O início da temporada de verão nos Alpes foi marcado por uma série de acidentes fatais que resultaram na morte de nove montanhistas entre os dias 12 e 14/06. As tragédias ocorreram em três das montanhas mais famosas dos Alpes, Gran Paradiso, Mont Blanc e Matterhorn. Os acidentes mobilizaram equipes de resgate na Itália e na França, transformando o que deveria ser um dos primeiros grandes fins de semana da temporada em um dos mais mortais dos últimos anos.
Impulsionados por uma previsão de tempo estável após um longo inverno, centenas de alpinistas aproveitaram as condições favoráveis para tentar algumas das rotas mais clássicas dos Alpes. No entanto, especialistas alertam que o rápido derretimento da neve e do gelo aumentou os riscos em alta montanha, tornando até mesmo itinerários conhecidos mais perigosos do que o habitual.
A sequência de acidentes começou entre os dias 12 e 13/06, quando sete montanhistas morreram em incidentes distintos ocorridos em um intervalo de aproximadamente 24 horas.
A tragédia mais grave aconteceu na face norte do Gran Paradiso (4.061 m), no Vale de Aosta, na Itália. Três alpinistas experientes da região do Trentino perderam a vida após uma queda de cerca de 400 metros. O grupo havia partido do Refúgio Chabod para uma ascensão à montanha, mas não retornou no horário previsto. Preocupados, familiares acionaram os serviços de emergência durante a noite.
As equipes de resgate localizaram os corpos na manhã seguinte, a 3600 metros de altitude, graças a um rastreador por satélite utilizado por um dos integrantes do grupo. A hipótese mais provável da causa do acidente é que um dos três alpinistas pode ter caído, arrastando consigo seus companheiros, que estavam encordados junto com ele. Essa é considerada uma rota clássica de montanhismo classificada como difícil, exige excelente preparo físico e técnico, além de conhecimento do ambiente de alta altitude. Segundo relatos de amigos e familiares, os três eram montanhistas experientes, conheciam bem a rota e possuíam o equipamento adequado para a atividade.
Mont Blanc e Matterhorn
Outra ocorrência fatal foi registrada no Mont Maudit (4.465 m), um dos picos do maciço do Mont Blanc. Dois irmãos de 24 e 26 anos morreram após cair durante a travessia da exigente Aresta Kuffner, uma das rotas clássicas da montanha.
O acidente foi testemunhado indiretamente por um guia eslovaco que estava na região e ouviu o desprendimento de pedras. Após acionar os serviços de emergência, os socorristas localizaram os dois alpinistas já sem vida. No mesmo setor da montanha, outro grupo composto por três escaladores também sofreu uma queda, mas felizmente os integrantes sobreviveram com ferimentos e foram resgatados.
Ainda no maciço do Mont Blanc, um esquiador de 44 anos morreu após sofrer uma queda grave no Esporão Brenva, na vertente italiana da montanha. Seu companheiro de atividade presenciou o acidente e acionou imediatamente o resgate, mas a vítima não resistiu aos ferimentos.
Já no Matterhorn (4.478 m), conhecido na Itália como Cervino, outro montanhista perdeu a vida após cair próximo ao Pic Tyndall, na rota italiana da montanha. Seu parceiro de escalada sobreviveu ao acidente.
O número de vítimas aumentou no domingo, 14/06, quando mais dois montanhistas de 25 e 26 anos morreram no Monte Pasubio, nos Pré-Alpes italianos. O acidente ocorreu na área de Sojo d’Uderle, onde os integrantes de uma cordada sofreram uma queda de aproximadamente 100 metros.
Um terceiro integrante do grupo permaneceu suspenso na parede preso à corda e foi posteriormente resgatado pelas equipes de emergência. As operações foram dificultadas pela presença de neblina, que reduziu a visibilidade e atrasou os trabalhos dos socorristas.
Derretimento da neve preocupa especialistas
Embora as condições meteorológicas tenham sido consideradas boas durante o fim de semana, com céu limpo e ventos moderados em grande parte dos Alpes, especialistas apontam que o rápido aumento das temperaturas tem provocado uma degradação acelerada das condições das montanhas.
O derretimento precoce da neve e do gelo contribui para o desprendimento de rochas e reduz a estabilidade de trechos tradicionalmente protegidos pelo permafrost — a camada de solo permanentemente congelado que atua como uma espécie de “cimento” natural nas altas montanhas.
À medida que esse gelo interno derrete, aumenta a ocorrência de desmoronamentos e quedas de blocos rochosos, alterando significativamente as condições de rotas consideradas clássicas e relativamente previsíveis.
Equipes de resgate destacam que essa transformação tem sido observada em diversas montanhas alpinas nos últimos anos, especialmente no início do verão, quando a transição entre as condições de inverno e de verão ocorre de forma mais rápida.
Segundo os socorristas, muitas rotas que aparentam estabilidade durante as primeiras horas da manhã podem se tornar significativamente mais perigosas ao longo do dia devido ao aquecimento da rocha e ao derretimento da neve.











