Burle Marx

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Sempre me encantei com aquelas montanhas altas e rochosas, isoladas com orgulho acima do verde de suas encostas. Por isso, nunca estimei tanto as formações da Serra do Mar, eternamente envoltas na sua natureza úmida e verdejante.

Passei anos sem vê-las, até que as reencontrei num fim de semana passado no mar. E foi uma surpresa rever a exuberância da mata e a vertigem do relevo. Pareceu que eu havia recuperado uma realidade esquecida.

Cerca de cem anos atrás, um jovem rapaz teve uma experiência semelhante. Era filho de um judeu alemão e uma mãe de sangue francês, de uma influente família do Recife. Ele havia nascido em São Paulo, morado no Rio, mas estava agora na Alemanha para curar seus olhos. Foi lá que entrou em contato com as vanguardas modernistas e resolveu estudar artes – o que fez quando retornou.

Mas foi lá, sobretudo, que reencontrou a vegetação brasileira num jardim botânico. Ficou fascinado por ela, por sua exuberância rústica e colorida. E, mais do que qualquer outro brasileiro, ele a homenageou nos milhares de jardins que veio depois a criar. O rapaz foi Roberto Burle Marx, nosso maior paisagista.

Roberto Burle Marx (1909-1994).

Assim como tantas realizações que herdamos dos modernistas, talvez seus jardins não pareçam hoje tão inovadores, como diz Georgina Reid. Mas, na década de 1940, suas paisagens com desenhos sinuosos e com plantas nativas nunca tinham sido tentadas antes. Os jardins brasileiros imitavam até então o formalismo dos europeus. Foi Burle Marx quem rompeu com a tradição e concebeu uma solução inédita.

Ele se via basicamente como um artista e seus jardins surgiram, como ele conta, do meu interesse em aplicar os princípios da composição estética à própria natureza. É impressionante como as pinturas de Burle Marx lembram seus jardins e como estes lembram aquelas. Do meu ponto de vista, os jardins são emocionantes e as pinturas, monótonas.

Projeto de Burle Marx do Jardim do Palácio Capanema (Ministério da Educação). Veja como se assemelha a uma pintura abstrata informal.

Vemos o resultado do trabalho, mas raramente pensamos nos princípios que o organizam. A obra de Burle Marx é baseada em vários fundamentos.

Analogia e contraste são dois deles: plantas semelhantes opostas a cores, volumes e texturas diferentes. Quando não existe este contraste, então ele recorre à simples repetição, com espécies e formas recorrentes. Outro recurso é o isolamento, quando plantas exclusivas são separadas e destacadas.

Vou dar alguns exemplos. A repetição pode ser encontrada nas formas de ondas das pedras portuguesas que decoram a orla de Copacabana – que na realidade ele manteve, ou melhor, ampliou e reformou, pois a calçada anterior era mais estreita.

Os gramados rasteiros interrompidos por moitas volumosas ou por cores diferentes representam o contraste. A enorme árvore de tamboril que sombreia o centro do jardim de Inhotim é uma amostra de um elemento isolado. As diferentes palmáceas do jardim no seu sítio em Guaratiba traduzem o efeito de analogia.

Foi em meados dos anos de 1930 que Burle Marx desenhou seus primeiros jardins, ainda em Pernambuco. Como Diretor de Parques e Jardins, projetou uma dezena de praças, com nossa vegetação nativa. Numa delas, usou as plantas da caatinga e do sertão, ganhando tanto simpatizantes como opositores. Nesta época, criou o paisagismo do terraço-jardim do Ministério da Educação no Rio, um marco modernista, com um traçado orgânico e sinuoso.

Um dos mais importantes projetos de desenvolvimento urbano de Belo Horizonte foi a Pampulha, na década de 1940. Numa área à volta da lagoa, foi construído um centro de lazer e um grande atrativo turístico, em especial a igrejinha projetada por Niemeyer, com painéis de Portinari. O complexo envolveu a prática modernista da época, com paisagismo de Burle Marx. Ele inventou jardins extremamente variados, procurando uma correspondência visual com a arquitetura.

O paisagismo da Pampulha, bairro criado à volta da lagoa que abrigou a arquitetura modernista de Niemeyer.

Uma das mais belas obras de Burle Marx data do fim da década de 1940 – o jardim da residência de sua amiga Odete Monteiro. Nele já foi dito que o contorno da grama replica o desenho ondulante das colinas e o colorido das plantas repete os tons das árvores em suas encostas. Mas, para mim, a ideia mais magnífica foi a criação do lago, que espelha as nuvens e as montanhas.

Jardim da residência de Odete Monteiro. A Serra dos Órgãos serve de decoração isolada para o fundo do jardim.

Burle Marx também desenvolveu em meados dos anos de 1960 o paisagismo do Aterro do Flamengo. Esta enorme área de lazer no Rio de Janeiro foi construída ao longo de anos sobre aterros sucessivos. Contém importantes construções, como o Museu de Arte Moderna e a Marina da Glória, além de quadras esportivas e áreas de praia. A flora variada, a topografia ondulada e as passarelas curvas produziram um conjunto integrado e gracioso.

Talvez o projeto mais conhecido de Burle Marx seja o calçadão de Copacabana. Ele foi concebido em 1970 como uma faixa de transição entre as fachadas muradas dos prédios, o pesado tráfego dos veículos e o passeio dos pedestres. Devido à necessidade de estacionamentos, Burle Marx recorreu a uma área ampla e aberta, e arborizada sempre que possível.

Nesta mesma época, Burle Marx concebeu o jardim da Praça dos Cristais em Brasília. Ela teve um desenho aberto e despojado, principalmente devido ao grande espelho d’água, pensado para abrigar uma grande multidão. Desta vez, o traçado foi geométrico, com referência aos cristais do Brasil Central, representados por blocos de concreto que emergiam do lago. Existem ilhas e jardins espalhados, com espécies do cerrado da região.

Espelho d´água da Praça dos Cristais do Quartel General do Exército em Brasília. Nela Burle Marx recorreu a uma solução ampla e geométrica.

De todas suas paisagens que conheci, nenhuma me encantou tanto como os jardins do Instituto de Arte Inhotim. Burle Marx participou de seu projeto em meados dos anos 1980 – embora tenha havido outros colaboradores. A variedade e o movimento, o contraste e o colorido, a água e o relevo conversam entre si de maneira surpreendente, num conjunto maravilhoso de percorrer.

Um de seus últimos projetos foi o Parque Ipanema, na cidade mineira de Ipatinga. Mas coube também a ele os paisagismos do Parque Ecológico do Recife, do Biscayne Boulevard na Flórida, do Parque Ibirapuera de São Paulo e do Eixo Monumental de Brasília. Também projetou os jardins do Museu do Amanhã e da Vila dos Atletas no Rio e do Parque Burle Marx em São Paulo.

Sítio de Burle Marx em Guaratiba. Note como diferentes palmáceas são agrupadas.

E de onde ele obtinha toda a exuberante flora que usava? Grandemente do seu sítio em Guaratiba, perto do litoral do Rio. Trabalhou nesta propriedade por quase meio século. Ele disse: Já decidi o lugar da minha sepultura: no sítio, debaixo de uma árvore frondosa. Quero me transformar em árvore, na qual cada dedo terá uma floração violenta e sentirei o vento, a tempestade e os relâmpagos a me iluminar. Assim minha perpetuação se fará.

Burle Marx foi de fato enterrado em Guaratiba, mas no cemitério e não no sítio. Ele nunca se casou nem teve filhos que pudessem herdar sua propriedade. Ele a doou para o Instituto do Patrimônio Histórico Nacional. Assim todos nós acabamos sendo os seus herdeiros.

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Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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