Um dia, quis conhecer o Rio Xingu e notei um fato estranho. A primeira cidade às suas margens só ocorria depois de mais de mil km de curso do rio: São Félix do Xingu. E a cidade seguinte, Altamira, estaria a praticamente a ¾ de sua extensão desde o início. A razão disso foram as muitas e grandes áreas indígenas atravessadas pelo rio, no seu rumo norte em direção ao Amazonas.

O Xingu corre por quase 2 mil km entre o cerrado do MT e a floresta do PA.
O primeiro parque indígena do Brasil foi fundado mais de meio século atrás no Alto Xingu. E ele serviu de exemplo para várias etnias indígenas ao longo do caminho: jarina, caiapó, assurini, arara. Foram mais de trinta reservas, numa área gigantesca de quase 30 milhões de hectares. Foi por isso que as primeiras povoações só aconteceram depois que não havia mais territórios indígenas.
E foi assim que conheci São Félix no Pará. Foi o Coronel baiano Martins Jorge quem a fundou numa ilhota próxima à confluência dos rios Xingu e Fresco, no exato ano de 1900. Da margem esquerda do Xingu ela passou para a direita, quando foi afinal desmembrada de Altamira. São Félix atravessou vários ciclos econômicos, antes de encontrar sua vocação (por enquanto) na pecuária.
Os primeiros ciclos foram os da borracha, intercalados pelo da castanha, antes e depois da II Grande Guerra. Nesta época, num outro pequeno ciclo, as jaguatiricas eram caçadas por suas peles e exportadas para o Japão. E a agricultura familiar teve um surto modesto, até que finalmente São Félix foi integrado ao país através da PA-279. Essa foi sua ligação rodoviária com Xinguara. Por lá já passava o eixo que descia até Barra do Garças.

A PA-279 no trecho entre Xinguara e São Félix.
Assim, a partir de fins dos anos de 1970, São Félix foi finalmente unida ao Centro-Oeste e ao Sudeste, com grande afluxo de migrantes. Entre eles, os grileiros, que inauguraram o ciclo do mogno, e os garimpeiros, que introduziram a extração da cassiterita e do ouro, que perdura até hoje. Até o fim dos anos 1990 ainda existia a exploração do jaborandi (do qual se extrai a xilocaína), até que o corte da árvore, por oposição à cata de suas folhas, acabou estupidamente com essa atividade.
A pecuária penetrava nesta época por toda a região ao sul de Xinguara, a partir do centro irradiador de Barra do Garças no MT. É até irônico pensar que foi exatamente de lá que partira a Expedição Roncador-Xingu, 40 anos antes. É também nesta época que a província mineral de Carajás começou a ser explorada pela Vale logo ao norte de São Félix, novamente com grandes explosões populacionais em Marabá e Parauapebas.
Então, como já vinha ocorrendo ao longo de mais de mil km desde o jovem Araguaia, a pecuária infletiu para oeste a partir de Xinguara. E começou um dos maiores surtos de desmatamento do Brasil, nos 260 km que corriam pela recente rodovia até as margens do Xingu.
Durante 40 anos o fogo e o corte avançaram sobre a frondosa floresta amazônica, enquanto São Félix ficava cada vez mais populosa, à semelhança de Altamira. Até que a região se tornou a campeã nacional na emissão de gases de efeito estufa. Esses gases – em especial o CO2 ou dióxido de carbono (proveniente da queima de combustíveis) e CH4 ou metano (originado pela ruminação do gado) – são responsáveis pelo aquecimento global.

O gado é criado á custa da floresta calcinada.
Há anos, São Félix possui o maior rebanho bovino do país, são hoje 2.5 milhões de cabeças. E há anos, libera emissões colossais de CO2, atingindo o recorde de 30 milhões de toneladas – mais que Altamira, São Paulo ou Rio de Janeiro. O município foi embargado pelo MMA, seus produtores não tendo mais acesso ao crédito. Como disse o fazendeiro Lazir de Castro: Éramos considerados heróis. Hoje somos criminosos. Mas como isso pôde acontecer?
Quando se queima a floresta, há a substituição das emissões do oxigênio, fruto da fotossíntese vegetal, pelo gás carbônico, resultado da combustão da mata. Além disso, um sexto do total vem do perigoso metano da digestão bovina. Com o tempo, a primeira componente deve cair, à medida que não sobre mais floresta para ser consumida – mas a segunda cresce, devido ao aumento do rebanho. E, assim, o crédito vai continuar escasso no município.
É comum a afirmação de que São Félix possui ¾ do seu território protegido, em função das terras indígenas, unidades de conservação e áreas de reserva legal. Esta última é uma fração das propriedades rurais que deve por lei manter a vegetação original. Na Amazônia, o percentual é de 80%, mas no caso e São Félix pode ser reduzido para meros 50%.
Entretanto, essa afirmação é falsa, e por dois motivos. De fato, existem em São Félix inúmeras áreas de conservação, em especial terras indígenas, reservas federais e área de proteção ambiental. Mas elas somam apenas 50% do município. Além disso, não existe na Amazônia (e, acredito, em parte do Centro-Oeste) o respeito ao limite da reserva legal.

O mosaico de reservas à volta de São Félix.
A APA Triunfo do Xingu, que integra o Corredor de Diversidade da região, teve já 40% de sua superfície devastada para a criação de gado. Outras áreas de preservação, como a monumental EE da Terra do Meio e o PN da Serra do Pardo, são também rotineiramente desmatadas.
Diz o ativista ambiental Tarcísio Feitosa: Essa região vai se consumir no fogo. Talvez o que vai sobrar lá serão as florestas dentro das reservas legais, que são extremamente empobrecidas porque já floram exploradas em anos de extração de madeira. (…) Mas este ano vai queimar muito ainda ali, vai queimar bastante.
Mas não basta a grilagem das terras, a movimentação fictícia do gado, o uso de proprietários falsos e a legalização forjada das glebas, em conluios que foram chamados de consórcios do engano. Existe também o garimpo na vizinha Ourilândia – e, pasme, no interior de terras indígenas. O prefeito reclama das operações de fiscalização e afirma que pela leitura fria da lei (o garimpo é crime), mas ele está trabalhando, produzindo riqueza, comercializando seus produtos. Aqui, o crime compensa.
Os barqueiros antigos contam como era bonito o Rio Fresco, com suas águas limpas, frias e piscosas. Apesar de distar uma centena de km, o garimpo de Ourilândia foi capaz de turvar suas águas e matar seu peixe. Você vai ler abaixo um trecho de uma reportagem de 25 anos atrás e saber que, desde então, o rio continua sendo aterrado, desmanchado e envenenado.

A barra do Fresco no Xingu, com os diferentes coloridos das águas. O Fresco é um rio envenenado há décadas pelo garimpo.
A presença dos garimpeiros nas áreas próximas às aldeias caiapó, às margens do rio Fresco, mais do que um risco à saúde dos índios, pode representar o extermínio da sua cultura. A festa da Arara, realizada sempre no mês de setembro, para dar nome às crianças nascidas durante o ano, teve poucos batizados para sacramentar.
Muitos bebês morreram de parto, e não está afastada a possibilidade de algum tipo de má-formação congênita entre os sobreviventes. Tudo devido ao mercúrio, transferido pelas gestantes através da placenta. Mesmo as crianças que aparentemente nasceram bem, não estão livres da contaminação.
São Félix não é um município pobre, apresenta uma renda per capita de US$ 2 mil, equivalente às do Pará e do Nordeste. Mas a cidade me pareceu feia, malcuidada e pobremente construída, suja e barulhenta. Lúcio Flávio Pinto, que acompanha São Félix há meio século, conclui assim: O Xingu será mais uma oportunidade perdida.
Não é pouca a riqueza gerada, na criação e no abate do gado, na extração do níquel e da cassiterita, no plantio da banana e do cacau, no desdobramento da madeira, no comércio e no turismo. Mas, de alguma forma, o progresso não criou qualidade.
Se você olhar a natureza ao invés da sociedade, talvez conclua que São Félix destruiu valor. Quando uma floresta primária como a que lá havia foi trocada pela pastagem ruminante, desapareceu mais da metade (na realidade, 60%) da exuberante matéria orgânica que existia antes. A mata tropical contém meio milhar de espécies de árvores por hectare, vs. duas dezenas nas mais variadas florestas temperadas, que acarretam a diversidade da fauna, a densidade das conexões no ambiente e a velocidade da evolução natural.
São Félix levou mais de um século para ficar mais pobre.








