Quem é esse tal de Pedro Hauck?

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Antes de começar a escrever aqui no site Altamontanha.com, vou fazer uma breve apresentação sobre quem sou eu.

Falar sobre nós mesmos às vezes é uma tarefa meio egocêntrica, entretanto em minha vida dediquei muito tempo ao montanhismo e acho que agora está na hora de compartilhar minhas experiências. Por isso, mais do que falar de mim mesmo, nesta coluna pretendo passar um pouco daquilo que aprendi vivendo neste meio fascinante.

Comecei a trilhar no montanhismo com cerca de 17 anos de idade. Antes disso já havia tido algumas experiências, mas não podia ir para a montanha com muita freqüência, pois eu vivia no interior de São Paulo onde, primeiro, não há montanhas e depois por que restam poucas áreas de natureza original onde possamos desfrutar nossa liberdade.

Um destes poucos lugares “mais ou menos” preservados era para mim a Serra da Jurema, que fica na minha cidade natal, Itatiba. Lá é um local onde afloram vários boulderes de granito e foi em cima de um dos mais altos que pela primeira vez, isso no ano de 1994, tive acesso à técnicas do montanhismo. Junto com um amigo que tinha feito um curso de escalada com o Eliseu Frechou, fiz meu primeiro rapel. Calma, não vão me chamar de rapeleiro! Ou vocês acham que eu comecei escalando um sétimo grau!

Apesar de ter gostado da novidade, eu não comecei a escalar e caminhar de imediato. Não sei por que motivos não fui mais fazer aventuras com este amigo. Entretanto, o sonho de escalar montanhas persistiu e ele começou a se concretizar quando conheci o Maximo Kausch, no ano de 1998.

Maximo estudava no mesmo colégio de uma namoradinha minha na época. Ele e uns amigos já tinham o gosto por acampar e como todos eram moleques, sonhavam em levar as meninas para os acampamentos. Uma das vezes que o sonho deles deu certo, acabaram levando a minha namorada e junto, para a frustração deles, fui eu.

Fomos numa turma grande para Monte Verde – MG. A intenção era fazer umas travessias por alguns morros. Foi minha primeira experiência de acampamento em montanhas e me dei muito bem, enturmando com os moleques mais “safos” e largando minha namorada pra trás (por fim não durou muito o namoro mesmo).

Percebendo que eu tinha gosto pela coisa, o Maximo, que já era considerado por todos da turma como o cara que mais entendia da coisa, me convidou para organizar uma prova de enduro à pé na minha cidade, uma espécie de corrida de aventura, mas sem todos os requintes destas provas modernas.

Nosso enduro a pé foi um fracasso, fizemos um trajeto tão difícil que tivemos que resgatar as poucas equipes que não desistiram. Apesar
disso, depois deste evento fiz uma forte amizade com o Maximo e juntos começamos a planejar algumas viagens.

Nossa primeira veio a acontecer em Janeiro de 1999. Nela saímos de Itatiba e cruzando a região metropolitana de São Paulo, fomos sair em Paranapiacaba, vilarejo pitoresco no topo da Serra do Mar. Lá, descemos por trilha até Guaruja e de praia em praia fomos até Angra dos Reis.

A época do ano não ajudou muito, pegamos chuva todos os dias. Foi aí que eu comecei a ter raiva de praia. Em todos os momentos, Maximo falava das experiências dele no pico de Agulhas Negras no Rio. Lá era para nós o lugar mais sagrado, então saímos de Angra e fomos até o Itatiaia sem, é claro, deixar de passar por umas roubadas, pois no meio do caminho acabou nossa grana e tivemos que dormir na rua.

Mesmo depois de dificuldades nossa primeira viagem foi coroada com a ascensão do Pico de Agulhas Negras e de Prateleiras. Foi ai que eu percebi que o legal não era apenas caminhar e acampar, mas sim fazer isso nas montanhas, como tinha sido lá no Itatiaia e também em Monte Verde.

Nesta época, Maximo já sabia escalar bem, pois ele era um dos parceiros daquele amigo que havia me levado fazer rapel cinco anos antes. Foi então que comecei a vestir a cadeirinha e começar a subir as paredes.

Nossos equipamentos eram muito precários. Maximo usava uma cadeirinha de fita e escalava com um tênis todo esquisito. Eu escalava de bota e usávamos corda de
caminhoneiro, comprada à quilo em agropecuária. Sempre fazíamos top rope e morríamos de vergonha quando aparecia a galera com seus “equipos” importados.

Foi nessa época que eu Maximo começamos a arquitetar um grande plano: Ir à Patagônia!

Para tanto, precisávamos de dinheiro. Com muita sorte, consegui arranjar um trabalho para meu amigo no laboratório de informática de um colégio que eu tinha estudado. Ele juntou todos os centavinhos e comprou alguns equipos que precisaríamos para nossa empreitada. Eu consegui graças a ajuda de meus pais e também de uma poupança há muito tempo guardada.

Assim, no começo de 2000, depois que eu prestei minhas provas de vestibular, peguei minhas coisas e junto com o Maximo nos mandamos para a Patagônia, onde vivi os 6 meses mais intensos e que mudaram definitivamente a minha vida, isso com 18 ano de idade.

Andamos 10.000 Km de carona cruzando dezenas de passos andinos entre o Chile e a Argentina. Ainda escalamos mais 5 montanhas, sendo que uma tinha mais de 6 mil metros. Gastamos apenas 800 dólares por pessoa, dormindo somente em barraca, seja no mato ou na periferia das cidades, numa expedição para deixar até Alexander Supertramp com inveja. Esta expedição chamou-se “A Odisséia Austral”.

Voltei para casa magrinho, barbudo e louco para aventuras. Aos poucos fui comprando equipamentos e comecei a escalar mais e melhor em rocha, também não deixei de ir caminhar e planejar novas aventuras nos Andes, que aconteceram seis meses mais tarde, quando fomos para a Bolívia e Peru e fizemos a trilha de Machu Pichu.

Ao término de nossa viagem a Machu Pichu, fiquei sabendo que eu havia passado no vestibular para Geografia na Unesp em Rio Claro e voltei para me matricular no curso. Maximo acabou ficando e sozinho realizou uma outra odisséia, desta vez pelo deserto do Atacama , onde aconteceu de tudo com ele.

Morando em Rio Claro, fiz do morro do Cuscuzeiro em Analândia meu destino de aventuras. Nesta época, Maximo teve a chance de largar a pindaíba e ele se mudou para a Inglaterra, onde mora até hoje.

Na faculdade, eu juntava centavinhos e no final do ano consegui ter o suficiente para passar fome no Aconcagua. Por sorte naquele ano houve revolução na Argentina e a moeda deles desvalorizou subitamente, o que me permitiu ir com mais tranqüilidade e assim, tanto eu quanto o Maximo fizemos cume na montanha.

Tranqüilidade para nos era algo relativo, ter grana para pagar os permissos somente, pois fizemos tudo por nossa conta, não contratamos mulas e fomos sem guia, agência, enfim, por nossa conta mesmo! Tínhamos apenas 20 anos e nessa época carregar 40 quilos nas costas era algo “legal”.

Realizado, percebi que minha vida pertencia às montanhas. Da mesma maneira como foi no Aconcagua, fomos seis meses mais tarde para a Bolívia, numa expedição que aconteceu de tudo, de desastres, a conquistas passando até por conhecer uma nova namorada (no trem da morte, lugar super romântico!).

Sentido mais experiente, voltei em 2003 para os Andes para escalar uma montanha mais remota, o Cerro Tupungato no Chile, até hoje a montanha com aproximação mais longa que eu já fiz, saindo de 1800 metros de altitude (o cume é a 6500) e caminhando mais de 70 quilômetros. Nessa expedição eu fiz meu primeiro cume no Tronador em Bariloche.

Em 2004 resolvi voltar ao Aconcagua, desta vez pela Rota Polacos. Apesar de estar muito forte e de ter escalado antes outra via técnica em gelo no Cordón Del Plata, acabei não fazendo cume por ali, pois o gelo estava muito derretido.

Depois desta experiência, fiquei um tempo sem ir para a alta montanha, já que eu estava terminando minha graduação em Geografia, fazendo um trabalho justamente sobre a Serra da Jurema, onde foi meu primeiro contato com o montanhismo . Neste ano eu montei uma parede de escalada na minha república e melhorei bastante minha escalada em rocha.

Em 2006, eu quase fui morar na Europa, mas meus planos não deram certo. Eu peguei meu carro (um GM Corsa) e me larguei pela Argentina junto como Maximo, onde estivemos escalando em vários lugares remotos, até hoje não sei como meu carrinho agüentou.

Acabei passando no mestrado em 2007 na UFPR e deixei São Paulo para ir morar no Paraná, numa das cidades mais fantásticas para a prática do montanhismo no Brasil, Curitiba.

No sul me senti em casa, pois adoro o frio e as escaladas, rapidamente me enturmei. Fiz da Serra do Mar meu local para práticas montanhisticas e seja caminhando ou escalando fui me preparando para desafios maiores nos Andes.

Junto com um amigo carioca, o Marcio Carrilho, fiz minha primeira expedição andina sem o Maximo, quando fui para a Bolívia de carro passando pela Argentina e Chile. Nesta expedição voltei para o Huayna Potosi e o escalei em 12 horas da base ao cume, entre outras montanhas que escalei sozinho.

Atualmente estou mais adepto a escaladas técnicas, mas em grandes paredes. Em Janeiro deste ano voltei aos Andes com a intenção de escalar a face sul do Cerro Mercedário, uma das maiores paredes da cordilheira. O objetivo maior não deu certo, mas fiz uma escalada muito interessante em um pico vizinho, o Cerro Negro, onde escalei uma canaleta de gelo de 1300 metros de altura, subindo 2000 metros no total em 20 horas intensas.

Hoje estou com 26 anos, dez anos dedicados intensamente ao montanhismo e escalada e oito dedicados ao andinismo. Nesta trajetória já escalei em diversos locais no Brasil e em mais de 20 montanhas nos Andes em diversos países, um curriculum de montanhas respeitável para alguém tão jovem.

Junto com Maximo Kausch sou dono do site gentedemontanha.com, um dos melhores sites de montanhismo em língua portuguesa, onde divulgamos nossas experiências, fotos e vídeos. Se no gentedemontanha eu tenho publicado o que eu já fiz, no meu blog tenho o que eu estou fazendo, em minha coluna aqui no altamontanha pretendo divulgar aquilo que estou pensando.

Esta foi minha trajetória como montanhista, mas ainda há muitas coisas por vir….
Então fiquem atentos, pois aqui sempre haverá boas novidades.
 

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Sobre o autor

Pedro Hauck - Equipe AM

Pedro Hauck é montanhista e escalador desde 1998. Natural de Itatiba -SP, reside atualmente em Curitiba-PR. Pedro gosta de escaladas clássicas e também de montanhismo de altitude, já tendo escalado algumas das mais altas dos Andes. É geógrafo, mestre em Geografia Física e atualmente faz doutorado em Geologia ambiental. Visite o Blog de Pedro em www.pedrohauck.net

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