A escalada em gelo exige conhecer o terreno e saber instalar proteções adequadas. Termos como verglas, gelo em “couve-flor” e gelo quebradiço ajudam a descrever o que se vê, mas aprender os nomes não basta para avaliar a confiabilidade de uma ancoragem.
A experiência prática, a formação técnica e a leitura das condições são fundamentais. As ilustrações desta publicação apresentam uma montagem histórica; a escolha e a execução da ancoragem precisam acompanhar as instruções dos equipamentos e as condições encontradas.

Figura 1. Montagem ilustrativa da publicação original — Fonte: PlanetMountain. A configuração deve ser avaliada para o terreno e a direção das cargas.
Onde posicionar uma ancoragem
A avaliação deve considerar três aspectos em conjunto:
- Qualidade e espessura do gelo: gelo aparentemente sólido pode conter camadas frágeis, fissuras ou vazios.
- Exposição: observe o terreno acima e os perigos de queda de gelo ou rochas.
- Posição e direção das cargas: considere a linha de escalada, o local da parada e como o sistema será solicitado.
O material técnico da Petzl sobre parafusos, paradas e V-threads destaca a qualidade e a estrutura do gelo, o terreno acima e as variações recentes de temperatura. As técnicas devem ser praticadas com acompanhamento profissional antes do uso independente.
Parafusos de gelo e Abalakov
Os parafusos de gelo são proteções removíveis que também podem participar da montagem de uma parada. Já o Abalakov, explicado neste outro artigo, utiliza orifícios no próprio gelo. São recursos diferentes, com exigências próprias de execução e material.
Na Loja AltaMontanha, o Parafuso de Gelo Black Diamond Turbo de 16 cm é uma opção para compor o equipamento conforme a rota e o procedimento escolhido. O comprimento precisa corresponder à espessura e à qualidade do gelo: um parafuso de 16 cm não é uma escolha universal nem substitui automaticamente um longo para a construção de um Abalakov.
Os ensaios da Black Diamond sobre parafusos parcialmente expostos mostram a perda de resistência quando parte do tubo fica fora do gelo. Foram realizados em gelo de laboratório, homogêneo; os resultados não garantem o desempenho de uma instalação em gelo natural. A recomendação é escolher um comprimento que permita a instalação adequada, em gelo de boa qualidade, seguindo o manual do modelo.
Montagem e distribuição de cargas

Figura 2. Detalhe de uma montagem com fita tubular — Fonte: PlanetMountain. A imagem não substitui formação nem conferência do sistema.
Uma parada com dois parafusos precisa considerar a confiabilidade de cada colocação e o comportamento do conjunto. O posicionamento vertical e a distância de 30 cm apresentados na versão original não constituem uma regra suficiente para qualquer situação. Os pontos não se tornam confiáveis apenas por estarem na posição mostrada em uma figura.

Figura 3. Exemplo de ângulo entre os braços da ancoragem — Fonte: PlanetMountain. Ângulo pequeno, sozinho, não garante divisão igual de cargas.
O ângulo entre os braços influencia as forças nos pontos. Em um modelo idealizado, estático e simétrico, com os dois braços igualmente tensionados, a força em cada braço é F = W / [2 × cos(θ/2)], sendo W a carga total e θ o ângulo entre os braços. Assim, a 60° cada braço recebe aproximadamente 58% de W; a 90°, cerca de 71%. Aumentar o ângulo aumenta essas forças.
Esse cálculo explica o efeito geométrico, mas não prevê a resistência do gelo nem garante uma divisão igual em uma montagem real. Direção de tração, comprimentos, rigidez, folgas e configuração também importam. Um ângulo agudo não produz, por si só, uma distribuição “ideal”.

Figura 4. Exemplo ilustrativo de ângulo de 60° — Fonte: PlanetMountain.
Os ensaios da DMM sobre fitas em ancoragens mostram que configurações chamadas de “autoequalizadas” podem gerar carga adicional no ponto restante quando outro falha. A folga em um sistema de fitas também pode produzir forças elevadas durante uma queda. Por isso, dois nós limitadores ou uma fita previamente montada não garantem que a consequência de uma falha esteja controlada.

Figura 5. Exemplo ilustrativo de ângulo de 90° — Fonte: PlanetMountain.

Figura 6. Exemplo ilustrativo de ângulo maior que 90° — Fonte: PlanetMountain.
Seleção e conferência do equipamento
Dois parafusos, três mosquetões de rosca e uma fita tubular descrevem a montagem ilustrada no artigo original; essa lista não representa o equipamento completo para qualquer escalada em gelo. Quantidade, comprimentos e configuração devem ser definidos conforme a rota, as paradas, a descida e a técnica aprendida.
Uma instrução da Petzl para os parafusos LASER, LASER SPEED e LASER SPEED LIGHT orienta escolher gelo espesso e homogêneo, evitar trechos moles, aerados ou fissurados e adequar o comprimento à espessura. Também exige conferir dentes, roscas, desgaste, corrosão e deformações. Para outro fabricante ou modelo, consulte suas próprias instruções de instalação, compatibilidade e inspeção.
Preparar o equipamento pode ajudar na organização, mas cada montagem precisa ser conferida no local. Se as condições não permitem uma proteção confiável, a quantidade de material não resolve essa limitação.
Fonte e fotos da publicação original: PlanetMountain, artigo de Carlo Gabasio.
Referências técnicas da atualização: Petzl, Black Diamond e DMM, indicadas ao longo do texto.







