A tradição milenar do montanhismo japonês: Do Shugendō ao alpinismo Moderno

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Minha recente visita ao Omachi Alpine Museum, aos pés dos imponentes Alpes do Norte no Japão, proporcionou uma profunda transformação na minha percepção sobre a história do montanhismo mundial. Como montanhista e estudioso da geografia, sempre mantive a convicção de que os Incas haviam sido os grandes precursores da cultura de ascensão a altas montanhas, dado o impressionante histórico de rituais e estruturas encontradas nos cumes andinos bem acima dos seis mil metros de altitude. 

No entanto, o acervo de Omachi revelou uma perspectiva distinta e fascinante. O Japão desenvolveu uma cultura sistemática e contínua de escalada a picos elevados muito antes do ápice da civilização Inca, orientada por valores espirituais e cosmológicos próprios que precederam em séculos o nascimento do alpinismo esportivo ocidental e que se mantiveram vivos de forma ininterrupta até os dias de hoje.

Montanhistas japoneses no começo do século XX.

A mística do montanhismo ancestral japonês

Representação das vestimentas usadas pelos Yamabushis. Foto Pedro Hauck – Omachi Alpine Museum

Muito antes de o conceito de esporte ou recreação moldar a relação da humanidade com as altitudes, o Japão já concebia suas montanhas como espaços sagrados e portais de conexão com o divino. Essa visão deu origem ao Sangaku Shinkō, a veneração ancestral das montanhas, e posteriormente ao Shugendō, uma tradição ascética que combinava elementos do Shintoísmo, do Budismo e do animismo. Para os praticantes desta doutrina, conhecidos como Yamabushi, a montanha não era um ambiente a ser temido ou evitado, mas sim um santuário natural onde o sofrimento físico e a superação do relevo levavam à purificação espiritual. 

O cume representava o ponto de máxima pureza, o local exato onde o plano humano tocava a morada das divindades. Por essa razão, atingir o ponto mais alto de uma montanha não era apenas uma opção, mas uma exigência ritualística fundamental.

Essa busca espiritual levou os ascetas japoneses a realizarem feitos notáveis em altitudes elevadas ainda no primeiro milênio da era cristã. O Monte Fuji, com seus 3.776 metros de altitude, teve seu primeiro cume documentado no ano de 663 d.C., atribuído ao monge En no Gyōja, marcando o início de uma longa tradição de ascensões que mais tarde se tornaria uma prática popular de massa. 

Replica de calçados usadaos pelos Yamabushis nas montanhas. Omachi Alpine Museum. Foto Pedro Hauck

Da mesma forma, o Monte Tate, ou Tateyama, de 3.015 metros, teve sua primeira conquista registrada em 701 d.C., enquanto o Monte Haku, com 2.702 metros, foi escalado em 717 d.C. pelo monge Taicho, consolidando a chamada Tríade Sagrada do Japão. Longe de se limitarem a montanhas de acesso simples, esses praticantes penetravam em terrenos extremamente complexos e técnicos. 

O impressionante Yarigatake, de 3.180 metros, com sua agulha granítica afiada, foi escalado em 1828 pelo monge Banryū, que instalou correntes de ferro na rocha para permitir a passagem de futuros peregrinos. Décadas mais tarde, no início do século XX, quando mapeadores do exército tentaram a primeira ascensão oficial do Tsurugidake, uma das montanhas mais perigosas e escarpadas do país, encontraram no cume o topo de uma bengala de ritual e uma lâmina de espada datadas do período Heian, provando que ascetas haviam vencido aquela parede rochosa mil anos antes sem o auxílio de equipamentos modernos.

A abertura Meiji e a assimilação do alpinismo ocidental

A transição entre essa prática ancestral e o montanhismo moderno ocorreu durante a segunda metade do século XIX, quando o Japão encerrou séculos de isolamento internacional durante a Restauração Meiji. Ao abrir suas fronteiras para o mundo, o país passou por um rápido processo de modernização e absorção de conhecimentos ocidentais. 

Mochilas do século XIX ao lado de mochilas mais antigas usadas pelos Yamabushis. Omachi Alpine Museum – Foto Pedro Hauck.

Foi nesse contexto que engenheiros e geólogos estrangeiros, como o britânico William Gowland, responsável por cunhar o termo Alpes Japoneses, e o reverendo inglês Walter Weston exploraram as serras do arquipélago. Weston introduziu a visão do alpinismo como um desafio esportivo, técnico e contemplativo. O público japonês, contudo, não encarou o conceito ocidental como algo alheio, mas sim como uma evolução natural da sua profunda e já estabelecida intimidade com as montanhas.

A assimilação dessa nova ética foi extraordinariamente rápida e eficiente. Em 1905, foi fundado o Nihon Sangaku Kai, o Clube Alpino Japonês, e em poucas décadas os montanhistas do país passaram da exploração de seu próprio território para o cenário internacional. O Japão destacou-se mundialmente pela organização de grandes expedições científicas e de exploração. O ápice dessa fase ocorreu em 18 de maio de 1956, quando uma expedição japonesa liderada por Yuko Maki alcançou o cume do Manaslu, no Himalaia nepalês, tornando o Japão a primeira nação a conquistar uma montanha de mais de oito mil metros sem o apoio de potências ocidentais. Anos mais tarde, o pioneirismo japonês se consolidou no cenário global com Junko Tabei, que em 1975 tornou-se a primeira mulher no mundo a atingir o cume do Monte Everest, simbolizando a força e a tradição do montanhismo de seu país na história da exploração humana.

Junko Tabei no cume do Everest. Primeira mulher a escalar o teto do mundo era japonesa.

 

Duas trajetórias de altitude: Japão e o mundo Inca

Ao comparar o montanhismo ancestral japonês com aquele desenvolvido pela civilização Inca nos Andes, emergem diferenças fundamentais que ajudam a compreender a evolução dessa prática ao longo do tempo. Os Incas foram responsáveis por feitos de altitude espetaculares, construindo estruturas e realizando rituais em picos que ultrapassavam os seis mil metros, como o Llullaillaco

No entanto, a relação Inca com as montanhas estava intrinsecamente ligada à estrutura de um império teocrático e a rituais específicos de estado. Com a conquista espanhola no século XVI e o trágico colapso da civilização Inca, essa tradição de ascensão aos cumes foi abruptamente interrompida, resultando na perda de rotas, conhecimentos logísticos e do próprio significado cultural de estar nos pontos mais altos das cadeias andinas.

Em contraste, o Japão apresenta uma trajetória de continuidade histórica ímpar. A civilização japonesa permaneceu intacta em seu território, permitindo que a cultura de montanha evoluísse de forma ininterrupta ao longo de mais de treze séculos. As antigas trilhas de peregrinação dos monges transformaram-se nas rotas de caminhada atuais, os abrigos primitivos deram lugar a uma vasta rede de infraestrutura e a reverência espiritual pelos cumes fundiu-se perfeitamente com a ética e a técnica do alpinismo contemporâneo. 

No Japão, o montanhismo não precisou ser renascido ou reinventado a partir do zero; ele apenas mudou de linguagem, mantendo viva a mesma essência de busca e superação que impulsionava os primeiros ascetas a conquistarem as maiores altitudes do país.

 

 

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Sobre o autor

Natural de Itatiba-SP e residente em Curitiba-PR desde 2007, Pedro Hauck é uma figura proeminente no montanhismo brasileiro. Sua formação inclui graduação em Geografia pela Unesp Rio Claro e mestrado em Geografia Física pela UFPR. Com uma carreira de mais de 27 anos, ele é guia de montanha profissional e instrutor de escalada credenciado pela ABGM, a única associação de guias de escalada profissional do Brasil. Seu currículo inclui a ascensão de mais de 180 montanhas acima de 4 mil metros, com mais da metade ultrapassando os 6 mil metros, além de um pico de 8 mil metros no Himalaia e dois de 7 mil. Pedro Hauck também atua como empresário do setor outdoor, sendo sócio da Loja AltaMontanha, uma das mais conceituadas lojas de montanhismo do país, da Via AltaMontanha, um dos maiores ginásios de escalada de Curitiba, e da Soul Outdoor, agência especializada em ascensão, trekking e cursos de montanhismo. Acompanhe Pedro Hauck no Instagram: @pehauck.

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