Travessia Kairós #7

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Continuávamos firmes na sequência de subidas e bajadas e sorríamos todos com a boa sincronia dos fatos.

:: Travessia Kairós #6

Gosto de pensar que meu caminho tangencia incertezas. Que eu estou indo, caminhando ao Sul e não sei bem para onde. Para isso, crio subterfúgios  numa ignorância voluntária, não pesquiso, não busco saber. Sobre a cidade que vem à frente, não miro, não busco no mapa. Faço assim: espero que, de alguma forma, me digam, indiquem, que me flagrem nesse encontro com o acaso. E que apontem. Por mais longe que esteja, torna-se difícil se perder e era isso que vinha buscando.

Quando saí de El Bolson, tomei mais um café na estación. Tentativas de encontros, vai saber. Os postos de combustível sempre foram bons lugares para chegadas e despedidas de uma cidade: um encontro com uma internet razoável, atualizações aos nossos familiares. Mensagens, coordenadas e previsões. Provisões.

Minha última ida ao baño, e até isso merecia atenção. Para meu espanto, alguém esqueceu uma grande embalagem de facturas por cima da pia. Esperei do lado de fora, fazendo os últimos ajustes necessários. Passados 15 minutos, não era possível, entrei, saqueei as medialunas, churros e sonhos, um excesso de frituras, e fui contente (crente no poder do destino) para a ensolarada estrada.

Parei no acostamento para conferir. Era isso mesmo, comi duas medialunas e um sonho. Ensolarado caminho. Que o argentino olvidado perdoe ese humilde viajante que se arrasta por suas estradas. Um pouco de energia em minhas engrenagens. Continuávamos firmes na sequência de subidas e bajadas e sorríamos todos com a boa sincronia dos fatos.

Para compensar, colheria amoras na estrada. Um senhor me deu tortas fritas quando parei para pedir informações sobre o que estava catando na beira da estrada e que eu, continuamente, avistava no bordo da pista. Disse que já tinha minhas frituras, meus assados, e ofereci medialunas, que foram negadas cordialmente. “Mosqueta, e não Rosa Mosqueta”, como chamam seus vizinhos, esse era o nome dos pequenos frutos vermelhos. Tortas fritas são massas de pão que foram ao óleo. Possuem um vazio interno que se pode preencher, no meu caso, com as amoras que encontraria mais adiante. As mosquetas possuem espinhos e, com um pouco de dificuldade, se consegue fazer marmeladas. Foi um grande encontro, tínhamos o tempo e o dia pela frente.

Fui encontrando uma sequência de cidades mais adelante“Dos que van” é o significado, na língua mapuche, de Epuyen.  Era a informação na placa de recepção da entrada do povoado. Frenei os movimentos e resolvi ficar. Armei a barraca no gramado ao lado dos bombeiros. Cozinhei lentilhas e batatas. Em Cholila,  também ficaria nos bombeiros. Butch Cassidy e Sundance Kid. Alguns conheciam sua história, bandidos norte-americanos que vieram para cá, compraram terras, saquearam um pouco mais. Continuam vindo, disse um argentino. A cabana onde viveram, não visitei.

Para chegar a Cholila, cruza-se uma região árida, desértica: estamos sempre flertando com a patagônia chilena e o deserto da meseta central argentina. Sentimentos faroestes nesse ciclista que pedalava agora de bermudas curtas e coladas às pernas. Um casal de franceses veio de longe. Não conseguimos nos comunicar, tirei uma foto e seguiram seu vento, que ia em oposição. Até isso, o vento, ia a nosso favor no dia de hoje, como ontem. Dias bonitos nessa semana. Nesse momento árido, mas não menos rico, encontrei a ossada da cabeça de um Guanaco, assim preferi acreditar, e que seguiu até a fronteira com o Chile. Pendurei o amuleto no guidão de Gjert.

Quando avistei Tine no Parque Nacional dos Alerces, eu subia com dificuldade, e já a quilômetros de distância de Cholila, sob uma chuva que tornava-se insuportável. Foram tres dias atravesando o parque. No primeiro deles, encontrei um furgão de Buenos Aires. Já tinham estado 5 meses pelo Brasil e cruzariam mais vezes pelo meu caminho. Também veio Patrício, viajante de bicicleta, e a vontade de me ceder informações precisas. A belga vinha no impulso da descida, foi no segundo dia. Espalhava lágrimas pelo rosto, mas não saberia dizer se eram tristeza ou o impulso gelado do vento que soprava nas descidas. Só sei que parou. Ofereci sonhos que sobravam. E conversamos, embaixo da garoa, sobre as metas programadas diariamente pelos cicloviajantes, comemos biscoitos e pães. Fomos tirando coisas dos alforjes, que poderiam ser úteis ao outro. Seria bom parar, pensei, tentaria isso mais adiante, não sei bem onde. Gosto de pensar que el camino continua incerto. Estava chateada com o frio e sugeri que fosse  ao Brasil. Que cambiasse seus planos e fosse para terras tropicais. Sabia o que eu estava falando. O terceiro dia no parque foi de sol e, por esses tempos, recebi um e-mail: parece, mesmo, que ela foi.

LUÃ OLSEN

COCHRANE, LA JUNTA, CONCEPCIÓN – Chile

24.05.18

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:: Travessia Kairós #8

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Sobre o autor

Luã Olsen

Luã Olsen é arquiteto e urbanista. Utiliza suas aventuras para experimentos literários, quando refaz a viagem para si e para o outro. É autor de TU, YO Y LA LUNA (2014), relato de sua viagem de bicicleta de Florianópolis à Buenos Aires, e INTERIORES (2017), sobre sua primeira cicloviagem, por Santa Catarina. Atualmente realiza a TRAVESSIA KAIRÓS, pedalando pela Patagônia argentina e chilena, com o apoio da Alta Montanha.

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