Vulcões

0

Shiva é um deus do hinduísmo conhecido como destruidor. Mas Shiva destrói para construir, por isso é considerado também renovador. Shiva está intimamente associado ao fogo, pois este representa a transformação. Nada que o fogo toque permanecerá o mesmo. E nada de que Shiva se aproxime ficará para sempre igual.

Para que o relevo se renove internamente é necessário que ele seja destruído. E duas são as forças internas transformadoras. O tectonismo resulta na movimentação das placas que formam o assoalho do relevo, quando se aproximam ou afastam entre si. O vulcanismo, que também vem de um deus, Vulcano,  expele as entranhas aquecidas da matéria, funcionando como uma ligação entre o interior e a superfície do planeta.

Os deuses Shiva do hinduísmo e Vulcano dos romanos.

O mundo sem a ação de Shiva, da tectônica ou do vulcanismo é um mundo morto.

Acho que há dois aspectos dos vulcões que despertam a reverência dos homens. Primeiro, eles são montanhas, em geral monumentais, e suas elevações parecem espantosas. Segundo, ao emitirem fogo e lava, demonstram a enorme força interior que os anima. Assim, foram com frequência associados aos poderes divinos.

Mas, por sua força destrutiva, os vulcões costumam ser detestados pelos povos que padecem ou temem seus efeitos. É como acontece com as feras selvagens. Mas os vulcões apenas conectam a crosta com o manto terrestre. Vou explicar.

Quando nosso planeta se formou, o ferro, que é o metal mais pesado, condensou-se no seu interior, formando o núcleo da Terra. Este é extraordinariamente espesso, quente e denso. O manto é a casca ou camada seguinte, também grossa, mas naturalmente menos quente e densa. A parte superior do manto é formada pelo magma fluido e este é o verdadeiro vilão da história, se houver algum.

Magmas são rochas fundidas compostas por sílica e gases, mantidas sob enormes pressões e altíssimas temperaturas. Acumulam-se em câmaras magmáticas a uma centena de km da superfície. Evidentemente, são criaturas confinadas ansiando por escapar para a liberdade do exterior.

O interior da Terra.

Mas sobre o manto flutua inocentemente a crosta terrestre, formada por rochas sólidas. Pode ser mais densa e rasa nos oceanos ou mais leve e profunda nos continentes.

Veja que ela costuma ter 5 km abaixo dos mares e 50 km nos continentes. Mas ela não é contínua, dividindo-se em inúmeras placas – é o movimento convergente ou divergente destas que origina acidentes como montanhas e fossas ou catástrofes como terremotos e erupções.

Num certo sentido, o funcionamento de um vulcão é fácil de ser entendido. Situado nas bordas das placas tectônicas, ele resulta das fendas criadas pela movimentação destas, seja se afastando ou convergindo e mergulhando umas sob as outras.

Ou então nos pontos quentes (hotspots), quando a pluma de magma chega a se aproximar da crosta, sem precisar se situar num limite de placa. Então, num ou noutro caso, o magma extravasa para a superfície. Acontecem manifestações secundárias de vulcanismo sob a forma de gêiseres, fumarolas e fontes termais.

Veja que, na figura, foi representado o vulcanismo de erupção central. Existe também o vulcanismo de fissura, quando o magma flui não pelo conduto cilíndrico, mas através de fendas na crosta terrestre. Nos últimos dois milhões de anos, formaram-se pelo menos dez mil vulcões, dos quais hoje cerca de vinte permanecem ativos.

O funcionamento de um vulcão.

Os vulcões seguem quase sempre as placas tectônicas. Acredita-se que 60% dos vulcões ativos pertençam ao Anel de Fogo do Pacífico, pelo choque naquela enorme região entre as placas oceânicas e continentais.

Porém o evento mais comum, em 80% dos casos, é o afastamento oceânico (e submerso) da placas, por cujas fendas o magma é expelido no fundo do mar, porém normalmente sem explosão e às vezes sem registro.

É interessante notar que, em menos de 10% das vezes, existem vulcanismos nos interiores das placas, não só nos bordos.  Isso acontece na presença dos hotspots já comentados. Dado que a placa se move mas o ponto quente permanece fixo, aparecem na superfície vários vulcões alinhados no sentido do movimento da placa.

E cada qual costuma ser mais jovem do que aquele que sucede. Por exemplo, nas ilhas do Havaí, os vulcões antigos a NW têm 5 milhões de anos e os recentes a SE, menos de ½ milhão. Também na Islândia os vulcões aparecem alinhados ao longo das fendas, nas duas placas que convergem sobre o país.

Sabemos que os vulcões expelem lava. A sua composição é importante, pois se a lava é máfica ou básica, com conteúdo basáltico, sua fluidez a faz escoar com pouco risco por longas distâncias – são as erupções efusivas, como na Islândia e no Havaí.

Mas se é félsica ou ácida, baseada na rocha obsidiana, então é muito viscosa, solidifica rapidamente e causa detonações ao obstruir as chaminés – são as erupções explosivas, que ocorrem por exemplo no Japão e nas Filipinas.

É comum os vulcões terem bonitos perfis cônicos. Existem formações que expelem enormes quantidades de lava, que gradualmente constroem montanhas largas com o desenho de um escudo, são os chamados vulcões escudo. Deles o maior é o Mauna Loa, com 9 mil metros desde o fundo do mar de onde emerge.

O vulcão escudo Mauna Loa no Havaí.

O estratovulcão Klyuchevskaya Sopka na Rússia.

Comparação.

Os estratovulcões são grandes edifícios que surgem pela longa atividade intercalada das emissões explosivas de lava e de tefra. A lava é a rocha em fusão e a tefra é a rocha sólida – seja na forma de cinzas, cascalhos ou blocos. Como esses são processos violentos, é comum acontecerem colapsos dos seus cumes. Exemplos desses vulcões dramáticos são o Teide nas Ilhas Canárias e o Fuji no Japão.

Mas as maiores estruturas vulcânicas são as caldeiras, que resultam dos desabamentos dos tetos das câmaras magmáticas, seja pelo esvaziamento do seu magma e pelo peso das camadas superiores. As depressões de Yellowstone nos Estados Unidos e do Cerro Galán na Argentina são exemplos notáveis. Yellowstone repousa sobre o maior reservatório de magma do mundo – sua erupção arrasaria metade dos Estados Unidos e rebaixaria a temperatura de todo o planeta.

A caldeira de Yellowstone (EUA) tem 90 km de comprimento.

Mas já comentei sobre os vulcões submarinos, cuja atividade nem sempre é percebida, limitando-se a meros abalos sísmicos na superfície da água. Porém, em alguns casos, o vulcanismo ultrapassa o nível do oceano, formando surpreendentes ilhas, como Santa Helena no Atlântico e Galápagos no Pacífico.

Mas há vários aspectos benéficos associados ao vulcanismo. É bem possível que a vida primitiva tenha aparecido junto a fontes termais e piscinas vulcânicas. A própria água teria surgido a partir da expulsão dos vapores vulcânicos. Coube aos vulcões primitivos a liberação de dióxido de carbono, que aqueceu a atmosfera e favoreceu a vida – pois no início, o Sol era menor, com insuficiente emissão de calor.

Mesmo depois, no período Pré Cambriano, a Terra era coberta por gelo. A emissão de metano e gás carbônico vulcânico gerou um mecanismo de efeito de estufa que foi derretendo o gelo e redesenhando a crosta do planeta.

O fim do Cambriano foi muito conturbado, com violentas oscilações climáticas, em parte geradas pelo vulcanismo. Elas criaram um avanço colossal na diversidade bioquímica, que de alguma forma viemos a herdar.  

O surgimento da vida na Terra primitiva.

Mesmo hoje, o vulcanismo traz efeitos favoráveis, como a formação de novas ilhas e mesmo montanhas. Os minerais por ele liberados ajudam a enriquecer o oceano e a fertilizar o solo. Existem valiosas jazidas minerais associadas aos vulcões – os metais estão relacionados a materias magmáticos encontrados nas raízes dos vulcões extintos. E a energia geotérmica é extremamente útil e barata. Os cientistas dizem que a Terra estaria desolada sem os vulcões.

Mas é óbvio o risco trazido pelo vulcanismo. A maior das extinções em massa, a do Permiano, foi causada pela atividade vulcânica. Erupções vulcânicas devastam o ambiente, produzem gases tóxicos e chuva ácida, emitem cinzas que afetam a vida e a insolação, acarretam incêndios, inundações e maremotos.

O termo supervulcão foi criado a partir de um programa da TV inglesa BBC. Refere-se aos vulcões que produziram ao longo da história as maiores erupções e catástrofes. Majestosos e imprevisíveis, segue a relação dos principais desses colossos naturais:

Supervulcão Local Data (anos atrás) Volume Expelido
La Garita Estados Unidos 28 milhões 5.000 km3
Lago Toba Indonésia 74 mil 2.800 km3
Yellowstone Estados Unidos 2 milhões 2.500 km3
Atana Chile 4 milhões 2.500 km3
Taupo Nui Nova Zelândia 340 mil 2.000 km3
Cerro Guacha Bolívia 5.700 mil 1.300 km3
Cerro Galán Argentina 2.500 mil 1.050 km3

 

Como comparação, o Everest tem um volume de 25 km³, o Lago Titicaca possui quase 1.000 km³ e o Rio Amazonas, 4.800 km³.

E qual poderá ser o próximo supervulcão? Há suspeitas sobre os vulcões dos Lagos Toba, na Indonésia e Maule, no Chile. Mas os temores mais concretos abrangem uma formação não longe do Vesúvio na região de Nápoles, os Campi Flegrei, que entrou em erupção pela última vez quase cinco séculos atrás.

Mas o maior de todos os riscos permanece sendo Yellowstone, uma gigantesca caldeira, como você viu, que já irrompeu quatro vezes – e talvez nos venha assombrar pela quinta vez.

Compartilhar

Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

Deixe seu comentário