A Pedra Selada

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A Pedra Selada fica em Visconde de Mauá. Pertence ao município carioca de Resende, com acesso por uma estrada agora asfaltada a partir de Penedo, às margens da Via Dutra. Faz divisa com Minas e fica a distâncias razoáveis do Rio e de Belo Horizonte.

Visconde de Mauá deve seu nome ao Barão de Mauá, um homem inteligente, avançado e empreendedor. Durante o marasmo do Império, foi o maior industrial do país, com uma rede de negócios jamais replicada em nossa história. Mesmo hoje, com a política deprimente do país, Mauá lhe parecerá moderno.

Seu filho recebeu as terras onde está Mauá como uma concessão do Governo para a exploração de madeira. Mais tarde, Mauá foi emancipada e muitos europeus foram atraídos para lá, a fim de recomeçarem suas vidas. A partir do século XIX, o Brasil facilitou a imigração de trabalhadores da Europa para colônias agrícolas no Sul e Sudeste do país.

A vila de Visconde de Mauá abraçada pelos arcos montanhosos do Planalto de Itatiaia (Fonte – Divulgação).

Mais tarde, os hippies descobriram o Maromba, uma das três vilas interligadas de Visconde de Mauá, que durante muito tempo manteve seu ambiente alternativo. Maringá, a povoação seguinte rio abaixo, concentra hoje a maior parte das lojas e bares. Já o povoado de Mauá, o primeiro a ser criado e o que primeiro você conhecerá, acolhe tantos os locais como os turistas.

Mauá me parece o equivalente a duas outras vilas turísticas serranas: Monte Verde em Minas e Urubici em Santa Catarina. Quando seus acessos eram ainda em terra, isso lhes dava um aspecto mais bucólico. Das três, Visconde de Mauá me parece a mais interessante, pela presença de cachoeiras e proximidade da serra, além de sua atmosfera mais alegre.

Mauá estende-se por 6 km ao longo do encachoeirado Rio Preto, que a atravessa por inteiro e lhe dá mais vida. Ela é conhecida por seus vales, rios e cachoeiras, mais do que por suas montanhas (afinal, é a vizinha baixa de Itatiaia).

Os vales do Pavão, das Cruzes e das Flores e as cachoeiras de Santa Clara (a minha preferida), do Maromba e do Alcantilado podem ser visitados com proveito e facilidade. Não falta hospedagem: há inúmeros hotéis e pousadas, além de camping na direção de Maringá.

A Cachoeira da Gruta do Granito no Vale do Alcantilado, que reúne mais de meia dúzia de quedas (Fonte – Divulgação).

Você pode fazer algumas caminhadas interessantes em Mauá. Ou ainda visitar no lado mineiro os vilarejos próximos de Mirantão e Santo Antônio. É nessa região que ficam as nascentes do Rio Grande, que irá fazer a divisa entre Minas e São Paulo. É curioso como um riacho despretensioso irá se transformar num rio caudaloso, que depois será do tamanho de um lago.

Tenho belas recordações da época em que procurava conhecer todos os povoados na base do grande maciço de Itatiaia. Alguns eu avistava a partir do alto das montanhas, antes que os visitasse por baixo. Há locais esplêndidos, que sempre me parecem modestos e perdidos nas longas e frias tardes da Mantiqueira.

Dentre as montanhas dessa região no sopé de Itatiaia, a mais notável é a Pedra Selada. Ela não é nem elevada e nem difícil, mas para mim (e, acredito, para muitos montanhistas) é única. É curioso como montanhas situadas em depressões são tão facilmente avistadas de longe. A Pedra Selada é visível tanto das alturas do Planalto de Itatiaia como dos terrenos baixos do Vale do Paraíba.

Vista distante da Pedra Selada, tirada de mirante no caminho para Visconde de Mauá (Fonte – Divulgação).

Sua visão sinaliza para mim o fim da Mantiqueira. A partir das encostas do Maromba voltadas para Mauá, a Mantiqueira jamais atingirá suas altitudes anteriores. Ela pode existir com beleza nas terras do interior mineiro, e sob diversos nomes e condições.

Mas, ao longo do seu eixo longitudinal, vale dizer desde o Marins até o Itatiaia, a Pedra Selada será a sua última manifestação. E seu relativo isolamento, oposto ao enorme arco de serras elevadas ao seu redor, parece um estranho sinal de mudança. No rumo que a Mantiqueira seguiu, você só encontrará as formações da Serra do Mar, incluindo os Órgãos e a Bocaina.

Não sei se Seu Alcibide ainda é vivo, há tantos anos não o visito. Sua casa fica logo ao lado da Pedra Selada, perto de um campo de futebol.

Um dia, se casou com uma moça nova e bonita. Cheguei lá e não o vi – e ela aproveitou para desmerecê-lo. Apesar de rude, ele sempre foi gentil comigo, eu não deixava de lhe dar uma ajuda sempre que visitava a Pedra Selada.

Esta era a vista da base da Pedra Selada. Acredito que suas encostas tenham sido bem desmatadas.

Sua rampa não é tão longa, mas é bastante íngreme. O único acidente na trilha é uma casinha para captação d’água. O aspecto da trilha é bem usual, com árvores e touceiras sendo substituídas por pedras e arbustos à medida que ganha altura. Mas não o visual lá em cima, a 1.755 metros, que é soberbo.

Olhando para trás, você verá a couraça do Maromba, onde termina o platô elevado do Parque Nacional de Itatiaia – com sorte, num dia limpo, avistaria a cruz do topo do Agulhas Negras, se ela ainda existisse. Sou favorável a esses cruzeiros de cume, como que valorizam as nossas conquistas. Mas desde que não sejam horrendos, como infelizmente é a maioria.

Visto do alto da Pedra Selada, o mosaico dos campos mineiros no sopé da Mantiqueira parece um tapete (Fonte – Divulgação).

Em frente, sua vista alcançará as terras planas do Vale do Paraíba e, mais além, a grande corcova azulada da Serra da Bocaina. Esta é uma continuação da Serra do Mar, como que sobreposta a ela por uma certa extensão. Em sentido oposto, as extensões mineiras, verdes e onduladas, onde talvez você possa descortinar algum vilarejo imerso na natureza.

Não vá tão cedo embora, aproveite parado esse encanto único que o isolamento confere aos cumes das montanhas

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Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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