A conquista do Cerro Torre – parte I

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Desde 1936 circulavam entre os escaladores europeus fotos e descrições do Cerro Torre. Estas descrições, mais a idéia que foi se formando de que era uma montanha impossível de escalar, desataram na Europa ambições de escalar-lo.

Cerro Torre é uma montanha espetacular, sua verticalidade impressiona e suas formas quase simétricas e harmoniosas a enaltecem. Situada nos campos de gelo do sul da Patagônia, na América do Sul, se encontra em uma região disputada pela Argentina e pelo Chile, localizada a oeste do Cerro Fitz Roy (também conhecido como Cerro Chaltén). Esta montanha faz parte de um conjunto de quatro montanhas, sendo ela a mais elevada de todas (Torre Egger, Punta Herron, e Cerro Stanhardt).

O Cerro Torre também foi inspiração para o filme Scream of Stone (em português se traduziu o filme como No Coração da Montanha) de 1991, dirigido por Werner Herzog.

Cerro Torre.

Primeiras tentativas – 1950

Desde 1936 circulavam entre os escaladores europeus fotos e descrições do Cerro Torre (3.102 m). Alberto María de Agostini descreveu o cerro: “Formidáveis paredes de granito talhadas verticalmente sobre o glaciar”. e outra frase que mostra a impressão que causou esta montanha é de Lionel Terray (primeiro escalador junto a Guido Magnone do Cerro Fitz Roy), que disse “Enfim existe um cerro pelo qual vale a pena arriscar a vida”. Estas descrições, mais a ideia que foi se formando de que era uma montanha impossível de escalar, desataram na Europa ambições de escalar-lo.

Cesarino Fava, italiano residente na Argentina, foi um dos poucos escaladores, além dos integrantes da expedição francesa ao cerro Fitz Roy de 1952, que havia visto o Cerro Torre e suas grandes paredes.

Cesare Maestri escalando nas Dolomitas na década de 50.

Fava perdeu todos os dedos de seus pés em 1950 durante um resgate no Aconcágua Assim mesmo, Cesarino, impressionado pela beleza e magnitude da montanha, ansiava por escalá-la. Necessitava de um companheiro e a seus ouvidos havia chegado a fama de “A aranha dos Dolomitas” (apelido pelo qual se conhecia Maestri na Itália), a quem sem conhecer, considerou como o mais indicado para realizar a tentativa de escalar o Torre. Cesarino enviou uma carta para este endereço “A aranha dos Dolomitas”. Trento, Itália. Esta chegou nas mãos de Cesare Maestri, que começou a organizar uma expedição para a Patagônia a mando de Bruno Detassis.

Na comunidade italiana, a ascensão dos franceses do cerro Fitz Roy havia despertado grande interesse pela Patagônia. Por isto também, Walter Bonatti e Carlo Mauri planejavam tentar a escalada ao Cerro Torre, casualmente, na mesma temporada.
O grupo das Dolomitas (do qual fazia parte Maestri), e o grupo “Ragni di Lecco” (Bonatti, Mauri), e mesmo vivendo na mesma região, mantiveram uma rivalidade durante anos.

A expedição de Bonatti foi apoiada economicamente pelo Club Alpino Italiano e por Folcon Doro D´Altan, um endinheirado italiano que vivia em Buenos Aires.

Depois de estudar o Cerro Torre, Bonatti e Mauri decidiram que a rota mais fácil deveria ser pela face oeste, exposta ao vento mas com possibilidade de escalar em gelo. A cordada, mais um pequeno grupo de apoio, voou até a Patagônia no fim do ano 1957. Em poucos dias fizeram a longa aproximação até a face oeste pelo Gelo Continental e cavaram uma confortável cova de gelo. Durante o mês seguinte fixaram 600 metros de corda e chegaram ao colo entre o Cerro Torre e o Cerro Adela. Logo em 2 de Fevereiro de 1958, subiram pelas cordas fixas e escalaram outros 120 metros. mais acima do colo.

Walther Bonatti em 1958. Fonte CCAM.

Cerro Torre em 1958. Fonte CCAM.

Antes de atacar Cerro Torre, os alpinistas italianos tiveram que subir as encostas íngremes do
Cerro de la Esperanza, com a ajuda, às vezes, de uma corda.
Primeira expedição argentina italiana a Cerro Torre, 1958

Bonatti experimentou esta rota e definiu como um dos lugares mais difíceis que já havia escalado em toda sua vida. Segundo suas palavras “O gelo era muito vertical e em algumas partes até negativo”. A rota se tornava muito difícil para eles e no entanto faltavam 600m até o cume, e por isso desceram de volta ao colo e deste até o glaciar.

Com a esperança de voltar outro ano, nomearam o colo como ´Colo da Esperança´.
Dias depois fariam uma travessia de norte a sul pelo Cordón Adela, fazendo a primeira ascensão dos cerros Adela Norte, Central e Sul, e a segunda ascensão aos cerros Doblado e Grande.

Col de la Esperanza, atrás do Domo Cerros Blanco, Piergiorgio e Pollone.
Primeira expedição argentina italiana a Cerro Torre, 1958. Foto: Rene Eggmann, coleção Guillermo Glass. Fonte CCAM.

Porém a montanha pela qual vieram para a Patagônia não havia sido escalada, segundo Bonatti, nunca seria.

Carlo Mauri descreveu assim o Cerro Torre: “O cume da montanha parece um gigantesco cone que foi recoberto com gelo e depois pressionado para baixo fazendo com que o gelo se expandisse mais e mais sobre as bordas do cone, porém neste processo de expansão foi congelado para sempre. A medida que o vento oeste agrega mais neve à estrutura, esta começa a se torcer pela força e se torna um labirinto de gelo para cima e para baixo, até que a gravidade atue e blocos de gelo do tamanho de casas se despedacem mais abaixo nas lisas paredes da montanha“.

Pelo leste e ao mesmo tempo, se encontrava já instalada na região a expedição liderada por Bruno Detassis. Estava composta por Cesare Maestri, Catullo Detassis, Mario Stérnico, Luciano Eccher e o ítalo-argentino Cesarino Fava. Com orçamento mais limitado, viajaram de barco para a Argentina (não de avião como a outra expedição). Seu acampamento estava perto da Laguna Torre. Apenas Detassis viu pela primeira vez o Cerro Torre e o declarou “montanha impossível”, proibindo a sua equipe de escalá-lo, dizendo: “o Torre é impossível de escalar e não quero que ninguém arrisque sua vida para tentar”.

O único momento em que as duas expedições se viram foi quando de ambos os lados e no mesmo dia escalaram o Cerro Adela. Maestri espiou Bonatti e Mauri perto do cume mas foi incapaz de alcança-los. Quando chegou encontrou marcas de urina na neve, tomando isto como uma ofensa pessoal.

As duas expedições voltaram à Europa derrotadas. Para Maestri as coisas não terminariam por aí, sua história com o Cerro Torre recém começava. Em seu livro autobiográfico “Arrampicare e il mio mestiere” (Escalar é meu ofício) narra esta tentativa de 1957. As palavras são belas e mostram o conflito que havia gerado em Maestri esta belíssima montanha. O homem vencido que se vê impotente sem poder atuar. O Cerro Torre e sua ambição de escalá-lo.

Se antes que estas expedições que tentaram escalá-lo era considerado como inescalável, se tornou mais ainda quando os melhores escaladores do momento voltaram derrotados por ela. O nome ´Cerro Torre´ e o mito de ´montanha impossível´ corriam por todos os círculos de escaladores da Europa. Começava assim a corrida para conquistá-lo.

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:: A conquista do Cerro Torre – parte II

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Redação - AM

Texto publicado pela própria redação do Portal.

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