Nossas Serras (7/25): O Espinhaço

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O Espinhaço é nossa única cordilheira, atravessando o interior de Minas e Bahia, quase sempre em linha reta de sul para norte. Devido a regiões como o Caraça, o Cipó e a Chapada Diamantina, ele é bem conhecido nas suas extremidades. Mas o seu meio é ainda grandemente ignorado, apesar de contar com locais magníficos.

Este nome expressivo surge pela primeira vez não no Brasil, mas na Alemanha, num artigo do mineralogista Barão de Eschwege, que foi quem primeiro pesquisou nossa geologia. Ele observara como a cordilheira do Espinhaço – a única do Brasil – corre no sentido norte-sul praticamente em linha reta, pois sua largura varia muito pouco.

Um pouco depois, a famosa expedição de Spix e Martius visitou e representou o Itambé, um de seus pontos mais elevados. Acredita-se que o Espinhaço se estenda desde abaixo de Belo Horizonte até a Chapada Diamantina, no sul da Bahia – numa extensão de 1.200 km. Isto significa que ele teria uma extensão três a quatro vezes a da Mantiqueira.

Mapa Resumido da Serra do Espinhaço

Ele divide as redes de drenagem do São Francisco a oeste daquelas outras que correm a leste diretamente para o mar – como as dos Rios Doce, Jequitinhonha e Paraguaçu. Quer dizer, o São Francisco de um lado, os demais rios do outro e a cordilheira entre eles. O São Francisco corre encaixado entre o Espinhaço mineiro a leste e o Espigão Mestre goiano a oeste, que o separa do Tocantins.

Foi o próprio Eschwege quem observou ser o Espinhaço também um divisor da fauna e da flora: As regiões a leste desta cadeia, até o mar, são cobertas por matas das mais exuberantes (ou seja, a mata atlântica). O lado oeste forma um terreno ondulado com morros despidos e paisagens abertas, revestidas de capim e árvores retorcidas (vale dizer, o cerrado).

Mapa Detalhado da Serra do Espinhaço (Fonte: espinhaço.com.br)

Existe uma maneira rápida de você observar essas duas naturezas do Espinhaço. Se você estiver na Rodovia MG-10, que atravessa a Serra do Cipó, saia dela pelo asfalto até a vila de Morro do Pilar. Chegando lá, volte por terra para a mesma rodovia, aonde você chegará um pouco mais acima – ou seja, uma rápida ida e volta. Como você verá se um dia atravessar todo o Espinhaço, a dualidade acompanha a cordilheira até o seu fim.

O que você encontrou? Duas naturezas radicalmente diferentes, apesar da pequena distância. No asfalto que desce, está o Espinhaço rústico, com rochas expostas, relevo acidentado, campos rupestres e vegetação escassa – seu aspecto dramático. Na terra que sobe, a sombra da mata atlântica, com uma floresta densa, um solo mais profundo e aclives apenas moderados – sua aparência frondosa.

Serra do Ouro Branco, MG (Fonte: José Israel Abrantes)

O Espinhaço começou a ser formado em tempos antiquíssimos, no Pré-Cambriano, quando teve início o movimento das placas tectônicas, bem como a vida na Terra. Deveu sua existência a um rifte, ou seja, a uma fratura da crosta terrestre, seguida do afastamento em direções opostas de seus dois lados. Violentas atividades como vulcanismos, sedimentações, subsidências, glaciações e colisões ocorreram desde então, junto com as ações erosivas que lhe modelaram o relevo que hoje conhecemos.

O Pico do Itambé Segundo Spix e Martius, Serro, MG (Fonte: Divulgação)

Esta história violenta talvez explique o aspecto tão fraturado de suas rochas, numa perturbação geológica que me parece única no país. O ponto culminante do Espinhaço é o Pico do Sol em Catas Altas. Outras montanhas conhecidas são o Itacolomi de Ouro Preto e o Itambé de Serro. Mas vale lembrar os Picos do Barbado, das Almas e do Breu. Ao longo do seu percurso, ele forma sucessivamente as Serras do Caraça e do Cipó, a Serra Geral, a Chapada Diamantina e a Serra do Tombador.

No Rumo do Itacolomi, Ouro Preto, MG

A região do Espinhaço teve importância histórica a partir do século XVIII, quando as minas de ouro e diamante foram exploradas – até hoje infelizmente a mineração é presente em Minas. Mas, pelo menos, era gerou as cidades históricas de amplos casarios, ruas apertadas e belas igrejas.

Perfil do Gigante no Caraça, MG

No Espinhaço ocorre o encontro de quatro grandes biomas brasileiros, a mata atlântica, o cerrado, a caatinga e os campos de altitude. As matas acham-se em geral encerradas no fundo dos vales, na encosta dos morros ou na margem dos rios. Nos demais casos, a vegetação é de campo, algumas vezes com formações de cerrado mais ou menos fechadas. Os campos de altitude são comumente rupestres, com presença de afloramentos rochosos, gramíneas e arbustos. As caatingas só aparecem mais ao norte.

Morros em Pedra Azul, MG

A variedade vegetal é enorme. É nesta região que existe o maior número de castas endêmicas da flora brasileira. Está também aqui mais da metade das espécies ameaçadas de extinção em Minas Gerais, que é o centro do Espinhaço. Seu estado relativamente preservado acolhe a presença de mamíferos de porte, já escassos em outras regiões, bem como de aves em abundância.

Existe uma surpreendente quantidade de parques naturais ao longo do Espinhaço: mais de trinta, se forem consideradas as áreas a leste (Rio Doce) e oeste (São Francisco). Cerca de 80% são PEs mineiros, entre os quais o Caraça e o Itambé, o Rio Preto e o Grão Mogol. E o mais recente de todos, de Botumirim. Dos PNs, três são espetaculares: o Cipó, o Peruaçu e a Chapada Diamantina. Os PEs baianos são ainda poucos e mal estruturados.

Pico das Almas, Rio de Contas, BA

O Espinhaço sempre me impressiona por sua dureza, seu aspecto cinzento, austero e masculino, suas rochas ásperas e fraturadas, seu solo árido e sua vegetação sofrida. Até a sua luz é diferente, branca e ofuscante. Ainda que sem a doçura da Mantiqueira, as imensas cristas da Canastra e a exuberância da Serra do Mar, ele é mais variado, na sua riqueza estranhamente pobre.

Serra do Esbarrancado, Guiné, BA (Fonte: Sandro)

Penso que só em dois momentos o Espinhaço se mostra gentil. O primeiro é na abundante presença das orquídeas, estas plantas ornamentais de pétalas tão delicadas e vistosas. O segundo é na formação de suas cachoeiras de paredes estriadas e águas cor âmbar, que compõem cenários que parecem mágicos.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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