Do Cinza Andino ao Sol Nascente: O Caminho Além dos 70 Cumes de 6 Mil Metros

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Acabo de escalar minha montanha diferente acima de 6 mil metros de número 71 nos Andes.

Quem olha de fora, vê apenas o número: 71 cumes únicos acima de 6 mil metros. Mas quem vive o montanhismo sabe que a contabilidade da altitude não se faz em uma planilha de Excel; ela se faz na sola da bota, no vento que corta o rosto a zero grau e no suor acumulado em décadas de dedicação.

Cheguei a Arequipa, no Peru, com a marca de 67 cumes andinos de 6 mil metros na bagagem. Em 2026, por conta da intensa rotina de trabalho e logística, tinha conseguido somar apenas dois novos cumes à lista. Mas o deserto do sul peruano guardava o cenário perfeito para este novo marco. Aqui, em uma sequência intensa e desgastante, fechei mais quatro montanhas mágicas, ultrapassando a barreira dos 70.

A expedição Vulcões de Arequipa está longe de ser um passeio. O terreno aqui cobra seu preço. Diferente de La Paz, onde você já começa aclimatado a quase 4.000 metros de altitude, Arequipa exige uma estratégia cirúrgica de aclimatação. Não há espaço para pressa. Começamos de baixo, subindo o Simbral — um cume secundário e pedregoso do maciço de Pichu Pichu. Depois, o clássico e imponente Misti, para só então, com o corpo minimamente adaptado, apontarmos as botas para os gigantes de 6 mil metros.

“Nenhum 6 mil é fácil. Todos exigem resistência física extrema e, acima de tudo, resiliência mental. O ambiente é severo: cinza vulcânica que invade os pulmões, quase nada de neve para facilitar o passo, rocha solta e o temido acarreo que faz você dar dois passos para trás a cada um que dá para a frente.”

O Trabalho Silencioso e o Legado

Muitos pensam que acumular esse volume de montanhas inéditas é um processo linear. Não é. Foram anos de dedicação em que precisei priorizar o trabalho, repetindo as mesmas montanhas dezenas de vezes, ensinando, cuidando e conduzindo pessoas pelo caminho que eu mais amo. Mas há uma beleza profunda nisso. Para que eu pudesse alcançar o meu 71º cume, ajudei muita gente a cruzar a barreira dos seus primeiros 10 cumes de 6 mil metros.

Nesta expedição de Arequipa, o orgulho não foi apenas meu. Ver a Cecilia, o Pedro Manuel e o Alvaro conquistarem suas marcas pessoais coroa o verdadeiro propósito de guiar.

O projeto Andes 6K — que hoje atrai montanhistas do mundo inteiro e transformou montanhas antes completamente desconhecidas em grandes objetivos de vida — teve sua chama acesa no Brasil. Ajudar a construir essa cultura, onde escalar nos Andes se tornou um sonho compartilhado por tantos brasileiros, é o meu maior orgulho.

Não se trata de buscar a fama em um único cume difícil e depois desaparecer. Trata-se de consistência, de volume, de insistência. São mais de 100 cumes de 6 mil metros nos Andes. Se você não amar verdadeiramente o processo, a poeira, o frio e o silêncio da altitude, você não passa do décimo.

Ampato, meu cume diferente de numero 71 só nos Andes.

Próximos Passos: O Olhar no Horizonte

Ainda há muito o que fazer por aqui. Olho para o Solimana e sinto aquela velha faísca de exploração. O desejo de me perder nas cordilheiras de Vilcanota e Vilcabamba, perto de Cusco, continua pulsando forte.

Mas, por agora, é hora de pausar a contagem andina e deixar que a estrada me leve para outras direções. Vou deixar a poeira dos Andes para trás temporariamente para viver um sonho que carrego desde a infância: conhecer o Japão e explorar os seus próprios vulcões, suas florestas e sua cultura.

Não sei exatamente qual será o número final da minha lista de cumes andinos, e honestamente, isso pouco importa. O que realmente importa é a jornada, as amizades construídas no limite do fôlego e a certeza de que o caminho continua aberto. Nos vemos nas próximas encostas — andinas ou asiáticas!

 

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Sobre o autor

Natural de Itatiba-SP e residente em Curitiba-PR desde 2007, Pedro Hauck é uma figura proeminente no montanhismo brasileiro. Sua formação inclui graduação em Geografia pela Unesp Rio Claro e mestrado em Geografia Física pela UFPR. Com uma carreira de mais de 27 anos, ele é guia de montanha profissional e instrutor de escalada credenciado pela ABGM, a única associação de guias de escalada profissional do Brasil. Seu currículo inclui a ascensão de mais de 180 montanhas acima de 4 mil metros, com mais da metade ultrapassando os 6 mil metros, além de um pico de 8 mil metros no Himalaia e dois de 7 mil. Pedro Hauck também atua como empresário do setor outdoor, sendo sócio da Loja AltaMontanha, uma das mais conceituadas lojas de montanhismo do país, da Via AltaMontanha, um dos maiores ginásios de escalada de Curitiba, e da Soul Outdoor, agência especializada em ascensão, trekking e cursos de montanhismo. Acompanhe Pedro Hauck no Instagram: @pehauck.

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