Travessia Kairós #2

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Armamos as barracas por detrás de uma pequeña elevação que nos manteve em segurança. Estava expressamente proibido fazer acampamento por todo o bosque

Acostumbrarse, diluirse o tornarse viento y frio sobre ruedas de bicicleta”.

Separados por algumas árvores, cada um de nós imergiu por um tempo imensurável em suas leituras. Há sete dias que nem tocávamos em nossos libros que trazíamos juntos de roupas de inverno, fogareiro, kit primeiro socorros variados, extensores, granolas e castanhas e, ainda, as ferramentas necessárias para o bom desempenho em nossos caminos, sobre as bicicletas. As roupas de inverno estavam ao fundo e ainda não tínhamos previsão de uso. Entramos ao fim da tarde no bosque de pinus, por recomendação de um morador da região. Armamos as barracas por detrás de uma pequeña elevação que nos manteve em segurança. Estava expressamente proibido fazer acampamento por todo o bosque.

Quando descansamos com nossos libros, sentimos que a viagem se realizava. Um recorte de céu se via ainda, ao início da noite, e um silêncio subia por entre os caules grandiosos. Estávamos em Cariló, região pertencente à Pinamar, na costa litorânea da província de Buenos Aires. Mas estávamos muito mais longe em nossos pensamentos.

A viagem de ônibus até a Capital Federal argentina durou cerca de 29h. Estava feliz com o fato de dar sequência à travessia que realizei há cinco anos, de Florianópolis à Buenos Aires, também de bicicleta. Procurei o mesmo hostel, inclusive, mas que já deixara de existir. Tentativas de retorno aos sentimentos antigos e que permanecem latentes.

Encontrei Caio e passamos um dia mais em Buenos Aires. Nossos primeiros quilómetros foram por um grande viaduto saindo da metrópole. Assim que descemos sua extensāo, fomos parados e escoltados por policiais com suas motos. Deslocamentos em nossos roteiros: pontos que trazem mais força para lidarmos com a viagem: que nada mais é do que uma precisa incerteza.

La Plata, Chascomús, Lezama. A partir de Chascomús começamos a probar a água salobra que sai das caniillas (torneiras) e que tem gosto de soro caseiro (água + açúcar + sal). Seguiria assim por quase todas as próximas ciudades, nos obrigando a comprar a água engarrafada por onde passávamos.

Em Lezama tivemos nossa primeira experiência na corporaçāo dos bombeiros. Eram voluntários, e repetiríamos a hospedagem em Mar Azul. Depois de Lezama, passamos a enfrentar trechos de rodovias sem banquinas (acostamento), que eran substituídos por gramados difíceis de se pedalar. Ao anoitecer na Ruta 63, fomos novamente abordados pela policía e, grosseiramente, obrigados a colocar nossas bicicletas na caminhonete, acompanhando-o no “camburao”. Acampamos na estrada, próximo ao posto policial.

General Madariaga, Pinamar, Carilo, Mar Azul e Mar Chiquita anteciparam nossa chegada à Mar del Plata. Foram os primeiros 10 dias. 558,70 km. Definimos como o término de uma possível primeira etapa.

Acostumbrarse, diluirse o tornarse. Foram as anotacões feitas por um grande amigo, em carta, que li assim que cruzei a ponte de Florianópolis. No dia de chegada à Mar del Plata, sentimos o vento pela primeira vez. Vinha contra e nos impedia de seguir. Aos poucos vamos nos acostumando. Sentimos, que nessa adaptaçāo, atravessamos um momento de cada vez, cidade por cidade, até que nos tornemos vento e frio, nos tornemos a viagem em si. Com nossos modos de ser e conviver, entramos em sintonía aos poucos. Nāo atravessaremos somente a Patagônia, como esperávamos, ingenuamente. Cruzaremos um boa aclimataçāo antes: acima de tudo, atravessaremos a nós mesmos.

Luã Olsen,

MAR DEL PLATA – Argentina.

21.02.18

Veja mais:

:: Travessia Kairós #3

:: Travessia Kairós#1

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Sobre o autor

Luã Olsen

Luã Olsen é arquiteto e urbanista. Utiliza suas aventuras para experimentos literários, quando refaz a viagem para si e para o outro. É autor de TU, YO Y LA LUNA (2014), relato de sua viagem de bicicleta de Florianópolis à Buenos Aires, e INTERIORES (2017), sobre sua primeira cicloviagem, por Santa Catarina. Atualmente realiza a TRAVESSIA KAIRÓS, pedalando pela Patagônia argentina e chilena, com o apoio da Alta Montanha.

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