João, que já havia escalado o Monte Elbrus aos 15 anos, enfrentou dificuldades de aclimatação antes de chegar aos 6.088 metros da montanha boliviana ao lado dos pais
Aos 16 anos, o brasileiro João Antônio Barros Zola alcançou o cume do Huayna Potosí, uma montanha clássica de 6.088 metros localizada na Cordilheira Real, na Bolívia. Ele estava acompanhado de seus pais Fábio Zola e Patrícia Azevedo Barros Zola e do guia brasileiro Lucas Sato. Com essa conquista, ele se tornou o brasileiro mais jovem a chegar ao topo dessa montanha, em uma expedição marcada não apenas pela altitude, mas também pela superação de dificuldades que quase fizeram o adolescente desistir do objetivo.

Família reunida na montanha. Foto: Arquivo pessoal
Para João, porém, a importância da experiência não está apenas no cume alcançado ou no título de brasileiro mais jovem a fazê-lo. “Para mim as montanhas representam experiências únicas que simbolizam e valorizam não só a conclusão do objetivo, mas também a experiência e rigorosa jornada para alcançá-lo.”
João já tinha uma experiência anterior em alta montanha: no ano passado, aos 15, recebeu dos pais o convite para escalar o Monte Elbrus com 5.642 metros, na Rússia, como presente de aniversário. Após essa primeira experiência, João passou a desejar alcançar uma montanha com mais de 6 mil metros de altitude.
A oportunidade apareceu quando seus pais decidiram realizar o Huayna Potosí como parte da preparação para viagens futuras. “Minha mãe e meu pai já tinham experiências com o montanhismo, e iriam subir o pico do Huayana Potosi como treino para as próximas viagens. Então quando a oportunidade apareceu, eles me convidaram a ir com eles, e como eu ja tinha a experiência com o Elbrus, eu aceitei a viagem”, contou ele.

Toda a família na base da montanha. Foto: Arquivo pessoal
Do alto rendimento na piscina à alta montanha
De acordo com João a preparação física não foi o principal desafio para a expedição. Ele pratica natação de alto rendimento, modalidade que faz parte de sua rotina de treinamento. Embora natação e montanhismo exijam capacidades físicas bastante diferentes, o condicionamento adquirido nas piscinas ajudou o jovem montanhista a enfrentar a parte física da escalada.
Ele conta que sentiu mais a exposição da montanha. “A altura, que elevava a mais de 6.000 metros, ainda foi amedrontadora e inspiradora”, relata João.

João também encarou o treinamento de escalada em gelo. Foto: Arquivo pessoal
Mas o jovem sabia que o Huayna Potosí seria um desafio diferente daquele encontrado no Elbrus. Além de alcançar uma altitude maior, a expedição exigiria um período mais longo de aclimatação. Por isso, antes da tentativa de cume, João e sua família passarram por um período de aclimatação com mais dias no campo-base.
A diferença entre os ambientes também foi grande. Antes da viagem à Bolívia, a família estava em uma praia, ao nível do mar. Assim, em pouco tempo, o organismo precisou se adaptar a altitude e seus efeitos. O próprio João contou que sentiu esses efeitos. “Durante a aclimatação eu tive algumas crises insatisfatórias, com dores de cabeça, baixa oxigenação sanguínea e alguns sonhos estranhos, que fizeram eu desistir do primeiro pico que iríamos, e quase da viagem inteira”, contou ele
Os pais perceberam que o filho não estava se aclimatando adequadamente e decidiram, em conjunto, que ele não faria o primeiro cume. João permaneceu descansando e realizou atividades menos intensas enquanto continuava o processo de adaptação.

Caminhada de aclimatação na região do Tarija e Pequeno Alpamayo. Foto: Arquivo pessoal
Segurança antes do cume
A experiência da família também revela uma preocupação central em expedições de alta montanha, onde chegar ao cume é apenas uma possibilidade dentro do planejamento, enquanto voltar para casa é o objetivo principal.
Mas os pais de João afirmam que nunca trataram o montanhismo como uma atividade baseada no impulso. “Não tivemos medo de levá-lo porque acreditamos que o montanhismo é um esporte de estratégia, preparação e consciência. Nada é executado por impulso. Tudo é planejado pensando na segurança em estar de volta para casa”, explicam.

A família com o Huayna Potosí ao fundo. Foto: Arquivo pessoal
Eles contaram ainda que antes das expedições, eles apresentaram ao filho informações sobre a montanha, os desafios, o clima e até as temperaturas esperadas. Para os Fábio e Patrícia, acompanhar um filho em uma expedição desse tipo acrescenta uma responsabilidade diferente. “Como pais, temos que estar fortes e passar confiança e segurança a ele. Temos preocupação a mais, ficamos mais atentos, mais alertas a qualquer situação anormal, tanto da montanha quanto do próprio João.”
Montanha também é trabalho em equipe
Entre as lembranças mais marcantes de João estão os momentos em que o guia reduziu o ritmo para acompanhá-lo. Isso aconteceu tanto durante as primeiras caminhadas de aclimatação como também no dia do cume, o que segundo ele foi fundamental para se sentir mais seguro.
“Passaram um sentimento de união da equipe, lembrando que não éramos cada um por si, mas sim um grupo unido, que se ajuda em momentos de necessidade”, conta.
Ele contou ainda que a experiência em um ambiente tão extremo, permimiu que eles se conhecem ainda mais e fortalece-se a relação entre eles. “Fazer uma expedição dessas com meus pais não só mostra como são estáveis nossos laços, mas também os fortalece mais ainda”, afirma João.
O cume
Depois das dificuldades no ínicio da aclimatação e de quase desisitir da expedição, a chegada ao cume teve um significado especial. “Foi o momento em que todo o esforço, disciplina e motivação resultaram nessa incrível recompensa. Após alguns momentos de nenhum pensamento fluir na minha cabeça ao observar a beleza da vista, eu pensei: ‘Eu consegui’.”

Pai e filho chegadno ao cume. Foto: Arquivo pessoal
Apesar de o Elbrus ter sido sua primeira experiência em uma grande montanha, João considera o Huayna Potosí um desafio maior. “Eu diria que escalar o Huayna Potosí foi mais difícil que o Elbrus, pois após a ida à Rússia nós não achávamos que iríamos passar tanto frio na Bolívia”, disse ele.
Segundo ele, as condições de hospedagem também eram diferentes. Na Rússia, a estrutura de contêiners utilizada durante a expedição era mais protegida das baixas temperaturas. Enquanto que na Bolívia eles ficaram em domos, uma espécie de barraca que serve como abrigo. “Na Bolívia nós pegávamos intensas temperaturas, marcando até -8 graus dentro dos nossos domos”, relata.
Para os pais, uma conquista diferente
Enquanto João fala sobre disciplina, dificuldades e a sensação de alcançar o cume, os pais enxergam a experiência também como parte da formação do filho. Para eles, levar João para a montanha significa permitir que ele conheça lugares e culturas diferentes, enfrente desafios e descubra seus próprios limites.
“Fazê-lo viver seus desafios, lidar com frustrações, medos, descobrir seus limites, assim como acreditar na sua capacidade de fazer e ser. E o melhor de tudo, estar em família e saber que estamos ali ao seu lado para qualquer apoio.”
De acordo com eles, a experiência de poder acompanhar a evolução do filho durante a expedição foi ainda mais significativa do que a própria chegada ao cume. “Vê-lo passar por todas as etapas da montanha, cansaço, dor, sono, frio, e continuar, se manter emocionalmente estável aos 16 anos nessa situação, é um orgulho sem medida”, contou os país. “E penso… nada vai “derrubar” meu filho, e se “derrubar” tenho certeza que vai saber se reerguer e recomeçar, quantas vezes forem necessário”, completaram.

A escalada durante a madrugada. Foto: Arquivo pessoal.
Para a família, a montanha também funciona como uma experiência de aprendizado sobre planejamento, responsabilidade e respeito à natureza. “Expor a desafios na natureza, onde a inteligência não é artificial e a energia não é elétrica, ensina muito sobre respeito à natureza e suas forças, planejamento de suas atividades que determina sua segurança e determinação com responsabilidade que o leva ao sucesso da expedição.”
Depois do Elbrus e do Huayna Potosí, João já tem outro objetivo em mente. O próximo sonho da família é chegar ao Monte Vinson, na Antártida, ponto mais alto do continente, com 4.892 metros.
“Não pela sua altura ou dificuldade, mas pela autenticidade que ela tem, e simplesmente por ser uma viagem única e inesquecível, já que foram poucos que já visitaram o local, ainda mais o pico da montanha.”







