lagoas.

Cachoeira do PE Serra Negra, Itamarandiba, MG (Fonte: Divulgação)

Acredito que o Parque tenha um potencial interessante, pois sua posição elevada e isolada contribui para um visual diferente, seja do panorama ou da vegetação. Entretanto, é ainda pouco procurado.

Apenas uma nota final. Se você tem acompanhado meus artigos, terá notado muitas menções às inscrições rupestres. Gostaria de falar delas. Há um século e meio, as primeiras pinturas foram descobertas numa caverna da Espanha – mas eram consideradas figuras forjadas, até que sua incrível antiguidade foi estabelecida. Apareceram no fim do Paleolítico e tiveram seu apogeu na Europa há 10 mil anos.

Essas inscrições normalmente são pinturas, feitas a partir de pigmentos vegetais e animais, em cores como o sépia, o branco e o ocre. Existem também as gravuras, criadas por sulcos esculpidos nas rochas. A arte rupestre foi produzida pelos primeiros habitantes do Brasil, datando de 12 mil a 3 mil anos atrás. O Nordeste, seco e despovoado, concentra a maior parte delas.

Pinturas Rupestres de Lagoa Santa

As figuras são normalmente pequenas, incluindo animais, árvores e homens e às vezes astros e grafismos – com cenas de luta, dança, sexo ou caça. Suas intenções parecem ser descrever a vida, transmitir a cultura, propiciar a caça ou cultuar a fertilidade. São encontradas em abrigos no arenito ou grutas no calcário, onde os homens primitivos moravam, enterravam os mortos ou adoravam os deuses. Possuímos provavelmente o mais extenso acervo do mundo, em especial na Serra da Capivara.

Existem talvez quatro estilos principais: o Nordeste (animado por muita ação colorida entre homens e animais), o Agreste (com escuras figuras rústicas, estáticas e geométricas), o São Francisco (de elegantes desenhos geométricos policromados) e o Itacoatiara (contendo misteriosos grafismos gravados em rochas). Mas você encontrará menções a muitos outros, pois nosso conhecimento ainda é precário.

Figura Rupestre na Lapa do Macaco, PE Serra do Cabral, MG

Conheça agora o Parque oposto ao Serra Negra, na isolada e peculiar Serra do Cabral.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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