Retomando a bicharada escaladora

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Um bom tempo atrás, quase um ano e meio pra ser preciso, escrevi uma matéria sobre os macacos das neves escaladores, o “Japanese Maquaque”, que escalam em neve compacta, aguentam temperaturas de -25°C no inverno japonês, e comem casca de árvore pra sobreviver ao inverno. Decidi continuar a escrever sobre a bicharada, dessa vez falando de outro animal, este sobre quatro patas, que escala horrores, melhor do que os macacos dadas as devidas circunstâncias, os bodes de montanha.

Antes de continuar, quem quiser ler a matéria anterior sobre os macacos japoneses, acesse:
http://www.altamontanha.com/Colunas/3253/macacos-me-mordam-nao-deem-o-seg

Bem, vamos aos intrépidos bodes…

Por que os bodes, ou cabritos das montanhas? Há outra espécie de macacos que vive nas grandes altitudes africanas acima dos 4000 metros de altitude também, parecidos com babuínos. Entretanto, tive vontade de mudar de animal pra não ficar repetitivo. Por isso parti pros quadrúpedes.

Pra início de conversa, vou deixar claro que existem “N” raças muito similares destes bodes montanheses, alguns nos Estados Unidos, outros na Índia, mais outros na China, nos arredores do Himalaia, na Europa o famoso Ibex alpino (que por sinal são solistas incríveis, comparados com escaladores humanos, seriam os caras que mandam sétimo grau em livre!)…Mas, vou me ater a uma espécie específica, o impressionante e belo Oreamnos americanus. Raça natural dos Estados Unidos da América, especificamente na região do oeste norte-americano, onde há muitas montanhas de 3000m+ e 4000m+, local preferido destes notáveis animais. Também vivem em algumas partes do Canadá pela similaridade de terreno, oferta de comida e montanhas.

Vamos apreciar, antes de mais nada, um vídeo legal da NatGeo, onde filhotes aparecem apressando a passada pra poder se manter perto das mães, dias após nascerem. A espécie em questão aparece entre 13 e 36 segundos do vídeo. Mas durante a narrativa muito besta e engraçada do cara, você saca de cara a agilidade desses animais, inclusive de outras espécies. 

O narrador realça que mesmo em pendentes de 60° de inclinação eles continuam escalando, e os machos ainda param pra lutar entre si pela posição de macho alfa e direito de coito com as fêmeas de sua área. Incrível!

Assista e dê boas risadas com a narração do cara…São só dois minutos e meio de duração:

 

Agora um pouquinho sobre o animal

Ambos, macho e fêmea, têm barba, rabo bem pequeno (já que o equilíbrio é todo feito na peripécia, não há necessidade de um rabo grande para isso) e chifre escuro, relativamente grande. Sua principal proteção contra o frio extremo de seu habitat natural é seu couro coberto de lã, coberta por cima por uma segunda camada de pelos mais longos e ocos. Afinal de contas, estes bodes precisam aguentar temperaturas que podem cair até -45°C no inverno canadense e norte-americano no topo das montanhas.

O tamanho deles é bem variado, podem pesar entre 45 e 140 quilos, bem pesados na idade adulta. Entretanto, o peso médio entre machos adultos é de cerca de 80 quilos, similar ao maior Rotweiller que você já viu por aí.

O segredo do sucesso de suas escaladas está em suas patas. Além de músculos bem fortes e resistentes, cada pata tem um casco que pode se separar conforme a necessidade e um tipo de casco fofo anti-derrapante! Dá pra acreditar? Não são muitos animais na natureza que podem contar com “patas vibram”.

Estes bodes de montanha são os maiores mamíferos que podem ser encontrados nas altitudes elevadas de montanhas norte-americanas e canadenses, como dito antes, que pode passar dos 4000 metros de altitude. São herbívoros e passam a maior parte do dia pastando.

O curioso é que, sendo animais tão ágeis, sua idade na natureza é limitada a 15 anos por causa de um motivo banal, desgaste dos dentes, o que faz com que morram de fome por não consegur se alimentar. Em zoológicos, chegam a 20 anos de idade. Algo mais impressionante, a fêmea e o macho atingem a maioridade sexual com aproximadamente dois anos e meio de idade, e quando um filhote nasce, pesando cerca de três quilos, consegue escalar em questão de algumas horas!

Um comportamento muito típico das mães é de, mesmo após desmamar o filhote em mais ou menos três meses, leva-lo consigo pra onde quer que vá até que ele complete um ano de idade, quando ganhará o mundo sozinho. Mas, até isso, ela o protege de agressores, e até mesmo pára na sua frente com intenção de evitar uma queda livre se caso acontecer, arriscando a própria vida durante uma escalada pra salvar seu filhote.

A escalada

Estes animais são profundos conhecedores do habitat em que vivem, e a princípio, sua mania de escalar montanhas íngrimes é por motivo se segurança (???), para fugir de predadores naturais coo ursos, águias douradas (atacam filhotes) e principalmente o puma, este sendo o único ágil o suficiente para segui-los montanha acima e aprender um pouco de seu sistema de trilhas e “vias de escalada”.

Como dito, em questão de horas um filhote já começa a trepar pedras e em alguns dias já escala montanhas com altitude e inclinação de paredes elevadas. Há relatos destes animais escalando paredes com até 65° de inclinação, o que é realmente surpreendente. Assim como se dão muito bem com rochas, navegam com a mesma facilidade em rampas de neve, sendo observados aos bandos atravessando glaciares ou neve compactada.

Frequentemente são avistados em rochas que formam pequenas plataformas de, digamos, meio metro quadrado, sem a testemunha conseguir identificar “como chegaram ali”. Um lugar isolado na parede de uma montanha, onde o animal tem certeza de que não será alcançado tanto por humanos quanto pelos predadores. Aliás, até hoje, só houve registro de uma morte de ser humano provocada pelo Oreamnos americanus, e atribui-se o caso a possibilidade de a pessoa ter sido atacada porque a fêmea sentiu que sua prole estava em perigo pela proximidade do curioso.

Agora babe nas fotos destes montanhistas natos…

Abrazos

 

Parofes

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Sobre o autor

Parofes (in memorian) - Colunista

Parofes, Paulo Roberto Felipe Schmidt (In Memorian) era nascido no Rio, mas morava em São Paulo desde 2007, Historiador por formação. Praticava montanhismo há 8 anos e sua predileção é por montanhas nacionais e montanhas de altitude pouco visitadas, remotas e de difícil acesso. A maior experiência é em montanhas de 5000 metros a 6000 metros nos andes atacameños, norte do Chile, cuja ascensão é realizada por trekking de altitude. Dentre as conquistas pessoais se destaca a primeira escalada brasileira ao vulcão Aucanquilcha de 6.176 metros e a primeira escalada brasileira em solitário do vulcão ativo San Pedro de 6.145 metros, próximo a vila de Ollague. Também se destaca a escalada do vulcão Licancabur de 5.920 metros e vulcão Sairecabur de 6000 metros. Parofes nos deixou no dia 10 de maio de 2014.

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