Travessia Kairós #7

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Tomei o desjejum sentado à porta de minha barraca, o mingau com aveia e o café preto sem açúcar que sempre me acompanha o desmonte do acampamento.

:: Travessia Kairós #6

Quando encontrei a viajante belga, eu subia com dificuldade e já a quilômetros de distância e dois dias afastado da última cidade, temendo novamente a chuva e frio que faziam retornar a caótica partida de Bariloche, sofrida peregrinação nessa tentativa de saída do Parque Nacional Los Alerces. Subestimei sua travessia pela ideia simplista de que encontraria guaritas, ingressos que nos dariam a permissão para o trânsito interno de suas reservas, placas indicativas de trilhas e sugestões de campings no caminho e todo o resto que me fazia turva a ideia de que precisaríamos de dois ou três dias para atravessá-lo. Tine, a viajante belga, estava com os olhos encharcados despejando sua bicicleta em uma descida merecida e enquanto eu me enrugava com a chuva, seus olhos eram lágrimas carregadas pelo vento e fez o esforço de parar para trocarmos experiências e pães e biscoitos.

E nisso tudo, gosto de pensar que meu caminho tangencia tantas incertezas. Que estou indo cada vez mais longe, rumando ao Sul, mas não sei bem para onde. E crio subterfúgios numa ignorância voluntária, não pesquiso, não busco saber. O conhecimento prévio não me atrai mais, o que um dia foi, o porquê disso e aquilo. Que me surpreendam. Métodos para manter a inocência dessa criança que lá vai. Faço assim: espero que, de alguma forma, me digam, indiquem, que me flagrem nesse encontro com o acaso e dentro disso tudo, transbordo em devaneios como uma criança imersa em seus jogos da infância.

E fiz cabana o ponto de ônibus do vilarejo que antecede o Lago Rivadavia, com seu formato lúdico de brincadeiras infantis, onde me abriguei da chuva ainda fraca e tomei o chocolate-quente que se repetia quando a estrada era dura, improvisando sanduíches de queijo com salame, cabana docemente ilustrada por esse bosque de cores onde todos os animais silvestres da natureza daqui eram representados por pinceladas infantis de tão bonita mensagem, ayudemos a cuidar el bosque y el agua porque sin ellos no podriamos vivir, que passei a ver com menos arrogância e um pouco mais de ansiedade e respeito a grande floresta a que eu chegaria em breve.

BIENVENIDOS

PARQUE NACIONAL LOS ALERCES

ADMINISTRACION  DE PARQUES NACIONALES

A sugestão que circulava entre os viajantes era a de que devíamos aguardar o fechamento do parque, burlarmos a administração e depois de tal horário invadirmos sem autorização a natureza selvagem que se anunciava. Para sairmos, o mesmo deveria ser feito: burlar a administração e depois de tal horário evadirmos.

A dificuldade era entender o pedágio obrigatório em um caminho que não nos dava alternativa. Sob influência da chuva que, embora esperançoso, afundavam-me os ânimos, lá estava a estrutura esperada, portal de entrada e logo encontrei duas jovens atendentes na portaria, repousavam imersas em seu aquecimento e não deram ouvidos de forma alguma às minhas súplicas, vejam bem, estou me esforçando para falar esse idioma, para percorrer seu país, olhem a minha situação e era preciso considerar que qualquer um ficaria facilmente abalado com o viajante embaixo do aguaceiro, do frio e das características tão amigáveis desse veículo sofrido, fiel, cheio de penduricalhos acumulados com os quilômetros e que fingia sorrir como havíamos combinado.

Retornei o caminho, como um cão com o rabo entre as pernas, deixando claro que não pagaria a taxa e que retornaria não sei pra onde, demonstrando minha frustração. Sentei depois da curva no monte de terra enlameada formado pela nivelação da estrada e preparei um café, ainda era meio da tarde, mas estava escuro e chovia, aguardei a sensibilidade aflorar por parte das estagiárias da guarita, e também a minha, pois que elas não iriam embora assim tão cedo. Depois do pequeno momento introspectivo de minha frágil estratégia, retornei moribundo, retirei os 250 pesos necessários, contribuindo com a fauna e a flora, adentrando mal-humorado aos 2,5 km² de reserva à minha frente.

(…)

É alto da noite e todos adormecem em seus abrigos à beira do lago, enquanto que ao redor de minha barraca alguma coisa circula investigativa. Malditas desconfianças que me trazem essas noites assim silenciosas. Mas faz-se ouvidos, ouço o rastejo rápido de seus passos. Talvez sejam as mosquetas que devem atrair certo animal de hábitos noturnos que, além disso, vê nos biscoitos e pães acumulados do lado de fora uma boa e extra recompensa. Deduzo tratar-se de uma espécie de ratazana selvagem que faz aqui suas buscas incansáveis. A noite avança e desperto de meia em meia hora para analisar se o roedor atravessou o material de que são feitas essas leves barracas, pois que trouxera a comida para dentro e depois de se alimentar das coisas comestíveis, sabe-se lá do que seria capaz. E contornando todo o meu abrigo, mantivemo-nos separado pela lona e foi assim que adormeci, mas acordo mais uma vez para espantar, batendo na parede da barraca, ecoando por todo o lago, esse tormento incógnito que não tem fim.

 (…)

 O sol despertou por detrás da montanha, sugerindo um belíssimo dia de pazes com todo o parque mais à frente. Tomei o desjejum sentado à porta de minha barraca, o mingau com aveia, os pães resgatados dos invasores da noite e o café preto sem açúcar que sempre me acompanha o desmonte do acampamento.

Um belo dia de primavera se estendeu analisando a diversidade da flora, reconhecendo as árvores que cresciam aos montes na estrada. Colhi amoras em um caminho já tão ensolarado que me fez retirar os abrigos e mesmo a calça que usava por cima da bermuda, ambas tão coladas uma à outra, uma estratégia adotada já entendendo a bipolaridade do clima. E dos frutos observei as mosquetas que para maior precisão de minhas observações me levou a cumprimentar o senhor, esse que colhia ramos e mais ramos da pequena espécie vermelha e alongada.

A calma de um viajante que vinha sentindo as boas aragens, uma aproximação tranquila em que o senhor observou o meu entusiasmo com a vida, disse que esses frutos eram mesmo mosquetas, mas não rosa mosqueta como chamavam todos. As mosquetas possuem espinhos por fora e por dentro e, com um pouco de dificuldade, se consegue fazer marmeladas. Ah, compreendo, é de se extrair as adversidades aqui e aqui e, aqui também, transformar em doce essa maravilha de oferenda do caminho. Tinha acabado de almoçar e me oferecera a base de sua refeição que eram as inéditas tortas fritas: massas de pão que foram ao óleo, possuem um vazio interno que se pode preencher, no caso do almoço desse senhor, com a carne que trouxera de seu lar e no meu caso, mais adiante, com as framboesas outonais, tão primaveris, que vinha coletando.

E sentar no gramado em declive, à beira da estrada, já adiante, colher mais e mais amoras, e com a água ainda quente revirar os grãos domesticados desse café solúvel, sempre presente, depositar os frutos no interior da cortesia oferecida e, então, casá-los no encontro dessa tarde, dentro de si, um olhar que vagueia ao longe.

(…)

Quando encontrei a viajante belga, eram altos e baixos e eu subia com dificuldade, novamente sob clima chuvoso e nesse encontro dividimos nossos pães e biscoitos, experiências que traziam cor à cinzenta película pela qual flanávamos. Nesses auto afastamentos a que nos colocávamos, recebera a notícia distante do padecimento de um amigo e então as lágrimas vinham com a gravidade e eram confundidos os sentimentos de frio e vento com o sutil sopro da vida. Tine falava da tormenta que eram esses encontros rápidos por uma Argentina gélida e sugeri que desviasse os planos, fosse ao Brasil, esquentasse os ânimos fazendo do encontro um cruzamento de rotas e lá foi tornar-se felicidade, soltou seus freios para que as lágrimas secassem ou voltassem, o que realmente desejasse.

(…)

Enfim, a Portada Centro, fazendo o papel de saída do parque. Não me pediram o comprovante do pagamento da entrada, deixando de perceber a seriedade com que esse viajante enfrentava as reservas nacionais.

A geografia mudara totalmente com o advento do asfalto. Encostei Gjert no guard-rail, sentei no acostamento igualmente apoiado nessa estrutura metálica, tirei o chapéu preso nos alforjes e me servi de sua sombra, baixando sobre meus olhos, descansando em meia mirada à vista da nova paisagem preenchida pelo vale. Fiz meu almoço montando meus sanduíches. Tinha pinta de selvagem e ameaçava aquele mistério de quem saíra recentemente da floresta, um pouco desorientado e ainda arisco.

LUÃ OLSEN

COCHRANE, LA JUNTA, CONCEPCIÓN – Chile

24.05.18

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:: Travessia Kairós #8

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Sobre o autor

Luã Olsen

Luã Olsen é arquiteto e urbanista. Utiliza suas aventuras para experimentos literários, quando refaz a viagem para si e para o outro. Autor de TU, YO Y LA LUNA (2014), relato de sua viagem de bicicleta de Florianópolis a Buenos Aires, e INTERIORES (2017), sobre sua primeira cicloviagem, por Santa Catarina, cinco anos antes. Em 2018 realizou a TRAVESSIA KAIRÓS, pedalando através da Patagônia argentina e chilena, escrevendo suas impressões para o site da Alta Montanha.

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