Travessia Kairós #8

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Saí para minha própria experiência iniciativa e consegui pães e frutas na escura avenida principal.

:: Travessia Kairós #7

Cafeciño, dejamos una bolsa colgada en la entrada para que usted lleve un recuerdo nuestro. Assim, me ocorreu agora que Trevelin foi junto comigo em direção à fronteira argentina, passou e se manteve firme em mim por um longo tempo que viria.

Foram três ou quatro dias, talvez mais, teria que rever minhas anotações. Quando cheguei, fui diretamente aos bombeiros, esses funcionários da vida que nos atendem em casos extremos e, vez ou outra, nossas súplicas de viajantes. Saí com um rotundo não, confesso que me abalei, não esperava, não estava feliz. Segui, ainda firme, pela praça, um lugar estranho e, agora, inconveniente, que perdoem os urbanistas, perdoem meu mal-humor, mas eu tinha problemas com efectivo, não tinha “dinheiro vivo” como se passou e passaria novamente, tudo se tornava nebuloso nesse fim de tarde em uma nova cidade desconhecida. Sem condições de pagar o que um turista poderia ter como preço normal para uma noite honesta, saí cambaleando em círculos por esse pretencioso rompimento da malha ortogonal urbana, esse rotundo não ao que se espera de quadras herméticas e bem desenhadas.

Que retornem os verdes, depois os aspectos áridos e depois os lagos que antecederam essa cidade, e com os quais estive confortavelmente mergulhado desde que saí, no dia de hoje, do Parque Nacional de Los Alerces. Onde e quando tomei café encostado no guard-rail metálico, com sanduíches mesclados ao cremoso doce de leite argentino, protegendo-me do sol com o chapéu preto que me dava um aspecto de misterioso andarilho: assim queria que me vissem.

Agora o peregrino fazia seu terceiro círculo incerto e sem motivos, sem projeções, pela praça central de Trevelin. Era um tempo de reflexões, ajustes dos pensamentos. Foi uma sensação estranha quando vi uma figura que me pareceu conhecida na esquina que saía radialmente do centro da circunferência. Francisco me acenou cordialmente, como se estivesse esperando minha chegada. Logo veio Esteban. Os dois viajantes daquele velho furgão que havia encontrado no parque, alguns dias antes. Imediatamente pensei que os problemas já não mais existiam, que houve um acordo entre as partes de meus astros, que tudo parecia ser uma questão de tempo e paciência, quando me falaram que eu poderia passar a noite ali no veículo. A Altachata, como o chamavam, repousava de costas para a praça e tinha todo o conforto deluxe necessário para que um jornalista (também advogado) e um cineasta circulassem sem muitos planos por incontáveis meses pelo continente sudamericano.

Dormiria essa noite na caminhonete, tangenciando de leve os pés do diretor e a 90° do periodista. Para a janta, me avisaram que iam repetir o que fizeram ontem e pediriam comida nos restaurantes. Que se entenda, comida havia, mas não entendiam o desperdício provocado pelos comerciantes alimentícios e, bom, gostei da ideia. Saí para minha própria experiência iniciativa e consegui pães e frutas na escura avenida principal, o que me deixou entusiasmado e cada vez mais interessado por esse lugar.

Queria muito contar a novidade a meus amigos, mas quando voltava, ainda com a bicicleta carregada e com meu grande casaco para frio intenso (e diga-se que uma barba que já demonstrava alguns dias de improvisação), duas senhoras me chamaram de um carro e me perguntaram se eu já sabia onde passaria a noite. Disse quenão, não sei e, conforme suas indicações, as acompanhei seguindo seu carro.

Por ruas transversais à principal, adentramos ao que o escuro não permitiu entender muito bem. Uma cabana? Somente para mim? Voltaria no dia seguinte, pela manhã, dando espaco de tempo para colocar em ordem a generosidade recebida nas últimas horas.

Assim que despertei, sentindo o frio gaulês na calçada de seus colonizadores, rememorei o trajeto e bati na porta de minhas futuras vizinhas. Pediram que me organizasse, descansasse e fosse almoçar com elas, preparavam um assado no jardim. A cabana seria realmente minha. Uma delas buscou lenha e fez fogo. A outra preparou um café e eu disse que bom, que sorte a minha, um cafezinho quente nessa linda manhã.

Cafeciño, era como Amélia e Helena passaram a me chamar desde então. Durante os próximos quatro dias criei uma boa amizade com minhas vizinhas. Ao mesmo tempo, deambulei com meus amigos portenhos, fomos ao cinema, visitamos jovens rappers da Patagônia (uma longa história).

No último dia, disse que voltaria logo, e caminhei mais uma vez em direção à praça da cidade de Trevelin. Andava cerca de quatro quadras arborizadas que continham, entre suas folhas de princípios outonais, alguns galpões industriais de oficinas mecânicas, casas muradas com cercas de madeiras hermosas e uma graciosa farmácia na esquina, no cruzamento com a avenida principal da cidade. Uma mescla interessante. Essa avenida, en doble via em cada um de seus sentidos, rumava por mais seis ou sete blocos de serviços e me parecia sempre encantador me aproximar da praça circular que distribuía radialmente outras ruas, não tao movimentadas como essa. Ruptura delicada na trama ortogonal do desenho urbano. Gramados que abrigavam jovens enamorados em dias de frio e sol, famílias que confraternizavam e liam e jogavam e sorriam, nessa tarde. Meus amigos já tinham tomado seu rumo, mas entendi que era sempre necessário seguir.

Voltei com flores, para adornar o belíssimo quintal de minhas anfitriãs.

Na bolsa que me deixaram com os recuerdos, um livro sobre a história da cidade, uma bandeira argentina e uma cuia para preparar meu mate.

Depois de tudo, a cidade insistiu em mim e fiquei com essa impressão: fui habitante de Trevelin e me parece, agora, que isso durou por muito, mas por muito tempo.

LUàOLSEN

SANTIAGO – Chile

30.05.18

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Sobre o autor

Luã Olsen

Luã Olsen é arquiteto e urbanista. Utiliza suas aventuras para experimentos literários, quando refaz a viagem para si e para o outro. É autor de TU, YO Y LA LUNA (2014), relato de sua viagem de bicicleta de Florianópolis à Buenos Aires, e INTERIORES (2017), sobre sua primeira cicloviagem, por Santa Catarina. Atualmente realiza a TRAVESSIA KAIRÓS, pedalando pela Patagônia argentina e chilena, com o apoio da Alta Montanha.

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