Até meados dos anos 1990 e início dos anos 2000, a maior parte dos equipamentos de montanhismo e escalada era desenvolvida considerando o corpo masculino como padrão. Na prática, isso significava que mulheres que praticavam esses esportes precisavam utilizar equipamentos projetados para homens, muitas vezes apenas em numerações menores ou tamanhos reduzidos.
Com o aumento da participação feminina nas atividades de montanha a partir da década de 1990, esse cenário começou a mudar. O crescimento do número de praticantes chamou a atenção da indústria outdoor, que passou a investir no desenvolvimento de tecnologias e modelagens voltadas especificamente para mulheres.
Mais do que lançar produtos em cores consideradas “femininas”, o avanço representou uma mudança importante: equipamentos projetados para se adaptar melhor à anatomia feminina passaram a oferecer mais conforto, segurança e desempenho, contribuindo também para ampliar a equidade de gênero em esportes tradicionalmente dominados por homens.
Confira alguns exemplos de equipamentos que surgiram nesse contexto e ajudaram a tornar o montanhismo e a escalada mais acessíveis para mulheres.
Polarite Women – Salewa
Entre as décadas de 1990 e 2000, embora já existissem roupas tecnológicas para atividades de montanha, a maioria ainda era produzida em formato unissex, seguindo o padrão da indústria outdoor da época.
Foi nesse período que começaram a surgir coleções com modelagem feminina específica, levando em conta diferenças anatômicas importantes como proporção entre quadril e cintura, largura dos ombros e comprimento de mangas e pernas. A Salewa acompanhou essa mudança ao lançar versões femininas de suas roupas térmicas em fleece na linha Polarite.
As peças mantinham o mesmo material técnico utilizado nas versões masculinas, mas apresentavam adaptações importantes, como cintura mais ajustada, maior espaço na região do quadril e proporções diferentes entre busto, cintura e ombros.
O comprimento frontal e traseiro também foi adaptado para oferecer melhor cobertura lombar e permitir um ajuste mais anatômico durante movimentos típicos de atividades de montanha. Mais do que uma questão estética, essas mudanças evitavam um problema comum das roupas unissex da época: excesso de tecido no tronco ou aperto na região do quadril.
Com uma modelagem mais adequada ao corpo feminino, as peças ajudavam a reduzir o volume de tecido sob mochilas e equipamentos, melhorando o conforto e a mobilidade em trilhas e escaladas.

Modelos atuais mais ajustados ao corpo permitem maior flexibilidade quando utilizados com mochila ou outros equipamentos. Foto: Salewa.
Mythos Lady – La Sportiva
A primeira sapatilha de escalada como conhecemos hoje surgiu em 1978. Durante décadas, porém, praticamente todos os modelos disponíveis no mercado foram projetados considerando a anatomia do pé masculino.
Foi somente nos anos 2000 que começaram a surgir versões realmente desenvolvidas para mulheres. Em 2003, a marca italiana La Sportiva lançou a La Sportiva Mythos Lady, versão feminina da clássica La Sportiva Mythos.
O modelo foi criado para atender a uma demanda crescente de escaladoras por sapatilhas com ajuste mais adequado à anatomia do pé feminino.
Entre as principais diferenças estavam a forma mais estreita, o volume interno reduzido e uma sola de borracha ligeiramente mais macia, projetada para oferecer melhor fricção e adaptação ao peso corporal geralmente menor das escaladoras.
Essas mudanças levam em conta diferenças anatômicas entre pés masculinos e femininos. Estudos de design de calçados mostram que, em média, pés femininos apresentam calcanhar mais estreito, menor volume interno e proporção diferente entre antepé e calcanhar.
Nos modelos unissex utilizados até então, era comum que a sapatilha ficasse folgada no calcanhar, algo que pode comprometer a precisão e a segurança durante a escalada.
Transalp Lady – Ferrino
Outro equipamento que passou por adaptações importantes foi a mochila de trekking. Até o início dos anos 2000, a maioria das mochilas técnicas era projetada considerando proporções corporais masculinas, o que muitas vezes gerava desconforto e até risco de lesões para mulheres durante longas caminhadas ou expedições.
Nesse contexto, a marca italiana Ferrino começou a desenvolver mochilas específicas para mulheres, incluindo modelos como a Ferrino Transalp Lady.
Essas mochilas passaram a incorporar ajustes importantes, como costas mais curtas, alças de ombro mais estreitas e contornadas — evitando pressão na região do busto — e cintos abdominais adaptados à morfologia feminina.
Além disso, o volume interno e a distribuição de carga foram redesenhados para oferecer maior estabilidade e conforto durante caminhadas de longa duração.
Atualmente, essas características estão presentes em diversos modelos da marca, como as mochilas Ferrino Finisterre Lady, Ferrino Durance Lady e Ferrino Agile Lady, projetadas especificamente para se ajustar à anatomia feminina.
Equipamento também é inclusão
O desenvolvimento de equipamentos específicos para mulheres representa um passo importante na busca por maior equidade de gênero nos esportes de montanha.
Quando roupas, calçados e mochilas são projetados considerando diferentes anatomias, o resultado não é apenas maior conforto, mas também mais segurança, melhor desempenho e maior permanência das mulheres em atividades como escalada, trekking e montanhismo.
Mais do que uma mudança estética, a evolução desses equipamentos mostra como tecnologia e design podem contribuir para tornar os esportes de natureza mais inclusivos e acessíveis para todos.


















