Travessia Kairós #4

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“O sentimento de liberdade, que tínhamos durante a pedalada, era o que procurávamos ao poder escolher a situação”

O argentino Rodrigo estava pernoitando no hostel de Bahia Blanca, onde chegáramos há pouco. Vinha de Mar del Plata e seguiria para o Sul. Íamos todos para o mesmo lado. Tinha uma Fiorino, um desses carros para duas pessoas e muito espaço para objetos e, no dia seguinte, eu e Caio revezaríamos quem iria acomodado entre caixas, malas e as bicicletas. Iríamos dessa forma em direção à alguma cidade próxima a Viedma, sempre mais ao Sul pela costa argentina e de onde poderíamos pegar um trem para passar à Oeste.

Cruzamos duas inspeções durante os pedágios e travessias fronteiriças entre províncias, e não foi possível que nos vissem. Era um cenário que se modificava cada vez mais, de agitados mares entre o marrom e o azul para linhas retas de um horizonte sóbrio e extensas rodovias sem humor, ríspidas.

Tudo era digno de nota, mesmo para quem visse sentado lá na frente ao lado de Rodrigo, ouvindo funk brasileiro, ou em sentido reverso: através das pequenas ventanas, acomodado sufocadamente (e como fosse possível, com as pernas dobradas ou para cima) e com o suor escorrendo por todos os lados. Em alguns momentos, os rostos dos motoristas eram incríveis distorções prestes à ultrapassagem. Em outro, passávamos pela nossa primeira placa indicativa da cidade mais austral, Ushuaia, que apenas os dois que estavam à frente puderam ver, já que eu estava de costas e via aquilo que se afastava: o Brasil, Buenos Aires, Bahia Blanca, todo o caminho ficava pra trás.

Andamos 500 km dessa forma, e não podemos dizer que, literalmente, pedalamos, mas sim que estávamos em uma viagem de bicicleta. Assim, não nos colocamos na situação estrita do veículo escolhido: damos margem às aberturas e oportunidades que nos surgiam e que nos movia. O sentimento de liberdade, que tínhamos durante a pedalada, era o que procurávamos ao poder escolher a situação.

Se ficássemos parados por algumas horas ou dias, estaríamos na mesma viagem de bicicleta. E assim, foi: ficamos uma semana na cidade balneária de Las Grutas, retornando às curvas marítimas e onde, dizem, suas águas tem a fama de serem as mais cálidas, as mais quentes desse país.

Aguardávamos o Trem Patagônico que partia de Viedma uma vez por semana. Teríamos seis dias para nos acostumbrarmos ao “parar”. Descansaríamos e passearíamos pelas ruas desertas da já baixa temporada, mesmo que ensolarada. Em Las Grutas, fizemos nossas primeiras parrillas, visitamos museus, lavamos as roupas imundas, bebemos o vinho barato da Argentina, e mergulhamos em nosso último tramo de Oceano Atlântico.

O trem surgiu na sexta-feira, viernes, com mais de uma hora de atraso. Mas quem de nós ligava para isso? Estávamos na cidade vizinha do balneário, San Antônio Oeste, e assim seguimos as próximas 14h em direção à pré-cordilheira andina, no outro lado do país. No aspecto decadente do trem, explorei entre os vagões em hora alta da madrugada. Nosso vagão era o único sem calefação, o mais barato. Fui o primeiro a estar no vagão comedor para o desayuno, queria me esquentar e absorver tudo aquilo desde as primeiras luzes da manhã. Sentaram a minha mesa e conversamos sobre viagens, recebi indicações de bons mates. Depois, li Cortázar, os contos, que comprei em um sebo mar platino. O trem vagava, com todos seus suspeitos ainda dormindo, pela meseta central amarronzada da geografia argentina. Amarrava tudo nesse vagão, comendo torradas: uma viagem de bicicleta.

O verde e o frio vieram com tudo do lado de fora. Desembarcamos por volta das 13h em Bariloche. Procuramos as bicicletas. Encontramos minha mãe, irmã e prima. Passaríamos mais uns dias de descanso e, quem sabe, alugaríamos um carro.

Rodrigo teve o papel de nos fazer, indiretamente, refletir sobre isso: sobre o que pensamos e entendemos sobre viajar de bicicleta: estávamos todos aqui por causa disso, e amontoadas em um canto, se preparavam para dias mais duros.

LUÃ OLSEN

TREVELIN – Argentina

27.03.18

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Sobre o autor

Luã Olsen

Luã Olsen é arquiteto e urbanista. Utiliza suas aventuras para experimentos literários, quando refaz a viagem para si e para o outro. É autor de TU, YO Y LA LUNA (2014), relato de sua viagem de bicicleta de Florianópolis à Buenos Aires, e INTERIORES (2017), sobre sua primeira cicloviagem, por Santa Catarina. Atualmente realiza a TRAVESSIA KAIRÓS, pedalando pela Patagônia argentina e chilena, com o apoio da Alta Montanha.

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