Brasileiros no Manaslu: como foi a expedição marcada por recorde de permissões e nevascas intensas

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Vanessa Oliveira, Walmor Pepe Fiamoncini e Juliano Lorne tentaram chegar aos 8.163 metros do Manaslu em diferentes expedições, mas encontraram uma montanha cada vez mais carregada de neve, avalanches e condições meteorológicas adversas.

Manaslu em 2026. Foto: Pepe Fiamoncini

Durante a temporada de outono no Himalaia, três montanhistas brasileiros tentaram alcançar o cume do Manaslu, oitava montanha mais alta do mundo, com 8.163 metros de altitude. Em expedições diferentes e com estratégias distintas de aclimatação e progressão, Vanessa Oliveira, Walmor Pepe Fiamoncini e Juliano Lorne encontraram uma montanha marcada por fortes nevascas, avalanches e uma deterioração progressiva das condições meteorológicas.

A temporada também chamou atenção pela grande quantidade de pessoas na montanha. Segundo o The Tourism Time, foram concedidas 422 permissões para montanhistas extrangeiros divididos em 35 equipes. Pepe Fiamoncini, calcula que houveram mais de mil permissões contando clientes e trabalhadores, o que provocou filas em trechos técnicos da rota.

As filas se formaram em vários trechos, pricipalmente em areas mais ingrímes. Foto: Pepe Fiamoncini

Apesar das diferentes estratégias adotadas pelos brasileiros, nenhum dos três conseguiu alcançar o cume, infelizmente. Vanessa chegou ao Campo 2, a aproximadamente 6.400 metros. Pepe avançou até o Campo 3, a cerca de 6.800 metros, enquanto Lorne chegou a aproximadamente 6.500 metros em sua segunda tentativa.

Os relatos dos três mostram como, ao longo dos dias, a margem para uma tentativa segura de cume foi diminuindo até que a única alternativa fosse abandonar a montanha.

Vanessa: entre a preparação e a necessidade de recuar

Vanessa Oliveira que é treinadora física, vinha se preparando para enfrentar uma montanha de oito mil metros. Seu objetivo no Manaslu era alcançar o cume utilizando oxigênio suplementar. Ainda assim, optou por realizar a aproximação até o campo base caminhando, como parte de sua estratégia de aclimatação.

Vanessa durante a caminhada de aproximação ao Acampemento Base. Foto: Vanessa Oliveira.

Depois de chegar ao acampamento base, ela fez um dia de descanso antes de iniciar a primeira rotação.

“Quando cheguei ao campo base, tirei um dia de descanso antes de iniciar a primeira rotação na montanha. O planejamento era subir ao Campo 1, seguir para o Campo 2, tocar o Campo 3 e então retornar ao campo base. Mas, na montanha, planejamento e realidade nem sempre caminham juntos”, contou.

Na primeira tentativa, durante o processo de aclimatação, Vanessa chegou ao Campo 1, a aproximadamente 5.800 metros. No entanto, a chegada de fortes nevascas fez com que a equipe optasse pelo retorno ao acampamento base.

Vanessa durante o processo de aclimatação no Manaslu. Foto: Vanessa Oliveira

Uma nova oportunidade surgiu posteriormente. Dessa vez, Vanessa avançou com sua equipe até o Campo 2, a aproximadamente 6.400 metros. “Esse acabou sendo o ponto mais alto que alcancei nesta expedição.Talvez uma das maiores dificuldades dessa expedição tenha sido justamente lidar com essa instabilidade. Não foi apenas um desafio físico. Emocionalmente, foi uma experiência muito intensa, porque durante vários dias vivemos entre a expectativa de uma nova janela para subir e a necessidade de recuar diante das condições da montanha” contou Vanessa.

A experiência de Vanessa destaca uma característica que se repete nos relatos dos outros brasileiros: o desafio deixou de ser apenas físico. A dificuldade passou a estar também em tomar decisões diante de uma previsão meteorológica instável e de uma montanha que mudava rapidamente.

Depois de vários dias aguardando uma melhora, Vanessa decidiu encerrar a expedição e retornar a Samagaun, vila próxima ao campo base.

“Encerrar uma expedição como essa não é uma decisão simples. Existe um investimento enorme, não apenas financeiro, mas também físico, emocional e mental. São meses de preparação, expectativas e sonhos colocados naquele projeto. Naturalmente existe uma parte de nós que gostaria de continuar tentando. Mas existe algo que a montanha ensina de uma maneira muito concreta: nós não temos controle sobre tudo”, contou a montanhista.

Para Vanessa, justamente essa falta de controle acabou sendo uma das principais lições da temporada.

“Talvez esse tenha sido um dos maiores aprendizados que o Manaslu me trouxe. Aceitar a impermanência, aceitar que os planos mudam e compreender o quanto somos pequenos diante da dimensão e da força da natureza. Eu não alcancei o cume do Manaslu nesta expedição, mas não considero que tenha voltado de mãos vazias. Muito pelo contrário. Foi uma jornada extraordinária, de muito aprendizado, de encontros, de decisões difíceis e de profundo respeito pela montanha”, finalizou Vanessa.

Pepe buscava o cume sem oxigênio

Enquanto Vanessa utilizava oxigênio suplementar como parte de sua estratégia, Walmor Pepe Fiamoncini tinha um objetivo diferente: chegar ao cume do Manaslu sem utilizar oxigênio suplementar.

Para isso, adotou uma estratégia de aclimatação diferente daquela utilizada pelos grupos comerciais. Depois de portear parte dos equipamentos, ele conseguiu avançar até o Campo 3, a aproximadamente 6.800 metros. Pepe permaneceu 11 dias na montanha. Entretanto, quando a expedição parecia avançar para sua etapa decisiva, uma forte nevasca atingiu a região de maneira inesperada.

Durante a noite, duas estruturas importantes da equipe, a barraca da cozinha e a barraca do refeitório, acabaram colapsando sob o peso da neve. O episódio também mostrou o risco enfrentado pelas demais barracas. Pepe contou que acordou durante a madrugada com um companheiro batendo no teto de sua barraca para retirar o excesso de neve e impedir que ela também fosse soterrada.

Mesmo diante das condições adversas, a equipe ainda permaneceu por mais três dias na montanha, esperando uma possível melhora. A previsão de chegada de um ciclone, entretanto, aumentou a preocupação e sem uma janela segura para continuar, decidiram retornar para Samagaun.

O peso de abandonar meses de preparação

Para Pepe, o fim da expedição foi especialmente frustrante porque representava a interrupção de um projeto que havia exigido meses de preparação. Além disso, parte dos equipamentos deixados nos acampamentos superiores acabou soterrada pela neve. Como ele estava sem porteador, alguns materiais já haviam sido levados pessoalmente para altitudes maiores.

Acampamento antes das fortes nevascas. Foto: Pepe Fiamoncini.

“Foi muito decepcionante, triste, ver todo o processo se perder, e inclusive alguns materiais que ficaram soterrados na neve e nos acampamentos altos. Eu estava sem porteador, mas algumas coisas eu já havia levado para cima. Então, foram desde algumas barracas soterradas, alguns materiais perdidos, até todo o processo de preparo para a montanha, pré-expedição, aclimatação, treinamento de hipóxia, o ganho de peso, preparação física, rotina, deixar de fazer outras provas importantes no Brasil para se dedicar a isso, o dinheiro investido; tudo isso, em muito pouco tempo, tudo cancelado”, contou ele.

Após deixar a montanha, o montanhista conta que ainda existia uma pequena esperança de que, depois da passagem do ciclone, fosse possível retornar à montanha, inclusive para recuperar os equipamentos. Mas com o passar dos dias, porém, a percepção entre os montanhistas que estavam em Samagaun mudou. A montanha já não oferecia uma possibilidade concreta de retomada das expedições.

“Sem chance, a montanha realmente fechou de um jeito que eu nunca vi. E, falando com outros montanhistas, tanto brasileiros como locais, eles nunca viram isso assim em mais de 15 anos, o jeito que a montanha falou”, compeltou.

O próprio acampamento base acabou completamente soterrado. Segundo Pepe, o volume de neve acumulado era tão grande que os equipamentos provavelmente permaneceram presos no gelo, podendo ser recuperados somente durante o verão, quando o derretimento permitir.

Mais de mil permissões e filas na rota

Além das condições meteorológicas, Pepe se surpreendeu com a quantidade de pessoas presentes na montanha durante a temporada.

“Foram mais de mil permissões entre clientes, carregadores e tudo mais, e a formação de muitas filas, principalmente entre o acampamento 1 e 2, em uma parte mais técnica e vertical, onde havia uma ascensão pela corda, que era necessário jumariar, onde fiquei mais de 20 minutos parado.”

Pepe esperando sua vez na fila para passar um dos trechos técnicos. Foto: Pepe Fiamoncini.

A concentração era especialmente significativa nos trechos técnicos entre os campos 1 e 2, onde os montanhistas precisavam utilizar as cordas fixas para ascender. Pepe também presenciou uma avalanche entre os campos 2 e 3, outro sinal de que as condições da montanha estavam se tornando progressivamente mais complexas.

Lorne chegou ao Manaslu já aclimatado

Juliano Lorne chegou ao Nepal depois de uma sequência de ascensões que incluiu o Monte Elbrus, na Rússia, o Monte Lenin, no Quirguistão, e o Kilimanjaro, na África. Já aclimatado e também com o objetivo de realizar o Manaslu sem oxigênio suplementar, Lorne decidiu não fazer uma nova rotação de aclimatação na montanha.

Juliano Lorne no Manaslu. Foto: Juliano Lorne

“No meu caso, como eu vinha dessa sequência de montanhas e já estava aclimatado, o plano era subir sem fazer uma nova rotação. A ideia era avançar um campo por dia, dormindo em cada um deles: sair do campo base para o campo 1, depois seguir para os campos 2, 3 e 4”, contou o montanhista.

Desde os primeiros dias, porém, ele percebeu que as condições poderiam comprometer o planejamento. Foi quando uma avalanche atingiu a região acima do Campo 3 e abaixo do Campo 4, soterrando trechos das cordas fixas.

O brasileiro na cerimônia de Puja. Foto: Juliano Lorne

“No dia 16 de setembro, uma avalanche acima do campo 3, abaixo do campo 4, soterrou trechos das cordas fixas e atrasou o trabalho de abertura da rota. Não houve feridos nesse episódio, mas foi necessário mobilizar outros sherpas e levar mais cordas para recuperar o trecho atingido”, completou.

No dia seguinte, a equipe responsável pela fixação conseguiu restaurar a rota até o cume. Entretanto, a piora do tempo impediu que as demais expedições aproveitassem a abertura.

A neve muda os planos

Quando Lorne se preparava para iniciar sua subida, a nevasca atingiu a montanha de maneira mais intensa do que o previsto.

“A neve caía de forma persistente, com ventos fortes nas partes altas. As barracas foram sendo cobertas, e algumas não resistiram ao peso da neve e colapsaram. Havia relatos de acúmulo ainda maior nos campos 1 e 2, aumentando o risco de novos danos e avalanches”, contou.

Foi nesse contexto que ocorreu uma das principais tragédias da temporada. Na noite de 19 para 20 de setembro, uma avalanche atingiu uma barraca no Campo 3 e matou o escalador alemão de origem indiana Dhruba Jyoti Guha e o guia nepalês Phursemba Sherpa.

Para Lorne, o episódio teve uma relação direta com uma mudança anterior em seu planejamento. “Pelo plano que eu tinha antes, era para eu estar justamente naquele trecho de subida entre os campos 2 e 3, naquela mesma data. Se eu não tivesse mudado o plano, estaria avançando por aquela região quando aconteceu a avalanche”.

As avalanches continuaram e o acúmulo de neve aumentou justamente quando a previsão apontava para a chegada de um ciclone. “A preocupação era a chegada de mais precipitação sobre uma montanha que já estava muito carregada”.

Uma última tentativa até 6.500 metros

Apesar da deterioração das condições, uma pequena janela de aproximadamente três dias ainda abriu espaço para uma tentativa. Lorne seguiu acompanhado pelo PK Sherpa, com a intenção de chegar ao cume sem oxigênio suplementar.

“Antes dessa piora, apareceu uma janela de aproximadamente três dias, e eu tentei novamente seguir em direção ao cume com o PK Sherpa, mantendo a intenção de escalar sem oxigênio suplementar. Durante essa segunda subida, na nossa última tentativa, uma pequena avalanche caiu bem ao nosso lado enquanto passávamos pelas partes técnicas entre o campo 1 e o campo 2. Eu e o PK estávamos ali, na rota, quando isso aconteceu”, contou.

A dupla chegou a aproximadamente 6.500 metros, mas a intensificação da nevasca tornou a progressão insegura. Ao mesmo tempo, a neve voltava a soterrar as cordas fixas, impedindo que as equipes avançassem na abertura da rota para os campos superiores.

Sem uma previsão confiável de dias favoráveis para a escalada, Lorne também decidiu retornar a Samagaun.

Samagaun sob neve, chuva e deslizamentos

A vila, entretanto, também enfrentava as consequências da instabilidade meteorológica. Pepe relata ter enfrentado na região uma sequência de eventos que incluiu terremoto, nevasca, chuva constante, a chegada do ciclone e um deslizamentos de terra.

Segundo ele, em uma das madrugadas, um deslizamento provocou pânico entre os moradores. Pessoas gritavam e corriam, crianças choravam e animais ficaram soltos pelas ruas. Na sequência, um novo deslizamento, ainda maior, aumentou a preocupação.

Pepe descreveu o episódio como: “foi um filme de terror”.

Com o amanhcer foi possível ver o deslizamento. Foto: Pepe Fiamoncini.

Lorne também presenciou esse deslizamento em Samagaun. O barulho assustou os moradores, que chegaram a temer que o deslocamento de terra pudesse estar relacionado ao rompimento de uma barreira de lago glacial e provocar uma inundação repentina.

“O barulho assustou muito os moradores. As pessoas temeram que pudesse ter ocorrido o rompimento da barreira de um lago glacial, provocando uma inundação repentina, um flash flood”, contou.

Felizmente, o episódio não provocou vítimas.

O fim da temporada para os brasileiros

Com as condições meteorológicas deterioradas, os três brasileiros precisaram deixar a região. Vanessa conseguiu sair de Samagaun primeiro. Pepe deixou a vila no dia seguinte e, por último, Lorne conseguiu embarcar em um helicóptero para Kathmandu.

A espera, contudo, não foi rápida. Lorne permaneceu quatro dias em Samagaun aguardando uma oportunidade de voo. “O Pepe saiu primeiro, e eu só consegui embarcar no último voo de helicóptero do dia para Kathmandu, já bem no fim da tarde, depois de quatro dias de espera”, revelou. Pepe havia chegado um pouco antes e ficou sete dias aguardando a passagem do ciclone e uma melhora das condições meteorológicas que permitisse o retorno a Kathmandu.

Para os três brasileiros, o Manaslu terminou não com a conquista do topo, mas com uma experiência marcada por decisões difíceis, riscos concretos e, sobretudo, pelo reconhecimento de que, em uma grande montanha, a estratégia também precisa incluir a capacidade de saber quando parar.

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Sobre o autor

Maruza Silvério é jornalista formada na PUCPR de Curitiba. Apaixonada pela natureza, principalmente pela fauna e pelas montanhas. Montanhista e escaladora desde 2013, fez do morro do Anhangava seu principal local de constantes treinos e contato intenso com a natureza. Acumula experiências como o curso básico de escalada e curso de auto resgate e técnicas verticais, além de estar em constante aperfeiçoamento. Gosta principalmente de escaladas tradicionais e grandes paredes. Mantém o montanhismo e a escalada como processo terapêutico para a vida e sonha em continuar escalando pelo Brasil e mundo a fora até ficar velhinha.

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