Russo perde dedos da mão esquerda por congelamento e acusa guia de abandono

0

Um caso ocorrido durante a temporada de escaladas de 2026 no Himalaia reacendeu o debate sobre a responsabilidade de empresas e guias de alta montanha. O alpinista russo Konstantin Smirnov está acusando o guia de tê-lo abandonado durante a descida do Makalu (8.485 m), a quinta montanha mais alta do mundo, no Nepal. Ele passou uma noite sozinho na chamada “zona da morte” e sofreu graves queimaduras por frio, que resultaram na amputação de todos os dedos da mão esquerda.

Segundo Smirnov, ele contratou um pacote completo da empresa nepalesa Makalu Adventure, que incluía um guia particular e cinco cilindros de oxigênio suplementar. Após duas rotações de aclimatação, a dupla alcançou o cume do Makalu em 09/05, por volta das 10h45.

O montanhista russo comemorando no cume do Makalu. Foto: Konstantin Smirnov

Porém durante a descida,  Smirnov começou a ter dificuldades e passou a andar mais lentamente. Segundo ele, o Bhajuram Gurung seguiu em direção ao acampamento sem aguardá-lo e, sem informar a equipe de apoio que ele havia permanecido para trás a aproximadamente 7.900 metros de altitude.

De acordo com o relato do montanhista apresentado à Justiça nepalesa, Smirnov continuou descendo sozinho até cerca das 21h30, quando, extremamente exausto, parou para descansar. Ele afirma ter tido alucinações e de não se lembrar do momento em que tirou a luva da mão esquerda. O russo adormeceu e diz ter entrado em um estado semelhante a um coma provocado pela altitude e pelo frio intenso.

Ao despertar na manhã seguinte, por volta das 5h, acionou o dispositivo de emergência Garmin InReach, enviando um sinal de SOS com sua localização. Segundo ele, sua esposa recebeu o alerta e entrou em contato com a empresa responsável pela expedição.

O Makalu é a quinta montanha mais alta do mundo. Foto Wikimédia Commons.

Smirnov também acusa a operadora de ter informado inicialmente que ele estava em segurança no acampamento de altitude, apesar de o rastreamento via GPS indicar sua posição na montanha. O alpinista afirma que isso atrasou o início das operações de resgate.

A empresa nega as acusações e relata que prestou total apoio no resgate. Um segundo guia afirmou que Gurung tinha pouco oxigênio e precisou descer rápido para salvar sua própria vida.

Descida solitária

Mesmo debilitado, Smirnov conseguiu continuar descendo sozinho pela rota equipada com cordas fixas. Segundo seu relato, ele alcançou o acampamento de cume apenas no fim da tarde do dia seguinte, após permanecer quase um dia inteiro em condições extremas. Ao reencontrá-lo o guia se ajoelhou e o abraçou. No entanto, Smirnov afirma que o tratamento da equipe mesmo após ele alcançar o acampamento foi ruim sem água e remédios suficientes.

“Ele não conseguiu encontrar nenhum remédio. Ele não desamarrou minhas botas, não me ajudou a entrar no meu saco de dormir, nada. Eu fiquei deitado no chão da barraca, sozinho”, disse o russo em entrevista a Climbing Magazine.

O episódio resultou em severas lesões por congelamento. Todos os dedos de sua mão esquerda precisaram ser amputados.

Foto da mão de Smirnov após o resgate. Foto: Konstantin Smirnov

O montanhista apresentou ações judiciais contra a empresa organizadora da expedição tanto no Tribunal do Consumidor de Katmandu quanto junto à polícia do distrito de Sankhuwasabha, alegando negligência por parte da operadora e de seu guia.

Debate sobre ética e responsabilidade

A temporada de escaladas de 2026 ficou marcada pela história do nepalês Hillary Dawa Sherpa, que emocionou a comunidade do montanhismo ao sobreviver sozinho por seis dias na região do Everest. Agora, o caso do russo Konstantin Smirnov volta a colocar em pauta uma discussão recorrente no montanhismo de alta altitude: até onde vai a responsabilidade de um guia quando um cliente apresenta dificuldades durante a descida?

Em montanhas acima de 8.000 metros, onde o organismo humano entra rapidamente em processo de deterioração devido à baixa pressão atmosférica e à falta de oxigênio, abandonar um cliente ou parceiro de escalada pode reduzir drasticamente suas chances de sobrevivência. Ao mesmo tempo, guias e equipes de resgate também precisam avaliar continuamente os riscos para a própria segurança.

Situações semelhantes já provocaram intensos debates na história do Himalaia. O desastre do Everest em 1996 e outros episódios posteriores evidenciaram os complexos dilemas enfrentados por guias e expedições comerciais quando clientes entram em colapso em grandes altitudes.

Agora, caberá às autoridades nepalesas investigar as circunstâncias do caso e determinar se houve negligência por parte da empresa e do guia responsável pela expedição

Compartilhar

Sobre o autor

Maruza Silvério é jornalista formada na PUCPR de Curitiba. Apaixonada pela natureza, principalmente pela fauna e pelas montanhas. Montanhista e escaladora desde 2013, fez do morro do Anhangava seu principal local de constantes treinos e contato intenso com a natureza. Acumula experiências como o curso básico de escalada e curso de auto resgate e técnicas verticais, além de estar em constante aperfeiçoamento. Gosta principalmente de escaladas tradicionais e grandes paredes. Mantém o montanhismo e a escalada como processo terapêutico para a vida e sonha em continuar escalando pelo Brasil e mundo a fora até ficar velhinha.

Deixe seu comentário