Cachu do Diabo: Travessia Guacá – Casa Grande

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Não é de hj q pretendia uma pernada q partisse do asfalto da Rod.Mogi-Bertioga (SP-98) até Casa Grande, 40kms ao norte, via “Barraco da Santa”, vereda q palmilha a crista oeste da Serra do Juqueriquerê. Igualmente era desejo antigo alcançar uma tal “Cachu do Diabo”, queda totalmente desconhecida e sem registro algum, cuja existência nos foi soprada por caçadores q percorrem a supracitada trilha. Pois bem, nesta terceira visita a esta nada conhecida picada extrativista juntamos a fome com a vontade de comer, o q resultou numa belíssima travessia selvagem de dois dias bem andados. E q vislumbra não apenas novas rotas na direção oposta às tradicionais descidas pela Serra do Mar; descortina tb uma belíssima queda cuja “conquista” teve gostinho similar ao de qq cume intocado.

Saltei na Balança na cia do Ricardo por volta das 9:40hrs naquela manhã relativamente ensolarada apesar da nebulosidade q pairava no firmamento. Após alguns ajustes na mochila e coletar água na oportuna bica existente no tradicional ponto situado no km 77 da Rodovia Mogi-Bertioga (SP-98), pusemo-nos a caminhar o tanto de asfalto q nos separava do início da vereda. Num piscar de olhos deixamos os limites de Mogi pra adentrar nos de Biritiba-Mirim e, bem mais adiante, no de Bertioga, conforme aponta a sinalização disposta na margem direita da rodovia. Uma vez nos domínios do Pque Estadual Serra do Mar, não demorou tb pra cruzar o Rio Sertãozinho e, numa curva logo adiante, surgir o gde espigão q serve de contraforte leste do imponente vale do Guacá. Ali pudemos reparar – com algum espanto – o pouco trafego da rodovia prum dia de feriado como um gigantesco deslizamento cortando longitudinalmente a encosta do vale supracitado.
 
O fato é q somente após chinelar quase 8km finalmente chegamos na famosa “Curva da Onça”, situada no km 84,5 da rodovia, nome “não-oficial” pelo qual é conhecida a ponte sobre o Rio Guacá. Deixamos então a cota dos 400m do asfalto apontada pelo GPS do Ricardo pra então mergulhar de vez na mata, numa tradicional picada q sobe a íngreme encosta da montanha. A subida é forte e puxada, afinal são quase 150m de desnível duma vez só, e não demorou pros nossos rostos se encharcarem de suor.
 
Após breve descanso pra retomada de fôlego numa clareira no meio do caminho, a jornada prossegue ainda em forte aclive. Meu descondicionamento é sentido e reduzo o passo, o q me faz atentar pra detalhes da vereda q não estavam da última vez q ali estivera. O gde número de deslizamentos e mata tombada não raramente nos faz perder a vereda e obriga a farejá-la, com sucesso. Mas meus pulmões agradecem mesmo qdo a declividade suaviza até enfim chegar no primeiro pit-stop oficial na cota dos 720m. Naquele simpático córreguinho sentamos nas pedras, bebericamos um suco e mastigamos nosso lanche. É meio-dia naquele bucólico lugar margeado por este pequeno afluente do Guacá, q tem como atrativos uma cascatinha de onde se avista um pequeno desfiladeiro q se esgueira vale abaixo. 
 
A jornada prossegue margeando o rio, chapinhando o brejo q toma conta da trilha, e nossos pés reencontram o chão seco somente após cruzar pro outro lado do córrego, onde novamente ganhamos altitude de forma quase imperceptível. É somente qdo ganhamos a cota dos 800m q nos damos conta q estamos no topo da serra, tocando indefectivemente rumo leste. Dando as costas ao vale do Guacá, estávamos enfim oficialmente na vereda conhecida como “Barraco da Santa” e por ela nos mantemos até o fim, numa sequência de sucessivos sobes e desces daquela abaulada crista. A neblina não tarda em se debruçar naquele cafundó serrano de Bertioga, o q só confere à selva a nossa volta um aspecto mais místico q selvagem.
 
Após uns perdidos devido a (muita) mata tombada no caminho, retomamos a rota certa, q passa a ser sempre pra leste. Os marcos concretados estão onipresentes na trilha pra nos lembrar disso. De repente, tropeçamos com um cara bem no meio da trilha, como q barrando a passagem. Detalhe era q ele trajava roupa camuflada, calçava botas sete léguas e segurava vigorosamente uma baita escopeta, cujo grosso calibre reluzia de tão novo q estava. Acho q ele se assustou bem mais com nossa presença do q nos dá dele, mas quebrado o gelo inicial (e respirando aliviados!) trocamos meia dúzia de palavras q ao menos confirmaram q havia mais caçadores palmilhando a vereda naquele feriado. Além do mais, disse q estava fraco de “caça”, e q só estava dando pra pegar macuco. De qq jeito, percebemos q teríamos q redobrar cuidado com essa raça (caçadores): não apenas pelo fato de poder levar bala perdida no mato, mas deixar bem claro pra eles de q não éramos da polícia ambiental. Afinal, caçar é crime.
 
Prosseguimos nossa jornada pela picada no mesmo compasso, chapinhando entre brejo e lama nas baixadas, alternada com chão seco e compacto nas partes mais elevadas. Assim alcançamos as 14:50hrs na chamada “Pedra da Vivi”, local onde pernoitamos na nossa primeira incursão pro “Barraco da Santa”. Situado na cota dos 820m, o lugar consiste apenas em duas enormes pedras margeando a vereda, e leva esse nome pq naquela ocasião estávamos na cia da gde aventureira (e amigona) Vivi Martins. Ali, naquele bucólico e estreito espaço da vereda, nos brindamos um breve descanso pra retomada de fôlego e continuamos nossa jornada serra adentro.
 
Após andar mais um tanto, as 15:45hrs finalmente chegamos no nosso pto de pernoite, um lugar q atende pelo nome de “Rancho do Plástico Branco”, q nada mais é um acampamento caçador “desativado” (na verdade, destruído pela guarda ambiental), a beira dum belo e manso afluente do Rio Itaguaré. Ali, entre lonas rasgadas, “moveis” construídos com galhos e gravetos, e mtos utensílios domésticos espalhados, acomodamos nossas redes do arvoredo em volta e nos presenteamos com um tchibum merecido naquele belo e frio riozinho.
 
Exaustos pelos mais de 20kms percorridos em terreno irregular, depois de montar acampamento nos limitamos apenas a descansar, preparar nossa janta, de jogar conversa fora, mas principalmente de acertar detalhes da nossa investida na “Cachu do Diabo” (ou do “Benê”), na manhã sgte. Nos recolhemos a nossas respectivos “leitos” bem antes da escuridão se debruçar naquele cafundó serrano situado na cota dos 820m, onde aproveitei pra testar o mosquiteiro da Kampa q ganhei do próprio fabricante. Sinceramente, foi o descanso mais agradável q já tive dependurado, sem ter meu sono perturbado pelo zunido dos onipresentes sanguessugas alados. Dureza apenas foi uma “coceirinha” básica no corpo vez ou outra, resultante dalgum carrapato perambulando pelo corpo. No mais, a noite transcorreu fresca, tranqüila e serena, sem nenhuma intercedência. Choveu de madrugada, mas nada q uma boa lona de bivaque bem esticada não desse conta.
 
O dia sgte irrompe limpo e sem nenhuma nuvem, e não tarda pros fachos do Astra-Rei penetrarem na mata até alcançar nosso acampamento. Ricardo comenta q ouviu um bicho rondando o lugar pela noite, coisa q sequer senti devido ao sono profundo. Levantando então bem mais dispostos, tomamos um rápido desjejum e arrumamos nossas cargueiras num piscar de olhos, pra colocar o pé na trilha pontualmente as 7hrs! 
 
Retrocedemos então pela picada até a última bifurcação em “T”, bem próxima, e dali tocamos  pela esquerda. A partir dali nossa rota começou a descer suavemente pelo q já fora uma velha estrada extrativista tomada pelo mato, escancarado pelo inconfundível corte vertical na encosta esquerda. Tocando pro norte e desviando de algum mato caído no caminho, começamos a azimutar pra cachoeira em questão, q pelos cálculos do Ricardo distava menos de 2km de nossa atual localização. Claro, lembrando q não fazíamos ideia de como seria o terreno nesse 2km e mto menos se haveria picada até lá, algo q não contávamos. Estávamos mesmo era preparados pra rasgar mato até lá! Mas a picada logo sumiu, o q nos fez revirar os arredores atrás dalgum vestígio da mesma. 
Desviamos de algum mato tombado, cruzamos um pequeno córrego e na outra margem encontramos o q parecia ser a continuidade da vereda. Bem batida e óbvia, era td o q precisávamos pois ao menos ia de encontro à posição plotada da cachu, ou seja, pro norte! Foi ai q ouvimos latidos próximos na nossa cola, se aproximando e, de forma instintiva, nos munimos de paus pra esperar o pior. Foi ai q apareceram vários cães da raça “pointer”, de estatura mediana bem curiosos. Decididamente era sinal q naquele feriado a região estava infestada de caçadores! Mas logo “alguém” assobiou no mato e os cachorros voltaram trilha adentro.
 
Dando as costas pros pulguentos prosseguimos nossa jornada pela bem-vinda picada, q reduzia cada vez mais nossa distancia com a almejada cachu. Foi ai q a vereda desembocou na margem gramada dum belo remanso fluvial do Rio Guacá, q corria manso e tranqüilo pela serra, as 8hrs. Era o lugar conhecido como “Prainha Verde”, por conta da grama e capim q forrava a estreita faixa de areia daquele lugar. Cruzamos o rio com água até as canelas sem problemas, afinal, a estiagem do último mês deve ter afetado os rios serranos como um todo. Na outra margem a continuidade da vereda é rapidamente encontrada, e por ela prosseguimos tranqüila e desimpedidamente, sempre pro norte.
 
Tava td muito bom. Bom até demais. O avanço fluía mais rápido e eficaz q o originalmente proposto, mas foi ai q a picada começou lentamente a se afastar demasiado do nosso objetivo. A trilha palmilhada de fato tocava pro norte interminavelmente, mas a queda estava ficando pra trás. Stop! Foi ai q resolvemos retornar e abandonar a picada no pto q nos deixasse o mais próximo da queda, ou seja, no q apenas míseros 700m nos separavam dela. Azimutamos a dita cuja, fizemos o sinal da cruz e seja o q Deus quiser. Lá fomos nós! Adentramos então na mata subindo uma íngreme encosta repleta de vegetação agreste. Bambuzinhos, cipozinho unha-de-gato e td sorte de mata urticante foi vencida na raça, ao mesmo tempo em q nos firmávamos na mesma de modo a escalaminhar aquele morro q se interpunha ao nosso objetivo. Na verdade dois pequenos vales nos separavam da maledita cachu! Uma vez no alto tivemos q desescalaminhar td aquela íngreme piramba, estudando bem a agarra ou o degrau sgte de modo a não rolar morro abaixo.
 
O som de água correndo logo inundou nossos ouvidos, apressamos então o passo e dessa forma emergimos num remanso rochoso do Guacá, as 9:30hrs, bem mais acima da “Prainha Verde”. Aquele lugar era fantástico e mereceu vários cliques: um toboágua de médio porte despejando o precioso liquido num enorme e cênico lago, e td isso emoldurado dum verde de tonalidade vivida e exuberante. A ausência de lixo ali era sinal q o lugar era totalmente selvagem e intocado. Dali nossa rota pra cachu era óbvia, ou seja, rio acima. Bastava apenas subir o rio ou vencer o morro a nossa frente, já q a queda tava do outro lado. Decidimos tocar pelo morro pois, sem trilha, indo pela montanha a trajeto seria bem menor q percorrendo a margem sinuosa do rio.
 
Bordejamos então na ralação a encosta do toboágua apenas pra sair correndo dali, pois um bando de marimbondos carimbou minha cintura e a perna do Ricardo. Cruzamos pro outro lado do rio através dum trecho lajotado no topo do toboágua q permitia travessia seca e em segurança, e na outra margem encontramos vestígios duma picada. A sorte sorria pra gente, pq discreta e com algum mato, o caminho bordejou a margem direita do Guacá um tempo e logo depois tocou montanha acima, felizmente indo de encontro com nosso destino.
 
Do outro lado a vereda desceu sem problemas até se perder por completo. Mas isso não era problema pq estávamos a um passo do nosso destino, pois o rugido da queda tava bem a nossa frente. E após um trecho de desescalaminhada em meio a voçorocas de espessa taquarinha, as 10:20hrs emergimos com mta satisfação nas lajotas q coroam o topo da “Cachu do Diabo” (ou “do Benê”). Diferente dos exagerados 100m q os mateiros afirmavam a queda devia ter pouco mais de 50m, mas isso não tirava sua beleza e imponência. Pelo contrário. O alto da cachu era agraciado por um poço ao sopé duma quedinha menor, enqto a base da cachu estava repleta de poços e piscinas naturebas, de tds tamanhos. De cima avistava-se o Guacá seguindo seu curso sinuoso, afunilado pelo vale pra dar a volta na montanha sgte. Sinal de lixo? Nenhum. Logicamente q nos presenteamos com um bom descanso, lanche e tchibum merecido naquele remanso intocado e legitimamente selvagem.
Mas td q é bom dura pouco, e tal qual conquista de cume tivemos q partir daquele paradisíaco e exclusivo lugar ao exato meio-dia. Ambos chegamos à conclusão q deve ter uma trilha q chegue na base da cachu, mas ela deve ter nos passado desapercebida nalgum pto do caminho. Dessa forma voltamos pelo mesmo caminho percorrido, desviando do trecho com marimbondos e tomando alguns atalhos – na base do rasga-mato – q abreviassem o trajeto até a picada principal. No caminho tropeçamos com outro acampamento de caçador desativado. E pelo visto recentemente dada as condições das tralhas espalhadas em volta.
 
E assim as 12:45hrs interceptamos novamente o “Barraco da Santa”, pela qual tocamos rumo norte e não abandonamos até o final. A picada tava muito bem roçada e batida, e acompanhava visivelmente a encosta das montanhas sgtes. Num trecho subiu um tanto até emergir num raro e pequeno descampado cercado de samambaias com bela vista do vale, um lugar q chamamos de “Varandão”. Mas a vereda logo mergulhou novamente na mata fechada pra não sair dela de vez. Logo adiante cruzou um riacho (q já era audível a um tempo) por sobre o q restou dum pontilhão decrépito, cujo tamanho (de modo a passar veículo pesado) apenas corroborou a conclusão de q estávamos numa antiga estrada de extração de carvão a mto desativada. A assertiva era reforçada a td hora pela presença de calçamento durante a caminhada.
 
Dali em diante nossa rota apenas foi de suave e imperceptível ascensão em meio a mata, sempre pro norte. Água havia de fartura pois sempre a picada cruzava com algum córrego caindo da montanha. Assim nosso avanço foi rápido e ágil naquela oportuna vereda, o q nos fez pensar q terminaríamos a travessia ainda naquele mesmo dia, sendo q tínhamos nos programado pra mais um dia de ralação. Foi qdo trombamos com mais um caçador q nos acompanhou, o Nivaldo, q apenas cunhou nossa suspeita ao confirmar q a serra estava repleta de caçadores naquele feriado e q aquela trilha era a espinha-dorsal de suas andanças a partir de Casa Grande. Além do mais nos deu dicas de outras rotas, algumas rumo litoral, q serão futuramente exploradas, claro.
 
E dessa forma terminamos a pernada antes do cronograma planejado, as 15hrs, qdo emergimos da mata nos fundos dum casebre situado nas dependências de reflorestamentos da Faz. Suzano Celulose, na cota dos mil metros. Final de travessia mas não de rolê, pois ainda tínhamos mais de 12km de estradão pela frente até o Bairro da Terceira, onde quiçá houvesse bus. Mas ali, naquele cafundó da Sabesp onde estávamos naquele momento dificilmente conseguiríamos frete e mto menos transporte público.
 
Após andar um tanto de estrada e com o Ricardo se queixando de dor na perna (a picada de marimbondo causara reação alérgica-inflamatória nele), a sorte sorriu novamente qdo surgiu um tiozinho num caminhão e nos ofereceu carona até Biritiba-Mirim! Foi ai q ele nos informou q estávamos mesmo com o “rabo virado pra lua” naquele dia pq a linha do coletivo q chegava na Terceira havia sido cancelada a pouco tempo. Ufaaa! E assim após muito sacolejo na caçamba fomos deixados perto de Biritiba-Mirim, onde tomamos condução pra Mogi. Dali pra Sampa foi outros quinhentos, embalados no mundo dos sonhos, claro, onde só cheguei por volta das 22hrs.
 
No verão em geral trilheiro q se preze – eu incluído, diga-se de passagem – se embrenha na Serra do Mar pra ter como recompensa um rio ou cachu pra refrescar e lavar a alma. É o prêmio mais q merecido pela camelação e superação de obstáculos no caminho. Qdo se trata duma queda d’água acessível por gente contada numa das mãos, então nem se fala; é satisfação redobrada, não devendo em nada a qq conquista de cume montanhanhoso. Guardadas as devidas proporções, a travessia Guacá-Casa Grande abre mais possibilidades por este cafundó serrano. São caminhos e descaminhos q apenas precisam de tempo pra serem devidamente descortinados. E tempo é que nos sobra.
 
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Sobre o autor

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

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