No montanhismo brasileiro existe certo preconceito contra o uso de bastões de trekking. Na minha experiência, a resistência a equipamentos novos também tem relação com o que vivemos nos anos 1980 e 1990: por muito tempo tivemos pouco acesso aos produtos importados e às mudanças na forma de utilizá-los.

Uso de bastão de caminhada no Aconcagua. Foto: Rurik Tulio
Naquela época, apenas para dar um exemplo, utilizávamos até corda de caminhoneiro para escalar e coturnos militares desconfortáveis, que não raro deixavam nossas unhas pretas no final de uma trilha. Isso é uma lembrança de práticas antigas, não uma recomendação: a escalada exige cordas e equipamentos próprios para a atividade. Com a chegada de equipamentos de qualidade, o pessoal acostumado ao “quanto pior, melhor” torceu o nariz e achava que tudo aquilo era uma grande “frescura”. Os bastões de trekking também foram alvo dessas críticas.
Para complementar este artigo, sugerimos este vídeo:
Sou adepto do uso de bastões de trekking desde 2001, quando comprei um par da marca Komperdell. Confesso que antes disso também achava uma frescura utilizá-los. Comecei a mudar de ideia depois de viajar por seis meses pela Patagônia e observar de perto outros caminhantes usando esse equipamento simples.

Hilton Benke usando seus bastões no Cerro Plomo – Chile.
Ao escrever a versão original deste artigo, em 2016, eu relatava uma trajetória de montanhismo sem lesões. Gosto dos bastões e os considero úteis nas minhas caminhadas, mas essa experiência pessoal não demonstra que tenham sido responsáveis por evitar lesões. Técnica, condicionamento, carga da mochila e condições do terreno também fazem diferença.
Quais são as vantagens dos bastões de trekking?
- Oferecem pontos adicionais de apoio e ajudam no equilíbrio.
- Permitem distribuir parte do esforço entre pernas, braços e ombros.
- Ajudam a estabelecer um ritmo de caminhada.
- Podem auxiliar em terrenos irregulares e na avaliação de um ponto de apoio, sem dispensar atenção ao caminho.
- Em uma travessia de água já avaliada como segura, podem oferecer apoio adicional. Não tornam segura uma travessia com correnteza forte ou nível de água elevado.
- Em barracas e toldos projetados para isso, podem funcionar como suportes. É preciso conferir o projeto e o comprimento exigido pelo fabricante.

Há pesquisas sobre a redução de cargas nos joelhos durante descidas. Um estudo de Schwameder e colaboradores, de 1999, avaliou oito homens caminhando numa rampa de 25° e encontrou reduções de 12% a 25% em diferentes medidas de força e momento articular. São resultados de condições específicas, não uma redução garantida para qualquer pessoa ou trilha, nem prova de prevenção de lesões.
Também não cabe prometer uma economia ou um aumento fixo de 20% no gasto energético. Movimentar os braços muda a distribuição do esforço, mas a sensação de cansaço varia. Quem tem dor ou uma lesão deve buscar avaliação profissional; os bastões não substituem tratamento. Tampouco devem ser usados para cutucar cobras ou outros animais.
Como usar um bastão de trekking?
Não adianta carregar o equipamento sem aprender a usá-lo. Vejo muitas vezes pessoas apenas conduzindo os bastões, sem aproveitar seus pontos de apoio. Comece em terreno fácil, pratique os movimentos e observe se o ajuste está confortável. Cansaço nos braços pode envolver adaptação, ritmo e regulagem; não significa, sozinho, que você esteja fazendo tudo errado.
Regulando a altura
Há bastões telescópicos, dobráveis e de comprimento fixo, com diferentes faixas de tamanho. Confira se o modelo atende à sua estatura. Em terreno plano, o cotovelo próximo de 90° é uma referência inicial. Encurtar nas subidas e alongar nas descidas pode melhorar o apoio, sempre dentro da faixa permitida.
Nunca ultrapasse a marca STOP ou o limite de extensão. Não abra a haste inferior “até o fim” como regra geral. Distribua os ajustes conforme o manual do modelo, feche as travas e confira se as seções ficam firmes antes de caminhar.
Ilustração do ajuste: o cotovelo próximo de 90° é uma referência para terreno plano, não um ângulo obrigatório em qualquer situação.
Usando os bastões como pontos de apoio
Imagine uma descida com mochila: os bastões oferecem mais lugares para apoiar o corpo enquanto você dá os passos. Fazendo uma comparação tosca, é quase como ligar um 4×4 numa subida. A comparação ajuda a entender a utilidade, mas não significa que o equipamento possa suportar qualquer carga ou evitar uma queda.
Adapte o movimento ao terreno e mantenha os apoios firmes. Evite forçar lateralmente um bastão preso entre pedras. Se um trecho exige usar as mãos, guarde os bastões para que não atrapalhem.
Ilustração de movimentos em diferentes terrenos. Ajuste o ritmo e os pontos de apoio às condições da caminhada.
Conhecendo as partes do bastão
Manopla: é onde se segura o bastão. Pode ser de cortiça, espuma, borracha ou plástico. A alça complementa a empunhadura; ajuste-a conforme o manual, sem apertar excessivamente a mão.
Tipos de manoplas de bastões de trekking.
Hastes: são as seções que formam o corpo do bastão. A construção e a quantidade de segmentos variam entre modelos. Alumínio, fibra de carbono e combinações dos dois aparecem no mercado; compare peso, tamanho guardado e uso previsto.
Rosetas: limitam a penetração da ponta em terreno mole. Existem versões para lama e neve; confira quais acompanham o produto e quais são compatíveis.
Exemplos de rosetas de bastões de trekking.
Ponteiras: podem ser de aço ou de materiais como carboneto de tungstênio. Carboneto não é a mesma coisa que fibra de carbono. O desgaste exige inspeção, e uma peça de reposição deve ser compatível com o modelo.

Imagem de uma ponteira Black Diamond presente na versão original do artigo. Não indica disponibilidade atual nem compatibilidade universal.
A borracha não serve apenas para transporte: há pontas próprias para superfícies duras ou sensíveis. Escolha o acessório adequado ao piso e às regras do local; confira sua fixação.
Travas de rosca e de presilha: cuidados
Travas internas de rosca e presilhas externas são dois sistemas comuns. A presilha facilita o ajuste visual, mas ambos precisam de inspeção. Verifique folgas, desgaste e fixação antes da saída; não force uma peça emperrada.
Não aplique WD-40 ou óleo nas travas como manutenção de rotina. A LEKI orienta não usar lubrificantes, óleos ou gorduras em seus bastões telescópicos. A limpeza e a secagem devem seguir o manual do seu equipamento. Presilhas também exigem cuidados: não são peças livres de manutenção.
Modelos disponíveis na Loja AltaMontanha
Atualizamos as sugestões da versão antiga com opções que tinham estoque na consulta desta revisão. Compare a faixa de ajuste e a forma de transporte antes de comprar:
- Naturehike Trail Lite: telescópico em alumínio 6061, com trava externa. A ficha da loja informa 62–135 cm e 255 g por unidade. É uma opção para começar no trekking e em trilhas leves. Vendido por unidade: para montar um par, compre duas unidades.
- Naturehike Lightweight Carbon UL: dobrável, com alumínio 7075 e fibra de carbono. Segundo a ficha da loja, pesa aproximadamente 225 g e mede 36 cm guardado. Há versões de 103–120 cm e 115–135 cm; escolha a faixa adequada. Também é vendido por unidade.
Os vídeos e as imagens do artigo incluem equipamentos apresentados em outras épocas. Para os modelos atuais, confira a ficha do produto e os acessórios incluídos.
Aprenda a ajustar seus bastões e aproveite seus pontos de apoio nas caminhadas.
Veja também as opções de bastões de trekking na Loja AltaMontanha. Comprar na loja ajuda a manter o conteúdo do portal no ar.
Referência complementar: REI – escolha, ajuste e acessórios de bastões.









