Algumas regiões do Nepal tem como principal fonte de renda o turismo. Em locais como as trilhas para o Acampamento Base do Everest, tudo é pensado para receber milhares de montanhistas todos os anos.
No entanto, ao mesmo tempo que turistas contam com acomodações confortáveis, os carregadores que sustentam a movimentada rota até o Acampamento Base do Everest, tinham dificuldades de encontrar abrigo para passar a noite.
Isso começou a mudar com a inauguração de um abrigo exclusivo para os carregadores em Lobuche, no final dessa temporada. A estrutura está localizada a 5.030 metros de altitude e representa um avanço nas condições de trabalho de uma categoria considerada essencial para o turismo de montanha no Himalaia, mas que historicamente recebeu pouca atenção.
Construída pela Fundação Nimsdai em parceria com o município rural de Khumbu Pasang Lhamu, a chamada Porter House teve investimento superior a 60 milhões de rúpias nepalesas (cerca de US$ 440 mil). O projeto foi financiado por doações internacionais, enquanto o governo local forneceu o terreno e apoio logístico.
Todos os materiais utilizados na construção foram obtidos localmente ou transportados até lá. ” O ambiente influenciou fortemente o projeto e os materiais de construção escolhidos. O projeto selecionado considera o impacto das mudanças climáticas na montanha, reconhece com sensibilidade a majestade do local e presta homenagem à herança dos Porters”, diz a Nimsday Fundation.
Até então, os carregadores frequentemente precisavam caminhar entre duas e três horas após um dia de trabalho apenas para encontrar um lugar onde dormir. Na alta temporada, quando entre 700 e 800 trekkers passam diariamente por Lobuche, a demanda por hospedagem supera em muito a oferta disponível. Estima-se que a região necessite acomodar de 250 a 400 carregadores por noite, enquanto existem apenas sete lodges comerciais e poucos alojamentos simples destinados aos trabalhadores.
Com capacidade oficial para 83 pessoas — podendo receber até 120 durante os períodos mais movimentados — o novo abrigo não resolve completamente o problema, mas reduz o desgaste físico enfrentado pelos trabalhadores, que antes precisavam descer até vilarejos como Thukla, Pheriche ou Dingboche para passar a noite e retornar na manhã seguinte carregando novas cargas. Tudo isso em altitudes superiores a 5 mil metros, onde a concentração de oxigênio corresponde a cerca da metade da encontrada ao nível do mar e as temperaturas frequentemente permanecem abaixo de zero.
Segundo Mingma Tshiri Sherpa, presidente do município rural de Khumbu Pasang Lhamu, a obra era uma necessidade antiga. Embora ainda seja insuficiente para atender toda a demanda, ele destaca que a iniciativa demonstra que melhorias concretas para os carregadores são possíveis.
O projeto foi anunciado em 2024 pela Fundação Nimsdai, criada pelo montanhista nepalês-britânico Nirmal “Nimsdai” Purja, conhecido mundialmente por escalar os 14 picos acima de 8 mil metros em apenas seis meses e seis dias.
Para muitos carregadores, o novo abrigo representa mais do que um local para dormir. Ram Kulung, que trabalha na região desde 2002, afirmou que Lobuche sempre foi o ponto mais difícil para encontrar acomodação e classificou a nova instalação como “melhor do que muitos hotéis”. Ainda assim, ele reconhece que a procura continuará sendo maior do que a capacidade disponível.
A criação da Porter House também evidencia um contraste presente no turismo de aventura no Himalaia. Enquanto a infraestrutura para trekkers e montanhistas evoluiu significativamente nas últimas décadas — com lodges equipados, cafeterias e maior conforto — os profissionais responsáveis por transportar alimentos, combustível, equipamentos e bagagens continuaram, por muitos anos, sem acesso a condições básicas de hospedagem.











