No dia 28/02, a Pedreira de Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba, foi palco de uma atividade que uniu aventura e superação. O Grupo Inclusão e Aventura promoveu um rapel inclusivo que levou 16 pessoas com deficiência física (PCDs) a descer uma parede de cerca de 60 metros de altura, em uma experiência marcada por muitos sorrisos e conquistas pessoais.

A única exigência para participar da atividade é que o participante tenha uma deficiência física. Foto: Robson Roque
A atividade foi gratuita e contou com o trabalho de cerca de 35 voluntários. A estrutura técnica do rapel foi montada pelo Elyvelton e Eduardo, da Mato ou Morro, responsáveis por preparar as ancoragens e guias necessárias para a descida com segurança.
De acordo com Robson Roque, criador do Grupo Inclusão e Aventura e organizador da atividade, a ideia de realizar um rapel inclusivo surgiu de maneira espontânea durante uma trilha. “Um dia estávamos fazendo uma trilha no Caminho do Itupava com uma PCD. No retorno, encontramos o Elyvelton na pedreira, que nos convidou para fazer um rapel com ela. Ali surgiu a ideia de fazer essa experiência com mais pessoas”, conta.
A iniciativa cresceu rapidamente. O primeiro rapel aconteceu ali mesmo, com cerca de seis participantes. Depois veio um evento com 12 PCDs e, agora, a edição reuniu 16 participantes, vindos de Curitiba e região metropolitana, a maioria deles crianças e cadeirantes.
A escolha da Pedreira de Piraquara não foi por acaso. Segundo Roque, o local oferece uma logística ideal para esse tipo de atividade. “É um lugar onde conseguimos chegar de carro com os equipamentos e também facilita o acesso das famílias. Além disso, o Elyvelton e o Eduardo já conhecem o local, o que torna acessível e preparado para esse tipo de evento”, explica.
Ainda assim a preparação para receber tantos PCDs começou meses antes. Desde o final do ano passado, os organizadores trabalharam no planejamento e na avaliação dos participantes, conversando com as famílias para garantir que todos estivessem aptos para a atividade.
No dia do evento, os voluntários chegaram à pedreira por volta das 5h30 da manhã para iniciar a montagem da estrutura. Eles também realizaram diversos testes e revisões de segurança antes da chegada das famílias. Ao longo do dia, que terminou por volta das 16h30, todos os participantes tiveram a oportunidade de viver o momento de aventura.
Uma experiência feliz fora da rotina difícil
Para os organizadores, mais importante do que a descida em si é o impacto que experiências como essa podem ter na vida das crianças e de suas famílias. “As fotos mostram um pouco do que foi o dia, muitos sorrisos. Mas o mais importante vem depois. As famílias contam que as crianças voltam mais animadas, com mais vontade de viver e lutar. A rotina deles costuma ser muito difícil, entre médicos, exames, terapias e escola. Muitas vezes não sobra espaço para simplesmente serem crianças”, afirma Roque.
Um dos participantes foi Elias, um garoto de 9 anos que nasceu com mielomeningocele — uma má formação na coluna — além de hidrocefalia, autismo e osteoporose, condição que torna seus ossos mais frágeis. A mãe dele, Franciane, conta que a rotina da família é intensa, marcada por consultas médicas, terapias e exercícios.
“A maior dificuldade são as dores da osteoporose e a depressão, porque ele sente que não consegue fazer as mesmas coisas que os amigos, que ele não se encaixa”, explicou ela. Francine contou que o filho possui mobilidade reduzida mas não depende totalmente da cadeira de rodas o tempo todo, no entanto também não tem a mobilidade suficiente para andar e fazer as mesmas atividades que outras crianças da idade dele fazem.
Quando soube da atividade, Elias não pensou duas vezes. “Ele ficou super animado, porque é muito aventureiro e gosta muito dos voluntários que considera amigos. Ficou dias falando sobre o rapel. Eu só queria que ele se divertisse, mas ver ele ali sendo corajoso foi emocionante. Um ano atrás ele estava em uma cama de hospital, então passou um filme na minha cabeça de tudo que superamos”, relata.
A primeira reação do menino ao ver a altura foi de surpresa. “Ele disse que era muito alto e que não iria de novo. Mas depois já falou que quer voltar para tentar soltar as mãos”, conta a mãe, entre risos.
Para Franciane, experiências como essa ajudam as crianças a perceberem que são capazes de enfrentar desafios. “Mostra para eles que podem fazer o que quiserem. Muitos ainda estão se descobrindo, então isso faz toda diferença.”
O impacto da atividade também foi sentido pelos voluntários que ajudaram a tornar o evento possível. Um deles foi Eduardo Andrade, que participou da equipe de apoio no rapel.
“O rapel inclusivo foi muito mais do que um evento. Foi um encontro de coragem, superação e propósito. Cada equipamento revisado e cada ancoragem montada carregava um compromisso inegociável: segurança em primeiro lugar”, relatou em sua rede social.
Segundo ele, ver os participantes superando o medo foi uma experiência transformadora. “Não foi apenas uma descida pela corda. Foi uma subida de autoestima, liberdade e confiança. A inclusão deixou de ser uma palavra e virou ação.”
Inclusão e Aventura
Além do rapel, o Grupo Inclusão e Aventura promove diversas outras atividades ao longo do ano, como trilhas, passeios em canoa havaiana, corridas de rua, passeios de jipe, trilhas em montanhas e atividades com triciclos organizadas por motoclubes.
A expectativa agora é ampliar as iniciativas. “Queremos voltar com o rapel no final do ano e levar ainda mais PCDs para viver essa aventura. Tudo depende de termos voluntários suficientes, porque ninguém cobra nada para participar. É tudo feito com amor ao próximo”, diz Roque.
Para as famílias, a experiência vai muito além da aventura. “É um momento mágico. Muitas famílias não têm rede de apoio, e nesses encontros nos sentimos acolhidos e vistos”, resume Franciane. “Eles fazem nossa vida mais leve e mostram que ainda existe muito amor no mundo.”


















