Em continuação ao capítulo anterior, vou me afastar do Pacífico e navegar a leste por bons 10 mil km até o Índico, para encontrar as Ilhas Maldivas, as Seicheles e, depois, as Mascarenhas. As Maldivas nada têm a ver com as Malvinas atlânticas, pelas quais duelaram ingleses e argentinos. Mas têm a ver, sim, com a mesma situação crítica de afogamento das ilhas da Oceania.
O oceano que as banha é o Índico, o terceiro em tamanho e o mais recente deles. Tem uma geologia ativa, devido à ação das placas tectônicas. O Círculo de Fogo dos vulcões fica no seu bordo E – o lado oposto é limitado pela África.
A rigor, o Índico é um enorme triângulo da Austrália a S até a Índia e Arábia a N. Apesar dos fortes ventos úmidos das monções, é o mais calmo dos mares, mas também o mais quente e pobre deles.
I
A origem das Maldivas é, como sempre, recente, algo antes de 100 milhões de anos atrás. Claro que apareceu mais uma placa tectônica, no caso a do Índico, e sua colisão gerou uma fenda. A lava expelida formou uma longa cordilheira de picos vulcânicos. Eles foram erodidos, rebaixados e rodeados por corais para formar os atóis das Maldivas.

São formadas por um cordão de ilhas, com a capital Malé no centro. Seus 150 mil moradores compõem um terço da população total.
São dois inacreditáveis anéis compostos por 1.200 ilhas, numa disposição alongada norte-sul medindo mais de 800 km. Novamente, a área de terra é uma mínima fração da superfície total do país: 300 km² de bancos de areia sobre corais vivos, que crescem ou encolhem, para praticamente 100 mil km² de oceano.
Mas as Maldivas são relativamente compactas, se comparadas aos arquipélagos mais dispersos da Oceania. São a menor nação da Ásia e uma das menos populosas. São também o mais baixo país do mundo, com uma impossível altitude média de 1 ½ metros.
As Maldivas são uma república islâmica, depois de terem sido uma colônia portuguesa, uma possessão belga, um sultanato islâmico e um protetorado britânico. Uma democracia tosca, com apenas dois presidente em quatro décadas, falta de liberdade religiosa e perseguição às mulheres.
Sua população é muito misturada: navegar de uma ilha para outra é um modo de vida para os maldivos, e tem sido assim por muitos séculos, diz uma historiadora. São descendentes de povos da Índia e Sri Lanka, além de emigrantes de Bangladesh e do Nepal.
Mas o visual espetacular atraiu o turismo e existe mais de uma centena e meia de hotéis nas Maldivas – vs. um cada nos miseráveis Kiribati e Tuvalu que você conheceu antes. É um país relativamente próspero, sua renda per capita sendo algumas vezes as de outros países da Oceania. Mas as possibilidades de emprego e de ascensão social são como sempre limitadas.

Existe mais de uma centena de resorts paradisíacos.
Fora a localização, existe um fator que diferencia as Maldivas da Oceania: o clima. A presença das monções o torna menos homogêneo, com uma estação seca em outubro e outra úmida em abril.
Porém o Índico contribui para amenizar o calor, pois ele o armazena e libera lentamente, contribuindo com um brisa fresca que contrasta com o calor escaldante da Oceania. Mas convém não esquecer o tsunami de 2004 que devastou todo o arquipélago.
II
A capital Malé é uma das cidades mais densamente povoadas do mundo – e também uma das mais arriscadas, a menos de um metro acima do mar. Seu Presidente comentou assim, acerca do aquecimento global que eleva os mares: A diferença entre 1 ½ e 2 graus é uma sentença de morte para as Maldivas.
As ruas de Malé são uma confusão entre os prédios cada vez mais altos, as bicicletas, motos e carros barulhentos e o comércio de rua, os turistas e os moradores aglomerados.
Andaimes, geradores, contêineres e quiosques atulham o espaço público, enquanto o lixo é carregado em barcaças e despejado numa ilha próxima; blocos de concreto, com pedras gigantes, são empilhados ao longo do quebra-mar para manter o mar afastado. Malé, como o coral sobre o qual foi erguida, está em constante construção, como conta Tristan McConnell.

Na Cidade da Esperança há áreas verdes, espaços públicos, moradias, comércios e escritórios planejados. E ar fresco ao longo das avenidas dispostas no sentido norte-sul.
As Maldivas consideraram várias alternativas para sua sobrevivência, como compra de terras próximas, emigração para a Austrália e pontões flutuantes ancorados. Mas acabaram investindo de forma espetacular na construção de uma ilha artificial.
A areia foi bombeada do fundo do mar para formar a Ilha de Hulhumalé, a 8 km da capital e hoje ligada a ela por uma ponte de traçado arrojado. São até agora 4 km² herculeamente elevados 2 metros acima do mar.
Durante vinte anos foram relocadas 50 mil pessoas, com planos de chegar a quase cinco vezes mais. É impensável que um maldivo que sempre viveu a um ou dois metros do mar agora possa contemplá-lo do alto de 24 andares.

Maldivos querem manter a sua terra e a sua cultura.
Apesar da turbulência do ambiente e da ameaça de apagamento, existe uma relativa resignação, nas palavras de uma cientista local: Você deve entender nossa relação com o oceano. Nós coexistimos com o oceano e suas criaturas, seus perigos e suas ansiedades. A ideia de que uma ilha durará para sempre é contra a natureza.
III
Vou lhe falar brevemente de outro arquipélago índico, semelhante ao das Maldivas. São as paradisíacas Ilhas Seicheles, as duas capitais distando 2 mil km.
As Seicheles estão a sudoeste, mais próximas da enorme ilha de Madagascar. Não são uma república asiática e sim africana, colonizada por ingleses e franceses, e descoberta durante aquela viagem histórica de Vasco da Gama.
Sua população de 100 mil pessoas é um terço da das Maldivas, mas sua renda/capita é quase metade maior, devido às atividades do turismo e da pesca. Apesar de pobre e desigual, Seicheles é a mais rica dentre todas as nações africanas. Entretanto, os problemas sociais da Oceania permanecem aqui os mesmos.
E Seicheles é muito menor: apenas 115 ilhas, ao longo de talvez 1.200 km. Destas, cerca de quatro dezenas delas são graníticas (incluindo Mahé, que abriga a capital) – isso significa que se erguem suficientemente acima d´água para não serem afogadas.
São elas que concentram os meros 450 km² do território em terra (algo como um município do Sudeste brasileiro), bem como a diversidade da fauna e da flora.

A pequena capital Victória, na maior ilha do arquipélago.
Mas este não é o destino da centena de formações coralíneas que se espalham pelo oceano, principalmente nos arquipélagos de Aldabra e Almirante. Você já sabe, as ilhas baixas e expostas estão sendo erodidas, o subsolo sendo salinizado, a água potável se tornando escassa, os corais embranquecendo e a vida marinha aos poucos desaparecendo.
O país está tentando se proteger pela construção de muros de contenção, pela criação de viveiros marinhos e pela conversão de sua dívida externa em investimento no ambiente. As Seicheles são mais um exemplo dessas pequenas nações insulares que gritam em desespero diante do aumento da temperatura global que ameaça a existência de seus territórios.
IV
Mas as Ilhas Mascarenhas são uma história bem diferente. Situadas 1.800 km ao sul das Seicheles, estão relativamente próximas de Madagascar. O arquipélago é composto por meia dúzia de ilhas maiores, das quais Maurício concentra grande parte da área de 4 mil km² e da população de 1.350 mil pessoas. Note que a superfície e a população são o triplo das Maldivas e Seicheles somadas.
O relevo marinho apresenta cadeias mais longas e estáveis do que o terrestre. É surpreendente constatar que o platô submarino que contém as Mascarenhas se estende ao norte até as Seicheles – assim, esses duas formações têm uma origem geológica comum.
Era um arquipélago desabitado quando os portugueses o descobriram. Foi por quase um século cada colônia holandesa e depois francesa, até que passou ao domínio da Inglaterra por mais de 1 ½ século, até sua independência recente.
É uma república parlamentar, considerada uma democracia plena, com o melhor índice de desenvolvimento (o IDH) de toda África – embora com renda/capita inferior a Seicheles e Maldivas.

A Ilha Maurício, com o Pico Le Morne ao fundo a a cachoeira (fossa) submersa à frente.
A origem do arquipélago é vulcânica e muito recente, datando de apenas 5 a 10 milhões de anos. Possui um planalto central relativamente elevado – seu ponto culminante está a surpreendentes 800 metros. Situado sobre uma fratura tectônica, apresenta uma fossa marítima gigantesca que simula uma incrível cachoeira submersa. Embora com temperaturas moderadas, é afetado pela presença de ciclones, tanto as inundações como as secas sendo frequentes.
V
Mas isso não torna Mascarenhas em princípio tão diferente. Quero comentar dois aspectos que a fazem assim.
Não existiam mamíferos nas ilhas, de forma que suas aves não precisavam voar. Coberta por florestas, havia frutos e raízes abundantes. A chegada dos europeus danificou o ecossistema e acabou causando grande extinção, em especial dos dodôs – grandes pombos cinzentos cuja aparência peculiar criou a imagem de um animal exótico e indefeso.
Mas, além dele, dezenas de espécies, como os papagaios, as tartarugas, os íbis, os morcegos e as galinholas. O formidável endemismo da flora e da fauna foi destruído: hoje as florestas recobrem apenas 2% do território e muitas daquelas espécies do passado acabaram extintas.

O pombo dodô.

E o papagaio cinzento, espécies extintas de Maurício (Fonte – wikimedia commons).
Por não terem população nativa, as ilhas foram povoadas por trabalhadores indianos, africanos, europeus e depois chineses. É por isso que se diz serem multilíngues (fala-se inglês, francês e crioulo), multiétnicos, multirreligiosos (principalmente hinduísmo e cristianismo) e multiculturais.
Isso tornou Maurício um lugar especial, com arquitetura, economia, cultura e culinária próprias. As principais influências são a indiana e até hoje a francesa. Curiosamente, o país é um centro financeiro e até certo ponto têxtil.
Você pode achar que Maurício está protegida do oceano pela altitude maior do território. Porém, a ilha tem uma ocupação basicamente litorânea, com pouco espaço para relocação da população que não seja nas encostas íngremes.
As inundações e as marés altas têm erodido a costa – que se pretende proteger através de paredes rochosas, plantação de mangues, controle da erosão e restauração das dunas e da vegetação. Além disso, Maurício é afetada pela poluição dos plásticos e pelo branqueamento dos corais.
Assim, mesmo as regiões rochosas e elevadas das ilhas do Índico permanecem perigosamente expostas aos mares elevados. Não há como fugir deles.
VI
Mas existem locais baixos que, mesmo historicamente assolados pelo oceano, conseguiram sobreviver por séculos. O exemplo que vem logo à mente é a pequena Holanda, onde mais da metade do país está abaixo do mar. E cidades como Veneza, Singapura e Nova Orleans, baixas e alagadas. Ou os deltas do Nilo no Egito, do Mekong no Vietnã e do Ganges em Bangladesh.

A Holanda é um país recuperado dos pântanos. Só o interior está acima do nível do mar.
A Holanda dispõe de 80 mil km de diques, os mais recentes dos quais gigantescos. O Japão construiu muralhas de concreto ao longo de 400 km, e as de Nova Orleans se estendem por 550 km. Os investimentos são absurdos, US$ 6 a 14 bilhões. O PIB dos mais ricos países da Oceania ou do Índico são de poucos bilhões.
Como qualquer um deles poderia pagar por essa proteção? E, mesmo que pudesse parcialmente, nenhum deles dispõe da pesquisa e da tecnologia necessárias. E veja que todos são ilhas, com uma grande relação de extensão costeira/área do país.
Na Holanda, essa relação é de 13 vezes por mil, em comparação com menos de 1 vez para o Brasil, pois nossa costa só existe de um lado e o país é imenso. Mas a média das nações insulares aqui incluídas é de inacreditáveis 1.150, quer dizer, 90 vezes a holandesa! Na realidade, a defesa eficaz desses países é infelizmente impossível.
Veja como as águas podem subir em todos os mares ao mesmo tempo, até cobrirem a terra: As águas se elevarão todas ao mesmo tempo, sem alarde. Brotarão de todos os bueiros e dos ralos de todas as casas, inundando-as paulatinamente. As marés subirão e se alastrarão pelas costas, submergindo-as. Os oceanos se juntarão todos numa grande massa líquida. Ondas de trinta metros de altura se formarão. As cidades litorâneas serão as primeiras a desaparecer.
Águas continuarão subindo, dia após dia, semana após semana, mês após mês, até que cubram e calem os vulcões despertos pelo último grito humano. Em um ano, não haverá mais nada, apenas água … E estarei enfim gestando um planeta cadáver. Este é o Monólogo da Água, da escritora Veronica Stigger.
VII
Os relatos sobre esses países ameaçados descrevem a possível emigração de toda a sua população – pois seu solo não mais existiria. Um país poderia deixar de existir de forma física e, ainda assim, permanecer como uma entidade política? Um país pode acordar um dia e se mudar para outro local? pergunta o escritor Joshua Keating.
Este seria o conceito de uma nacionalidade ex-situ (por oposição a in-situ ou no local) – quer dizer um governo, uma população, uma história e uma cultura sem um território. Seria isso possível? Existiriam precedentes na história?
A história da Ordem de Malta é surpreendente – não confundir com a pequena república de Malta, uma ilha no Mediterrâneo antiga colônia britânica hoje independente. A Ordem era uma organização militar católica, fundada mil anos atrás, que não controlava nenhum território físico.
Entretanto, existia em várias localidades, como Jerusalém, Malta mesmo e Roma. Ela continua ainda hoje sendo uma forma de Estado e tendo relações diplomáticas com embaixadas em uma centena de países. Sua sede são meros 6 km² em Roma, com uma população permanente de três pessoas – seus demais habitantes são todos malteses.

Henrique de Borgonha (junto com Teresa de Leão) tornou-se no século XI o Conde de Portucale. Seu filho Afonso Henriques foi o primeiro rei português.
O reino medieval da Borgonha, originalmente localizado no centro da França, acabou se desintegrando em territórios dispersos entre a Alemanha, a Suíça, a França e a Holanda.
Diz o historiador Norman Davies: O típico conde borgonhês não era mais o governante de um simples feudo dependente de um soberano. Normalmente ele comandava um complexo conjunto de terras, títulos e direitos, construídos ao longo de gerações pelos esforços combinados dos nobres, dos casamentos e dos advogados de sua família. Ainda assim, a Borgonha existiu longamente como uma entidade política.
VIII
Se um país migrar ou se dispersar, é preciso que mantenha algum reconhecimento internacional. Mesmo relocado, poderia ainda deter ativos valiosos – marítimos, pesqueiros, minerários, ou mesmo a sua bandeira e o seu hino.
Para tal, especialistas em direito recomendam que, no caso de um arquipélago submerso, seja mantida uma estrutura (ainda que mínima) a ele associada, junto com alguns habitantes. Aqueles cidadãos teimosos de Kirbati ou Tuvalu que você conheceu um pouco antes.

O farol que celebra e perpetua toda uma nação.
Isto bem parece o prédio ocupado pela Ordem de Malta em Roma. Ou talvez um daqueles faróis acima dos rochedos assolados pela raiva do oceano, onde morariam os últimos residentes da nacionalidade emigrada. Nativos heroicos que reviveriam do alto dos faróis os mares de sua infância.
IX
Mas essa proposta me lembra de uma situação inversa. Houve na Amazônia um índio tanaru remanescente do seu povo isolado, que percorria sozinho a terra onde vivera. Para protegê-lo da ameaça dos grileiros, fizeram de sua terra uma reserva.

O índio tanaru que viveu isolado e foi enterrado na reserva.
Um dia o índio morreu e começou a disputa por seu corpo. Alguns o queriam no cemitério da cidade, para anular a proteção da reserva e poder invadi-la. Outros desejavam enterrá-lo na sua terra, para legitimá-la. Enfim, a Justiça decidiu que retornasse à terra.
(Quero fazer agora um comentário. Foi o poeta Rupert Brooke quem escreveu durante a I Grande Guerra sobre os soldados ingleses sepultados: Que há algures no estrangeiro algum canto de campo que será para sempre Inglaterra. Para ele, a presença do corpo seria capaz de restaurar a da pátria à qual ele quando vivo pertenceu.)
Então, veja que existe aqui um paralelo. Enquanto o túmulo tanaru permanecer abaixo da terra no local, aquela será para sempre uma terra indígena. Enquanto o farol resistir habitado acima da água, aquele será para sempre um território insular.








