Provavelmente você já viu essa pintura em algum lugar: numa capa de caderno, num pôster, num emoji. Uma onda azul e gigantesca, prestes a engolir três barcos, com uma montanha branca e minúscula ao fundo. Mas você conhece o artista por trás dela?

A Grande Onda de Kanagawa (Sob a Onda ao Largo de Kanagawa), da série 36 Vistas do Monte Fuji. Katsushika Hokusai, ca. 1831. Imagem: The Metropolitan Museum of Art, domínio público.
Katsushika Hokusai nasceu em Edo, a atual Tóquio, em 1760, e morreu em 1849, aos 88 anos, numa vida inteira dedicada a desenhar. Ele foi um dos artistas mais prolíficos da história: pintou, gravou, ilustrou livros, e ao longo de sete décadas assinou seu trabalho com mais de trinta nomes diferentes, cada mudança marcando uma nova fase de sua obra. É um dos artistas que mais admiro, por ser um grande observador sensível da sociedade contemporânea a ele, um sintetizador de técnicas de pintura do Leste Asiático e da Europa, e um professor que compartilhou sua alegria como artista em dezenas de manuais de desenho e pintura, os famosos Hokusai Manga.
A pintura que você provavelmente já viu é “A Grande Onda de Kanagawa”, a mais famosa de uma série chamada 36 Vistas do Monte Fuji, publicada por volta de 1831. E é justamente na composição dessa obra que mora algo que qualquer montanhista reconhece de imediato: o Fuji está lá, ao fundo, pequeno, quase apagado diante da onda monstruosa em primeiro plano. Hokusai não escondeu a montanha por acidente: ele construiu a cena inteira em função dessa relação de escala. A onda é caos, movimento, ameaça. O Fuji é permanência, silêncio, eternidade. E nós, minúsculos, estamos ali, nos barcos, entre as duas coisas.
Quem já esteve num cume sabe exatamente do que estou falando. Existe um instante em que a paisagem deixa de caber em você e você é que passa a caber nela, pequeno, temporário, diante de algo que estava ali muito antes e vai continuar ali muito depois. É a mesma sensação que Hokusai captou com tinta e madeira: a montanha nos coloca em perspectiva.

Grupos de Alpinistas (Shojin Tozan), da série 36 Vistas do Monte Fuji. Katsushika Hokusai, ca. 1830–32. Imagem: Wikimedia Commons , domínio público.
Trinta e seis vistas, nenhuma subida contada
Um detalhe que eu adoraria ter encontrado, e que quase escrevi aqui como verdade, é que Hokusai teria subido o Fuji 36 vezes, uma vez para cada gravura da série. É uma bela lenda. Só que não é verdade: as “36 Vistas” são 36 pontos de observação diferentes, não 36 ascensões. Hokusai começou a série aos setenta anos, movido por uma obsessão pessoal pela montanha mais do que por qualquer proeza física de escalada.
Mas há algo na série que conecta os dois mundos de forma ainda mais direta do que a lenda das 36 subidas. Uma das gravuras chama-se “Peregrinos Subindo ao Cume”, e mostra, sem meio-termo, gente pequena escalando as encostas rochosas do Fuji. Ela existe porque, na época de Hokusai, subir o Fuji tinha virado um fenômeno de massa no Japão: havia peregrinações religiosas ligadas ao Shugendō, uma tradição ascética de culto às montanhas, e existia até um sistema de loteria comunitária, o Kō, que juntava recursos para que pessoas comuns, sem dinheiro para a viagem, pudessem subir a montanha sagrada pelo menos uma vez na vida. Hokusai não inventou essa cultura de montanhismo; ele a testemunhou e a registrou, entre dezenas de outras cenas do cotidiano de Edo.
Acho isso mais bonito do que a lenda. Hokusai não precisou subir 36 vezes para entender o Fuji: ele entendeu que a montanha muda de sentido dependendo de quem olha, de onde olha, e do que carrega consigo enquanto olha. Vista de uma plantação de chá, ela é pano de fundo do trabalho. Vista de dentro de uma onda, ela é o único ponto fixo num mundo que balança. Vista por um peregrino subindo, ela deixa de ser paisagem e vira caminho.
O que sobra no topo
Acredito que essa seja a ligação mais honesta entre arte e montanhismo: as duas coisas são, no fundo, exercícios de observação prolongada. Hokusai dizia, já perto dos setenta e três anos, que só então começava a compreender de verdade a estrutura das coisas: dos animais, das plantas, das árvores. Achava que precisaria viver até os cem, cento e dez anos, para que cada ponto e cada linha que desenhasse tivesse vida própria. Era um homem disposto a olhar para a mesma montanha por décadas sem cansar, porque sabia que ela nunca se repetia, quem mudava era ele.
É a mesma coisa que sinto quando chego a um cume ao amanhecer. A montanha continua a mesma que estava lá ontem e vai estar amanhã. O que muda é quem sou eu quando o sol nasce e ilumina o que ficou pra trás: o cansaço, a trilha, as pernas que já não sentem mais o frio da largada. Nesse instante, contemplar o nascer do sol no topo de uma montanha não é tão diferente de Hokusai sentado diante do Fuji, gravura após gravura, tentando entender uma coisa que não se deixa entender de uma vez só. Os dois são atos de atenção. E é isso, no fim, que a arte e o montanhismo têm em comum: nenhum dos dois se esgota, porque quem olha nunca é exatamente o mesmo de antes.
Sobre as imagens
Se você também gosta de arte, fica uma dica que descobri durante a pesquisa deste artigo: no Brasil, uma obra entra em domínio público 70 anos após a morte do autor, contados a partir de 1º de janeiro do ano seguinte ao seu falecimento, conforme estabelece a Lei de Direitos Autorais (Lei nº 9.610/98, art. 41). Isso significa que, após esse prazo, a obra pode ser reproduzida, compartilhada e adaptada livremente. (Planalto)
É por isso que as gravuras de Hokusai, falecido em 1849, podem ser utilizadas sem necessidade de autorização. Durante a pesquisa, encontrei versões em alta resolução no acervo do The Metropolitan Museum of Art, que disponibiliza milhares de obras em domínio público por meio de sua política de Open Access. Muitas delas também podem ser encontradas no Wikimedia Commons.
Aliás, essa dica vale para qualquer apaixonado por arte. Antes de recorrer a imagens espalhadas pela internet, vale a pena explorar os acervos digitais de museus como o Metropolitan Museum of Art, o Rijksmuseum e a Library of Congress. Além de encontrar arquivos com qualidade muito superior, você acessa reproduções disponibilizadas pelas próprias instituições, preservando a fidelidade das obras e respeitando os direitos autorais.








