O Pico da Bandeira

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Acho que a primeira vez que fiz uma montanha importante foi o Pico da Bandeira, antes mesmo do Agulhas Negras, que fica tão mais próximo de mim. Devo ter subido ao cume umas cinco vezes, mas até hoje nunca fiz a trilha (mais curta e íngreme) pelo Espírito Santo.

É interessante lembrar que, com 2.890m, ele era considerado o ponto culminante do Brasil. A Princesa Isabel lá teria hasteado a bandeira que lhe deu o nome. Hoje é o terceiro, depois do Neblina e seu companheiro 31 de Março – como detesto este nome! Seu vizinho Pico do Cristal (2.770m) também perdeu posições, mais ainda manteve o sexto lugar.
 
São duas montanhas especiais, num cotovelo onde termina a Mantiqueira, chamado de Caparaó. Eu as conheci antes do incêndio que desfigurou parte de suas trilhas. Quando lá estive da última vez, fazia mais de dez anos que a região tinha queimado, mas a natureza ainda não tinha se regenerado completamente. O ambiente das montanhas é bem mais ingrato que o dos vales, com solo pobre e clima frio.
 
Minha melhor travessia na região ocorreu numa ascensão noturna: acordamos às 10hs da noite, para pousarmos no pico. Saindo da Tronqueira, onde a trilha começa, passamos pelo Terreirão, local de acampamento, de onde iniciamos a rampa cada vez mais íngreme até o topo. 
 
Era uma noite serena e dormimos bem, na fria madrugada do cume. Nosso objetivo era ver o nascer do dia e fomos premiados por uma incrível visão: o sol projetava nas nuvens a sombra da pirâmide do pico! Levei um tempo para entender aquela figura no azul e branco do céu, parecia uma mágica saída do sono.
 
Se você retornar ao cinturão rochoso abaixo do cume, chamado de Calçado, e encarar uma descida vertiginosa, estará de frente para a aresta do Cristal. Esta é uma montanha de desenho perfeita e lindamente triangular, cujo cume você alcança por uma escalaminhada exposta através de sua aresta.
 
Descendo o lado maior do triângulo rochoso, você ingressará no Vale do Caparaó, de onde poderá subir para o Terreirão e, de lá, de volta para a Tronqueira. Esse circuito nos tomou 17 hs (incluindo a noite no pico), mas foi tão bonito que não chegamos sequer cansados.
 
Depois, retornei ao Bandeira antes do incêndio. Na última vez, já depois do fogo, passei por lá numa viagem com meu amigo Rodrigo Lanhoso, para subirmos as montanhas do Nordeste. Foi, de novo, uma ascensão maravilhosa. Quando passamos pelo Terreirão, havia um argentino falante acampado com seu filho. 
 
Na volta, ele estava furioso: um quati havia furado a barraca e roubado seus mantimentos. Quando estávamos chegando, ele saiu correndo com um pau gritando Hijo de puta!, sem naturalmente alcançar o bicho ladrão. Era um sujeito magricela e meio ridículo, Rodrigo e eu ríamos tanto que tivemos de sentar na relva. 
 
Então, fique alerta quando encontrar algum quati. Seu aspecto meigo esconde uma alma traiçoeira. Mas não se afaste, logo ele vai preparar algum crime e será muito engraçado você ver a reação de sua vítima. Sabe onde encontrá-los? Nos cânions de Bom Jardim da Serra e nas cataratas de Foz do Iguaçu, onde você os verá de novo assaltando brasileiros e argentinos.
 
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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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