Situações e emoções de escalar em Salinas

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A região de Salinas abrange as montanhas do Parque Estadual dos Três Picos, em plena Serra do Mar do Rio de Janeiro, mais precisamente no município de Nova Friburgo. É um dos points de escalada em rocha – tradicional – mais famosos do Brasil, que deu origem à criação de diversos mitos da escalada.

Não é para menos. Em Salinas, quase não há vias curtas, e a dificuldade extrapola o empecilho técnico, caso o escalador queira testar o grau psicológico e testar seu comprometimento. As vias por lá foram todas conquistadas no “estilo aventura”, ou seja, escalando de baixo para cima, enfrentando todas as dificuldades de algo desconhecido.

Uma temporada em Salinas deixa qualquer escalador mais experiente – e às vezes mais velho também. Confira algumas sensações e emoções que eu vivi ao escalar por lá nesta temporada.

Contemplação: É a primeira coisa que um escalador faz ao chegar a Salinas. O alinhamento de montanhas rochosas, com cimos que ultrapassam os dois mil metros e paredes com mais de 600 metros de altura, prendem a atenção de qualquer pessoa. Quem foi que disse que não existe montanha no Brasil?

Friaca: Três Picos fica no Rio de Janeiro, mas no inverno, durante a temporada de escalada, as temperaturas ficam muito abaixo daquelas conhecidas na capital. O frio é uma constante, e é normal geada ao amanhecer. O frio, no entanto, acompanha os escaladores parede acima nos dias nublados: é preciso escalar com muita roupa. Foi o que aconteceu comigo na via “Abracadabra”. Era uma agonia esperar o parceiro terminar a escalada e agonia também era escalar com a mão gelada. De repente, o sol pode aparecer e, assim, o frio dar lugar a um calorzão infernal.

Exposição: Quem escala em Salinas precisa se acostumar com a exposição: vias fáceis têm apenas uma ou outra proteção fixa por enfiada. Significa que o escalador se protegerá apenas uma ou duas vezes em 50 ou 60 metros de corda. Geralmente, os trechos mais difíceis são mais bem protegidos. Mas, às vezes, a proteção só é possível depois que você escalou determinado lance. Isso acontece porque o conquistador preferiu chegar a um lugar confortável, onde foi possível usar as duas mãos para bater um grampo. Na via Leste, no Pico Maior, isso acontece bastante.

Perder-se na parede: Chapeletas e grampos são mais escassos numa escalada tradicional. Estes equipamentos não servem apenas para proteger, mas também para te guiar. Na ausência de proteções fixas, muitas vezes seguimos um caminho diferente daquele percorrido pelo conquistador, e terminamos em lugares totalmente diferentes. Foi o que aconteceu comigo na via “Devaneios do Repouso”, onde eu escalei um trecho fora da via, mas tive que desescalar tudo por ter errado o trajeto. Na verdade, isso acontece quando se interpreta mal o croqui, que é bastante fiel.

Interpretar mal o croqui: Não “ler” o croqui corretamente significa se meter em perrengue. O Guia de Salinas, escrito por Sergio Tartari, é fidelíssimo. Porém, às vezes, interpretamos mal o desenho e entramos em locais errados. Foi o que aconteceu comigo e meu parceiro Tacio Philip na tentativa de escalar a via “Segredo do Sol”.

Para se chegar a esta via, é preciso desescalar um lance de costão e depois andar um trecho no mato. Quisemos evitar este começo e resolvemos começar a escalada desde o platô, fazendo uma diagonal para sair na primeira parada da via. Meu amigo Tacio se incumbiu de escalar este “atalho”, mas no caminho encontrou algumas feições na rocha se assemelhavam muito com o desenho feito pelo Sergio Tartari.

Sem saber, ele acabou escalando um lance fora da via, até achar um grampo perdido na parede. Então pensou que aquela era a parada da via que pretendíamos escalar.
Saí escalando de segundo, achando que estávamos na via certa. Cheguei à provável P1 da via, e segui tocando para cima. Passei por diversos lances difíceis e, após esticar um pouco mais de 10 metros, achei estranho não ver nenhuma proteção. Era um lance tão perigoso que resolvi verificar o croqui. Foi quando eu percebi que estava no meio do nada.

Veneno: Esticões de corda, associados à gente que se perde na parede, resulta em veneno quando você descobre que está no meio do nada. Este foi o desenrolar da escalada da via “Segredo do Sol”. Totalmente “no veneno”, fui desescalando, mas vagarosamente. Era preciso firmar bem o pé e mantê-lo chapado para depois descer o outro pé e, assim, ir perdendo altura. Não foi fácil, principalmente nos lances de barriguinha. Por várias vezes tive que parar e respirar para tentar esquecer a roubada. Só assim para eu conseguir controlar meu psicológico e não deixá-lo me derrubar.

Roubada: Como não bastasse enfrentar a exposição, interpretar mal o croqui e se perder na parede, você ainda pode passar por outras roubadas. Depois de desistir de escalar a via “Segredo do Sol” e conseguir descer sem cair, resolvi escalar uma mais fácil. Para relaxar, entrei na via “Mundo da Lua”. Depois de chegar ao topo do Pontão do Sol, começamos a pegar uma chuva que nos obrigou a descer rapidamente. Já perto dos últimos rapéis, a corda enroscou numa laca. O Tacio, sem proteção, teve que escalar um lance fora da via para livrar a corda. Obviamente que ele teve também que desescalar sem proteção. Só então pudemo continuar a descida. Dependendo da sua sorte, o fácil pode ficar difícil.

Queda: Por se tratar de vias expostas, o escalador que vai a Salinas não pode pensar em quedas. Além disso, ele tem que escalar um nível bem acima do grau técnico das vias de lá. Volta e meia, nestas vias, há trechos difíceis (que chamamos de crux) que são bem elevados e expostos. Se você estiver bem, vale a pena enfrentar. Mas não caia.

Quando eu e o Tacio escalamos a via “Arco da Velha”, no Pico Maior, tudo fluiu muito bem. Fomos escalando, lance a lance, e nos divertindo bastante. Isso durou até chegar o lance do crux, que é cotado em 7a, o que para a escalada esportiva não chega a ser um grau complicado. Só que, se você estiver a 600 metros do chão e com uma proteção a 8 metros abaixo de seu pé, certamente não achará muito divertido escalar um grau deste. Naquela tarde, o Tacio realmente não viu graça naquilo.

Ele estava escalando muito bem, e foi guiando em direção a uma chapeleta distante. Ele venceu todos os lances difíceis, se equilibrando em pequenas agarras e nas aderências. Até tirar a costura para clipar e… Queeeeeeeeeeedaaaaa!

Ele literalmente voou. Bateu na pedra e saiu quicando até a corda esticar pelo menos entre uns 15 e 20 metros abaixo. Mas depois do susto ele respirou fundo e finalizou a via!

Medo: Salinas inspira medo às pessoas, até mesmo para quem já é experiente. Há dias que são do escalador, mas há dias que são da montanha. Na via “Arco da Velha”, o dia era nosso, mas na “Abracadabra”, o dia era da montanha.

Fazia frio e ventava muito naquela tarde de julho, e eu não me sentia confiante na escalada. Pior: a “Abracadabra” é uma via exigente, que exige conhecimento em proteção móvel, em lances difíceis e expostos. Mais de uma vez eu metralhei as fendas com equipamentos móveis, que serviram como efeito placebo, pois muitas das fendas não eram boas. Deu certo. Mesmo com medo escalei a via até o fim.

Noites longas: Interpretar mal o croqui, se perder e passar medo são situações que tomam muito tempo dos escaladores aficionados que nunca desistem – como nós. O tempo, no entanto, não para, e quando nos damos conta, já é noite. É normal ver algumas “cordadas dormirem no cume ou na parede”. Com a friaca que faz na região, estas noites nunca são bem dormidas. E são longas, muito longas. Ainda bem que eu nunca passei por esta experiência. Mas escalando a “Devaneios do Repouso” no Pico do Capacete, experimentei o que é terminar uma via à noite, depois de ficar tateando a rocha à procura de uma proteção. Ainda bem que achei a via e não precisei experimentar a longa noite de Salinas.

Passeio: Não é apenas de dificuldade que vivem os relatos das escaladas de Salinas. A verdade é que os perrengues rendem boas histórias, e às vezes nos esquecemos de dizer o quanto foi divertido “passear” pelas vias dessas belas montanhas: escalei uma dezena de vias por lá e a maioria foi um passeio. Aliás, o bom de lá é isso: poder passear por algumas vias e conhecer o seu limite em outras. São poucos os lugares no Brasil onde há uma concentração tão grande de vias longas. Por isso Salinas é um paraíso.

Acordar cedo, enfrentar a friaca da manhã, escalar qualquer via, viver intensamente a montanha, ver o por do sol do cume (e descer à noite para comer uma pizza no refúgio do Sergio Tartari), tomar uma cerveja artesanal e contar histórias de montanha para os amigos que estão por lá é tudo de bom! Por isso que Salinas é um dos melhores lugares do Brasil para a escalada tradicional.

Publicado originalmente no site da revista Go Ouside em 26/09/2011

Pedro Hauck é escalador, montanhista, geógrafo, professor e atual editor do site AltaMontanha.com, onde publica suas experiências desde 2007. Ele também é autor do site Gentedemontanha.com e autor do blog PedroHauck.net

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Sobre o autor

Pedro Hauck - Equipe AM

Pedro Hauck é montanhista e escalador desde 1998. Natural de Itatiba -SP, reside atualmente em Curitiba-PR. Pedro gosta de escaladas clássicas e também de montanhismo de altitude, já tendo escalado algumas das mais altas dos Andes. É geógrafo, mestre em Geografia Física e atualmente faz doutorado em Geologia ambiental. Visite o Blog de Pedro em www.pedrohauck.net

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