O Primeiro Parque Indígena

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Vou lhe contar uma história que considero fascinante. Diferentemente do Brasil que, por assim dizer, nasceu pronto, os Estados Unidos foram crescendo por partes, ao longo de todo o século XIX.

O avanço inicial foi definitivo: a compra da Luisiana da França, que abriu aos americanos as grandes pradarias no rumo oeste. Os demais territórios foram adquiridos da Espanha, da Inglaterra e da Rússia, e também tomados e comprados do México.

Os EUA foram formados por partes ao longo do século XIX. A compra da imensa Luisiana abriu o caminho para o oeste.

O famoso mapa de Lewis & Clark – da E para a D, o Rio Columbia, as Montanhas Rochosas e o Mississipi.

O presidente Jefferson incumbiu os militares Lewis e Clark de conduzirem uma expedição de reconhecimento das enormes extensões da Luisiana e de chegarem até o limite do continente no Oceano Pacífico. Esta foi a épica e histórica Expedição de Lewis & Clark, que iniciou a Marcha para o Oeste no país vizinho.

Mais de um século depois, surge uma nova Marcha para o Oeste, desta feita no Brasil. O interior brasileiro era despovoado e o Estado Novo de Getúlio Vargas criou um programa para colonizar e integrar o nosso Centro-Oeste. Em especial, a histórica Expedição Roncador-Xingu, chefiada pelos irmãos Villas Boas, que desbravou o coração do país, unindo-o à Amazônia.

Da mesma forma como Lewis e Clark conheceram os índios sioux, crow e  shoshones, o Marechal Rondon encontrou os bororo, nhambikwara e paresi e os Villas Boas descobriram os kamayurá, Ikpeng e caiapó.

Aos poucos, as inúmeras nações indígenas foram sendo atraídas para o convívio com os brancos. E também muitas delas exterminadas pelos sertanistas à busca de madeira, minério e borracha ou pelos colonos à busca de território para pasto e lavoura.

Os irmãos Villas Boas – Orlando, Cláudio e Leonardo.

Tanto Rondon como os Villas Boas, embora sinceros indigenistas, têm sido criticados pelo brutal avanço da colonização facilitada pelos acessos e pelas comunicações que criaram. Existe o relato de que a ideia de uma reserva que protegesse os índios do Brasil Central e impedisse as guerras entre eles teria surgido de uma conversa ao pé do fogo entre os sertanistas da Expedição.

A versão oficial, entretanto, a coloca numa reunião formal em 1952 em Brasília. Além dos três irmãos, muitos indigenistas contribuíram para essa conquista – em especial, Cândido Rondon, Noel Nutels e Darcy Ribeiro.

Essa é uma história longa, e o parque foi fundado com ¼ da área originalmente proposta, porque o governo do MT concedeu glebas dentro do espaço original.

Em 1961, Jânio Quadros decretou o que veio mais tarde a ser conhecido como PIX – Parque Indígena do Xingu. Sua demarcação definitiva só aconteceu em 1978. Devido a outras reservas criadas depois, seu tamanho alcançou 2.800 mil hectares. Os municípios de Gaúcha do Norte, Querência e Feliz Natal contribuíram com ¾ da área do PIX inicial.

As aldeias do Parque, sendo indicados os PI (posto de apoio para saúde e educação) e os PIV (para vigilância da área).

Costuma-se dividir o PIX em três partes, que correspondem aos povos que lá habitam e aos distintos trechos do Xingu. Na parte sul ficam os formadores do Xingu; a região central vai do Morená (convergência do Ronuro, Batovi e Coluene, identificada pelos povos como local de criação do mundo e início do Rio Xingu) à Ilha Grande; seguindo o curso do rio, encontra-se a parte norte do Parque (o mapa acima indica a localização de todas aldeias e postos), diz o ISA – Instituto SocioAmbiental.

A vegetação varia das savanas e cerrados do sul até as florestas amazônicas de várzea e de terra firme do norte – embora existam enclaves de uma vegetação nos domínios da outra. Por se situar no vale e não ser atravessado por nenhuma serra, o Parque é plano em toda a sua extensão. É uma região de muita chuva, muito calor e muito arenito vermelho.

Trajetórias das etnias indígenas no Xingu. Diversas tribos do oeste e do norte vieram se juntar ás onze etnias originárias no Alto Xingu.

O PIX é habitado por uma dezena e meia de diferentes etnias, que falam os quatro troncos linguísticos existentes no país. A meu ver, as mais interessantes são as dez etnias originais do Alto Xingu, que praticam costumes parecidos e participam de um regime de trocas, rituais e casamentos entre si, embora mantenham cada qual sua própria cultura.

São no total 65 aldeias – embora eu tenha encontrado contagem de mais de 80. As maiores dentre essas aldeias pertencem aos kalapalo, kayamurá, kuikuro e waurá. Já povos como ikpeng e juruna não pertencem à cultura alto-xinguana, são bastante heterogêneos e foram atraídos posteriormente para o PIX.

Os quatro troncos linguísticos são indicados abaixo, junto com a localização das etnias, se no Alto ou no Baixo Xingu (ou seja, a sul ou a norte do Parque):

Língua Aruak Língua Karib Língua Tupi Língua Gê
Alto Baixo Alto Baixo Alto Baixo Alto Baixo
waurá kuikuro ikpeng aweti juruna suyá
mehinako matipu kamayurá kayabi
yawalapiti nafukwá
kalapalo
naruvôtu

Nota: Os trumai do Baixo Xingu falam língua própria e não aparecem no quadro acima. Os panarás, tapayunas e caiapós não mais residem no Parque.

Quando a FUNAI sucedeu o SPI em 1967, existiam dois modelos distintos para a política indigenista do país. Um deles, que era radicalmente protecionista, foi desenvolvido pelos irmãos Villas Boas, onde as tribos deveriam ser protegidas pelo governo dentro de reservas indígenas, e só gradualmente se integrarem como grupos étnicos independentes na sociedade do Brasil. Em oposição, existia uma outra política indigenista da FUNAI, de natureza desenvolvimentista, baseada na premissa de que os indígenas deveriam ser rapidamente integrados, como força de trabalho ou produtores de mercadorias, às economias regionais em expansão, como escreveu Shelton Davis no seu livro Vítimas do Milagre.

A reserva foi inicialmente pensada como um Parque Nacional, o que não permitiria a flexibilidade para seus habitantes sobreviverem lá segundo seus costumes. Foi depois renomeada Parque Indígena e serviu de inspiração, mas não de modelo, para as inúmeras Terras Indígenas posteriormente criadas no Brasil.

O território indígena do Xingu.

Ao norte e além do PIX, existem hoje e por influência dele três dezenas de reservas ao longo do rio, que alcançam quase 30 milhões de hectares e acolhem 25 etnias do Médio ao Baixo Xingu. Este é o chamado Território Indígena do Xingu. Embora íntegro no seu interior, ele é crescentemente ameaçado nas suas bordas pelo vertiginoso avanço dos pastos e dos grãos, num visual tão monótono como a monocultura da cana.

Existem estudos que recuam a história dos índios xinguanos até o fim do primeiro milênio (800-1.400 anos atrás). Indígenas vindos do oeste falantes do aruak (como waurá e mehinako) já habitavam nesta época as aldeias circulares até hoje típicas do Alto Xingu.

Algo depois desta época, tão recente como 400-800 anos atrás, teria existido um surpreendente conjunto urbano, com construções como estradas, trincheiras, pontes e barragens, que teria sido uma cidade kuikuro (de língua karib) de talvez cinco mil habitantes.

Mais surpreendentemente, cidades satélites teriam existido conectadas por estradas ou canais a este núcleo central, ao qual foi dado o nome de Kuhikugu. Seria um conjunto de até 50 mil pessoas, ao longo de  talvez 25 km, comportando duas dezenas de aldeias.

Os povoados eram suficientemente separados, de forma a permitir áreas florestais que preservassem o ambiente. A cultura da mandioca, a presença das terras pretas adubadas e os plantios do pequi foram algumas das práticas preservadas pelos kuikuros, como conta o arqueólogo Eduardo Neves.

Os troncos que representam os mortos. Sua madeira é a mesma em que o herói original esculpiu as mulheres. A imagem é de uma aldeia waurá.

O desaparecimento dessa cultura a partir do século XVI, assim como de outras amazônicas, teria sido causado por doenças como a varíola e a caxumba trazidas pelos brancos.

A densa floresta amazônica teria impedido que os sertanistas do período colonial tivessem tido contato com essas edificações. Construídas por materiais degradáveis, como palha, solo, fibra e madeira, e sujeitas às chuvas torrenciais, teriam sido gradativamente absorvidas e degradadas pelo ambiente, sem apresentar os vestígios que as construções em pedra costumam deixar.

A descoberta de Kuhikugu foi obra do pesquisador francês Michael Hackenberger, cerca de vinte anos atrás. A clareira onde teria sido edificada chama-se Lahatua e fica às margens da Lagoa Dourada, um belo lago no interior do PIX.

Apesar desses fatos, acho estranho que outros achados semelhantes, na Amazônia Central (onde havia cidades com extensões de 1 a ½ km), no Pantanal junto á Bolívia, no Alto Madeira e em Marajó ou Santarém, não tenham produzido tantas evidências materiais além de seu solo. Então, acho a história Kuhikugu um tanto incompleta – e espero que esteja enganado.

Ao longo dos anos de 1600-1750, os colonizadores começam a se aproximar dos xinguanos. Neste período, os tupis ancestrais dos aweti e kamayurá alcançaram este espaço. As aldeias muradas dos karib e aruak teriam começado a desaparecer. Então, os bandeirantes iniciaram a caça e a captura dos indígenas.

No fim do século XIX ocorreu a expedição pioneira de Karl von den Steinen junto aos trumai, waurá, mehinako e kamayurá. Aos poucos, os alto-xinguanos foram sendo abordados e as demais etnias do norte e oeste, como suyá, ikpeng e kaiabi, foram sendo conhecidas. A partir de meados do século XX, a Marcha para o Oeste mudou para sempre o Xingu, revelando -o para toda a nação.

A aldeia é a unidade política básica no Xingu, onde o cacique exerce o comando e a mediação entre seus membros. Portanto, as lideranças são muito fragmentadas. As aldeias do Alto Xingu possuem uma disposição oval, com a casa dos homens localizada no centro. O amplo espaço torna essa organização impressionante – ela parece voltada ao mesmo tempo para a privacidade e a cerimônia. A mim parece um arranjo de uma geometria cósmica.

A típica disposição em círculo da aldeia xinguana. Esta é uma prática milenar no Alto Xingu.

O centro da praça é também o local onde os mortos são enterrados, onde o chefe recebe e emite mensagens e onde os homens encenam suas lutas rituais. A casa dos homens é vedada às mulheres e abriga as flautas sagradas, que não podem ser vistas por elas. É como se a praça fosse o símbolo do poder.

As ocas são grandes, acolhendo vários grupos de uma mesma família. Elas não são divididas internamente, exceto para compartimentos que abriguem os casais com recém-nascidos, as meninas reclusas devido à puberdade e os viúvos em período de luto. Sua estrutura é primorosa, leve e resistente. Suas duas únicas aberturas nos lados maiores as tornam entretanto quentes, odorosas e escuras, com pouca circulação de ar.

A estrutura da oca xinguana, flexível e resistente.

O exterior da oca, com uma das duas únicas aberturas.

A alimentação é baseada no peixe e na mandioca, com pouca variação e tempero. No período chuvoso são consumidos o milho, a banana e a abóbora. Algumas tribos, como os kaiabi, praticam uma agricultura mais diversa, incluindo o amendoim, a taioba e a batata doce. A caça é pouco comum, exceto nas etnias do norte. O artesanato é difundido – cerâmica, cocares, arcos e flechas, bancos, colares e cintos. A especialização de certas tribos torna usual o moitará, ou troca de produtos.

Um dos motivos centrais da religião xinguana são os mitos que explicam a origem das coisas – dos astros, dos homens, das plantas. As frequentes cerimônias atualizam os mitos, num mundo em que a floresta e a água são habitadas por espíritos. Cabe aos xamãs regular as relações entre os homens e os espíritos da natureza.

As pessoas não surgem prontas, mas são desenvolvidas pelas práticas que as permitem se transformarem – a reclusão, a puberdade, a luta, a fala, a dança. Então, a vida é num certo sentido envolta no imaginário.

Um exemplo é a visão que os xinguanos têm da terra, como uma conexão entre o passado e o presente. Ela não seria apenas um espaço num ambiente físico, mas também um conjunto de relações entre espíritos e humanos. No dizer de Antônio Guerreiro, é um território existencial animado e personalizado. A terra é uma malha de ações, de possibilidades e de realizações: ela é a própria vida.

Existem festas que comentam a vida – o pequi e o beija-flor, o peixe, a mandioca e a taquara, o porco do mato. Não se trata apenas de uma celebração colorida e vistosa, pois o canto é também uma importante narrativa mítica.

Por exemplo, o pequi nasceu onde morreu o jacaré, deu frutos e atraiu o beija-flor. O espírito levou aos humanos os ensinamentos que aprendeu na morada do peixe. As taquaras são tocadas dentro das ocas para atraírem as moças para a dança. E é preciso cantar com força e alegria para revigorar a planta da mandioca.

A maior cerimônia no Xingu é chamada de Kuarup, em homenagem aos mortos.

O kuarup envolve várias aldeias convidadas em danças e lutas. A foto é de uma aldeia kamayurá.

E existem as cerimônias rituais, em geral na estação seca. A principal delas é o kuarup, um evento que leva meses para se completar, e que reverencia os mortos representados por troncos ornamentados de madeira.

Outras duas cerimônias são importantes para a vida xinguana. O ritual do jawari é uma disputa entre atiradores de dardos de etnias diferentes. E o do yamurikumã, no qual as mulheres assumem o papel dos homens, armando-se e lutando entre si.

A pintura corporal é um bem cultural dos indígenas, ela expressa a identidade de cada etnia. Representa parte da história do povo, sentimentos do cotidiano e bens sagrados, como conta um cacique. Ela é específica para rosto, pernas ou costas, para homens e mulheres, para casados e solteiros, para diferentes eventos.

É feita à base de urucum, argila, jenipapo, açafrão e carvão. Chega a ser impressionante e até atemorizador ver um guerreiro completamente pintado para uma cerimônia.

O cacique comanda as decisões políticas e materiais.

Deixe-me abordar o sistema por assim dizer feudal do cacicado. No PIX, a média de índios por aldeia é da ordem de 80. Cabe ao cacique liderá-los. Ele funciona como um monarca desses pequenos reinos, na medida em que concentra a riqueza e o comando da tribo.

Se a terra é de uso comum, por outro lado os bens valiosos, como televisão, freezer ou camionete, apesar de seu uso coletivo, pertencem à sua família, você os encontrará na sua oca, não nas dos demais índios.

Além de concentrar a propriedade, o cacique centraliza as decisões e os contratos. É a sua família que receberá os recursos da pesca esportiva ou do turismo cultural.

Ele os redistribuirá pelos membros da aldeia, mesmo porque precisa dos demais, por exemplo para conduzir uma festividade ou uma cerimônia. Mas só se for pessoa injusta ou incapaz, é que poderá perder o poder.

Quando a FUNAI começou a estabelecer postos de apoio ou as aldeias começaram a se relocar próximo a estes, os intermediários entre as aldeias e a agência tenderam a ser pessoas mais jovens. Elas tinham o domínio do português que faltava aos caciques mais velhos.

Para que você admire o autor desta coluna, quando era cacique no Xingu, logo antes de sair para caçar.

O pajé conduz as questões espirituais e medicinais.

Da mesma forma, as associações indígenas que surgiram detêm conhecimentos – por exemplo, de organização, política ou matemática – que escapam aos caciques. Essa situação se torna ainda mais crítica no caso de índios com diplomas de cursos superiores ou que exercem o magistério. Então, existem hoje diferentes vozes indígenas, e a das aldeias é distinta daquelas da política, das associações ou da academia.

Acredito que a construção de um pajé é mais difícil do que a de um cacique. Ele não herda, ele ouve o chamado. Ele tem de ter uma vocação – e aprender com outro pajé veterano. Passa por períodos de isolamento, de jejum e de abstenção sexual, é um aprendizado que leva mais de uma dezena de anos.

Assim, os pajé tendem a ser pessoas idosas e conservadoras. Eles podem ficar constrangidos ao se mostrarem impotentes na sua ação curativa, face aos medicamentos modernos hoje disponíveis nas tribos.

Não conheci talvez mais de meia dúzia de caciques e pajés. Eles me pareceram pessoas dedicadas e competentes. E a cultura milenar de suas tribos sempre lhes conferiu o poder político e espiritual. Mas este sistema tradicional está se revelando crescentemente frágil e contraditório.

Afinal, como vivem os índios do Xingu? A ATIX – Associação Terra Indígena do Xingu é a principal organização de representação política dos indígenas do Parque. Durante quase uma década, foi sendo pensada por eles uma forma coletiva de gestão.

As principais agências envolvidas na gestão do PIX.

Diz a ATIX (resumido): Aprendemos muita coisa nos últimos 50 anos. Dominamos o português, aprendemos como os brancos lidam com o dinheiro, as suas leis e passamos a participar da política do Brasil. Ficamos mais resistentes às doenças dos brancos e nossos povos voltaram a crescer. Sabemos ler e escrever em português e nas nossas línguas, pilotar voadeiras, dirigir carros e tratores, navegar na internet. Hoje temos nossos jovens formados na faculdade, fundamos associações e executamos nossos próprios projetos. Mantemos nossas histórias, festas, artesanatos, roças, nossa arte, nossa música. Nunca vamos deixar de valorizar nossa cultura. Mas a gestão do território está cada vez mais difícil.

O homem branco continua destruindo a floresta, abrindo estradas, barrando os rios e nos desrespeitando. Continuam com o mesmo pensamento antigo de que os índios atrapalham o desenvolvimento. Estamos morando numa ilha de mata preservada que é o nosso território. As nascentes dos nossos rios estão desprotegidas, ameaçadas pelas fazendas de soja, gado e pelo desmatamento. E a nossa população cresce em ritmo acelerado. Sabemos que precisamos pensar novas formas de cuidar das nossas famílias e do nosso território, para garantir nosso futuro.

Modelo de participação política dos povos do PIX, sob coordenação da ATIX.

Os índios do Xingu estão se modernizando, embora procurem preservar a sua cultura – as narrativas e as línguas, as festas, os cultivos e a culinária, a educação e a saúde tradicionais. Têm desenvolvido alternativas econômicas no turismo cultural, no artesanato, na pesca esportiva, nas produções do mel, da pimenta e do pequi, na arte indígena, na rede de sementes florestais.

As aldeias contam com investimentos em transporte, energia e comunicação. Possuem barcos e camionetes, geradores e placas solares, radio e internet. Com estes recursos, têm sido capazes de atrair um grande público para as suas festas e cerimônias de inverno.

Entretanto, convivem com o fogo e o lixo, a pesca e a extração de madeira predatórias, a perda das nascentes dos rios, a fragmentação política, o alcoolismo, a prostituição e a evasão dos jovens.

Para mim, a questão indígena é motivo de perplexidade. Penso que eles são fortemente atraídos pelos bens e valores dos brancos. Que não possuem unidade política, sentindo-se explorados pelas agências que dizem representá-los. Que muito da sua cultura está morrendo junto com a memória dos anciões, já que não dispõem de escrita. Que não têm força para reter os jovens ambiciosos nas suas aldeias.

Mas que ao mesmo tempo têm um imenso respeito e vínculo com sua cultura tão especial e variada. São povos que existem na angústia de uma vida dividida, que já foi chamado de um mundo em trânsito.

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Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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