Como o escalador foi parar sozinho na parede de Squamish? Investigação revela o que aconteceu

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Investigação da Climbing Magazine reconstrói os acontecimentos que deixaram um escalador isolado a cerca de 77 metros do solo e revelam uma sequência de problemas durante o rapel

O resgate de um escalador no Stawamus Chief, em Squamish, no Canadá, chamou a atenção mundial nesta semana depois que a equipe local de busca e salvamento utilizou drones para levar uma corda até o homem, que estava preso na parede durante a noite.

A operação chamou atenção não apenas pelo uso de dois drones — um deles empregado para auxiliar na iluminação e avaliação da parede e outro para levar uma linha ao escalador —, mas também pelas circunstâncias que levaram àquela situação.

:ENTENDA O CASO: Drones levam corda a escalador preso a 77 metros de altura em resgate no Canadá

Nas imagens divulgadas do resgate, o escalador aparecia sozinho, preso a uma ancoragem e sem uma corda que permitisse continuar a descida. A cena levantou uma pergunta entre escaladores e montanhistas: como ele havia chegado até aquele ponto da parede?

Stawamus Chief é uma das montanhas mais famosas de Squamish. Foto: Wikimédia Commons

Inicialmente, surgiram diferentes possibilidades. Alguns chegaram a questionar se poderia se tratar de uma situação de escalada solo ou de alguma briga entre parceiros. Também houve especulações sobre a possibilidade de um dos integrantes do grupo ter ficado para trás durante a descida por algum erro.

No entanto, uma reportagem da Climbing Magazine, esclareceu o que aconteceu.

O jornalista e editor sênior da publicação, Anthony Walsh, procurou Forrest Rynearson, gerente da Squamish Search and Rescue, para reconstruir os acontecimentos do dia 10/09. Segundo as informações obtidas por Walsh, o homem realmente fazia parte de uma equipe de três escaladores experientes, que havia completado a via Alaska Highway, uma escalada de cinco enfiadas graduada em 5.11d (7c na graduação brasileira), no Stawamus Chief. Eles não se desentenderam nem abandonaram o parceiro propositadamente.

O problema aconteceu durante o rapel

De acordo com a reconstrução apresentada pela Climbing, o trio chegou ao topo da via próximo ao pôr do sol e iniciou a descida por uma linha de rapel diferente da rota escalada por eles.

As duas cordas utilizadas pelo grupo foram unidas para permitir os rapéis mais longos. Posteriormente, os escaladores descobriram que uma delas tinha 61 metros e a outra, 65 metros.

Assim, eles decidiram que os dois primeiros integrantes iniciaram os rapéis em simultâneo utilizando cada um uma corda simples fixada. Enquanto o terceiro faria a descida usando as duas cordas para que eles pudessem recuperá-las.

Dessa forma, durante um dos rapéis os dois primeiros integrantes estavam descendo em simultâneo e ambos acreditaram que estavam a frente do parceiro. Foi então que cada um encontrou uma ancoragem diferente e por coincidência, exatamente no limite do comprimento da corda.

Um deles conseguiu alcançar uma ancoragem utilizando praticamente toda a extensão de sua corda de 65 metros. O outro chegou a uma segunda ancoragem com sua corda de 61 metros.

O problema surgiu quando ambos, acreditando estar na frente um do outro se desconectaram dos respectivos dispositivos de rapel e as pontas das cordas subiram ficando fora do alcance, devido a elasticidade natural do equipamento.

Só então eles perceberam que estavam em posições diferentes na parede, separados tanto vertical quanto horizontalmente.

O terceiro escalador ficou separado

O terceiro integrante da equipe desceu utilizando as duas cordas e conseguiu chegar até um dos companheiros. Com as cordas recuperadas, os dois tentaram lançá-las na direção do terceiro escalador, que permanecia em outra parte da parede. A distância horizontal, porém, impedia que conseguissem alcançá-lo.

Um dos escaladores conhecia a existência da chamada Astro Ledge, uma passagem que poderia permitir o deslocamento pela parede até uma posição próxima ao companheiro. Mas o problema era que as condições daquele trecho haviam mudado e ele não sabia.

Segundo a reportagem da Climbing, a região foi afetada por queda de rochas e aquilo que os escaladores esperavam encontrar como uma passagem utilizável estava muito mais exposta e instável do que imaginavam.

Diante da situação com serios riscos, eles desistiram da tentativa e acionaram a equipe de busca e salvamento.

Por que o resgate convencional era tão complexo?

A localização do escalador apresentava uma combinação complicada de fatores: era noite, tratava-se de uma parede de grandes dimensões e havia preocupação com queda de rochas na região, uma vez que houve um deslizamento próximoa região em que eles estava, tornando o terreno instável.

A vítima agradecendo após chegar em um ponto seguro na montanha. Imagem: Squamish Search and Rescue

As alternativas tradicionais também apresentavam riscos. Uma delas seria alcançar o local pela própria via e realizar uma operação de resgate durante a noite. Outra envolveria chegar ao topo do Stawamus Chief e fazer uma longa sequência de rapéis. Ou ainda a possibilidade de utilizar um helicóptero habilitado para operações noturnas.

Foi nesse contexto que a equipe decidiu testar uma solução diferente: utilizar um drone para entregar uma linha ao escalador.

A solução que veio pelo ar

A equipe utilizou um pequeno drone conectado a uma linha fina, com aproximadamente 100 metros de comprimento. Depois que o escalador conseguiu receber essa primeira linha, ela foi utilizada para levar até ele uma corda mais resistente que permitisse a descida.

O sistema também permitiu que os socorristas entregassem equipamentos adicionais, como uma lanterna e uma jaqueta para proteção contra o frio.

O escalador estava consciente, sem ferimentos e em condições de se comunicar com a equipe. Com a corda em mãos, conseguiu realizar a própria descida até um ponto seguro.

A operação foi considerada particularmente relevante porque mostrou uma possibilidade de utilização de drones em ambientes onde uma intervenção convencional poderia colocar os próprios socorristas em risco.

Uma sequência de pequenos problemas

A apuração também muda a compreensão sobre o episódio. O escalador não estava sozinho na parede por ter escolhido fazer uma escalada solo. Tampouco, segundo a reconstrução apresentada pela Climbing, há indicação de que tenha ocorrido um abandono deliberado ou um conflito entre parceiros.

Ele fazia parte de uma equipe de três pessoas que havia acabado de completar uma via difícil.

O que aconteceu foi uma sequência de circunstâncias durante a descida: dois escaladores que acreditavam estar na frente, ancoragens diferentes, cordas com comprimentos distintos, perda do acesso às pontas das cordas e, posteriormente, uma tentativa de alcançar o terceiro integrante que não funcionou.

Para Forrest Rynearson, ouvido por Anthony Walsh, a comunicação teve papel importante na sequência de acontecimentos. Uma confirmação simples entre os integrantes sobre a posição de cada um poderia ter evitado que os escaladores se desconectassem dos sistemas de rapel sem antes perceber a distância que os separava.

Ainda assim, Rynearson avaliou que o grupo tomou uma decisão importante ao reconhecer os limites da própria capacidade de resolver o problema. Depois de tentar alternativas e perceber que não conseguiriam alcançar o companheiro com segurança, os escaladores acionaram o resgate.

Leia a reportagem original de Anthony Walsh na Climbing Magazine 

 

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Sobre o autor

Maruza Silvério é jornalista formada na PUCPR de Curitiba. Apaixonada pela natureza, principalmente pela fauna e pelas montanhas. Montanhista e escaladora desde 2013, fez do morro do Anhangava seu principal local de constantes treinos e contato intenso com a natureza. Acumula experiências como o curso básico de escalada e curso de auto resgate e técnicas verticais, além de estar em constante aperfeiçoamento. Gosta principalmente de escaladas tradicionais e grandes paredes. Mantém o montanhismo e a escalada como processo terapêutico para a vida e sonha em continuar escalando pelo Brasil e mundo a fora até ficar velhinha.

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