Da arte de se concentrar escalando e outros mistérios…

0

Sempre tive o hábito de ler vários livros ao mesmo tempo e, em não raras ocasiões, diálogos surpreendentes se estabelecem entre as leituras que se intercruzam. Foi o que me aconteceu recentemente quando devorava, simultaneamente, duas obras tão díspares como Diez (posibles) razones para la tristeza del pensamiento, do crítico literário e filósofo George Steiner, e o excelente Em busca da alma de meu pai, de Jamling Tenzing Norgay. Enquanto Steiner desfia em seu pequeno ensaio a tradição filosófica ocidental para analisar o modo como pensamos, Jamling, que é filho de Tenzing Norgay, o sherpa companheiro de Edmund Hillary na conquista do Everest, narra sua escalada a essa montanha, enriquecendo a descrição dos acontecimentos da trágica temporada de 1996, tão conhecidos e divulgados em inúmeros outros livros e reportagens, com sua visão de mundo singular, marcada pela cultura sherpa e pelos valores budistas.

 

Steiner, apesar de se debruçar sobre um tema aparentemente sério e monótono, o faz com bastante ironia e a leitura é fluida e agradável. Ao “pensar o pensamento”, Steiner identifica, como uma das causas da tristeza desse ato tão humano, a nossa impossibilidade de controlá-lo: é muito difícil manter um pensamento linear e constante, nossa atenção é frequentemente desviada por elementos internos e externos e nossa imaginação vaga a seu bel-prazer. Somente alguns privilegiados, como matemáticos, cirurgiões, lógicos formais, místicos praticantes de meditação, enxadristas e músicos, dentre outros, conseguem chegar um nível de concentração tal que o pensamento é mantido em um fluxo condensado, como um raio laser da mente. “E os escaladores?”, pensei ao ler esta parte, nosso simpático filósofo se esqueceu de citá-los. Já se vê que Steiner nunca subiu uma montanha! O tema da relação entre nossa capacidade de concentração e a prática do montanhismo sempre foi de meu interesse e, apesar de já ter se tornado um lugar comum afirmar que escalar ajuda na concentração, algumas questões merecem uma maior reflexão: porque algumas vezes conseguimos nos concentrar e outras não? O que se passa quando atingimos um estado de concentração absoluta, tendo a sensação de superar nossos medos e alterando, até mesmo, a percepção do tempo, que parece quase parar por alguns instantes?
 
Na verdade, só me dispus a pensar sobre isso quando, após trocar Steiner por um voo até as ladeiras do Everest na companhia de Jamling Norgay, me deparei com uma página inteira sobre o assunto, uma coincidência tão grande que parecia uma resposta de Jamling às inquietações de George: “Nas escaladas, a presença de espírito necessária em situações de perigo de fato faz com que, naturalmente, alcancemos um estado de total concentração, e é essa concentração que gera a consciência e o sentimento de estarmos plenamente vivos. Cada ação tem significado, porque cada movimento é uma questão de vida ou de morte”, dizia Jamling. Quando comparo a prática do montanhismo com minhas atividades como gerente de projetos costumo enfatizar que, mais do que aplicar as metodologias de gestão para aperfeiçoar o planejamento e a execução de minhas expedições, é a experiência na montanha que acaba sendo mais enriquecedora, com as lições aprendidas em situações-limite servindo para um melhor desempenho profissional. A relação com a filosofia não poderia ser diferente e podemos nos atrever a desdobrar algumas questões apontadas por Steiner a partir das lições da montanha.  
 
Chamou-me a atenção uma observação feita pelo caro Steiner de que a prática contínua de estados de concentração profunda pode levar ao colapso mental, algo já percebido em muitos matemáticos e campeões de xadrez. É certo que, muitas vezes, saímos de nossas escaladas mentalmente arrasados, principalmente quando passamos por situações de risco elevado ou vivenciamos algum tipo de incidente ou acidente. Mas é nesse ponto que me afasto do filósofo, pois o esgotamento psicológico que sofremos na escalada é compensado pelo autocontrole que vamos adquirindo com a experiência. E vejo, ainda, um estado singular de concentração em que esse tipo de desgaste é totalmente abolido, durante o qual escalamos ou subimos mentalmente leves, totalmente conscientes de cada ato ou passo, mas de tal forma absorvidos pela atividade que é como se estivéssemos desligados do meio exterior, ou como se nossa relação com o espaço e com o tempo sofresse algum tipo de transformação.
 
É esse estado único e, infelizmente, passageiro, que me interessa. Tão difícil quanto traduzi-lo em palavras é atingi-lo na prática. A presença de espírito necessária em situações de perigo, descrita por Jamling, talvez nos ajude um pouco em sua compreensão. É certo que a percepção de um risco ou de uma ameaça iminente, ao nos deixar mais alertas, nos obriga a manter um nível de concentração mais elevado para que nenhum erro seja cometido em um momento crítico (e aqui, literalmente abrindo um parêntese, é importante enfatizar o caráter perceptivo e, portanto, não objetivo do risco, tão ignorado pelas metodologias de gestão de riscos, o que explica o fracasso muitas vezes observado em sua aplicação). Mas se tal situação-limite perdurasse, o estresse acumulado poderia levar a um colapso mental como o mencionado por Steiner. Mas nem sempre o leva. E eu arriscaria a dizer que, mesmo quando passamos por tais experiências, algo mais grandioso acontece e esvazia nossas mentes, fazendo-nos compreender, intuitivamente, que o que acabamos de vivenciar valeu a pena.
 
Apesar da dificuldade de uma explicação analítica para a concentração profunda obtida no ato de escalar, a ideia de uma alteração na forma como percebemos a realidade talvez seja a chave do mistério. Em outra parte de seu livro Jamling, seguindo suas crenças budistas, afirma que uma das motivações para se subir uma montanha é a possibilidade de um “breve relance da impermanência e da fragilidade da condição humana”. Ter um relance, mesmo que breve, da impermanência significa, no budismo, uma percepção da falta de existência sólida e independente em tudo que existe. No limite, chegaríamos a uma percepção do vazio e a sabedoria de se perceber o vazio está na essência do caminho budista, sendo esse o objetivo de um dos Três Treinamentos Superiores que compõem tal doutrina, a concentração. E não me parece coincidência que Jamling inicie suas reflexões sobre a concentração na montanha descrevendo as alterações que a percepção humana sofre quando se está nesse ambiente, possibilitando a intuição do vazio: “O que, na verdade, estamos vendo? Não há ali uma coisa real – apenas cor e forma. E quando paramos de dar rótulos ao que vemos, um sentimento de paz preenche esse vácuo, nos levando um passo adiante na compreensão do vazio”.
 
Mas não é preciso acreditar nos preceitos budistas para seguir meu raciocínio. Mesmo aqueles leitores que, convictos na materialidade física do universo, duvidem da ideia de impermanência, poderão aceitar a sensação de ter a “mente esvaziada” após um dia de escalada ou ao término de uma expedição de montanha. É essa possibilidade de “limparmos nossas cabeças”, trazida pelos misteriosos níveis de concentração obtidos durante a prática do montanhismo, que me distancia de Steiner. Ou que, pelo menos, me faz sugerir uma possibilidade não vislumbrada pelo perspicaz filósofo: nem todo estado de concentração profunda levaria ao colapso psicológico. Acho até mesmo que Steiner “bateu na trave” ao citar os músicos como seres privilegiados em sua capacidade de isolamento mental durante a execução de seus instrumentos. Não há como não me lembrar de um famoso conto do escritor argentino Julio Cortázar, El perseguidor, cujo protagonista, um saxofonista de jazz inspirado no lendário Charlie Parker, descreve suas experiências com o tempo quando está tocando, atingindo um peculiar estado de percepção em que poucos segundos parecem corresponder a muitas horas. E confessa seu desejo de que, se fosse possível controlar esse fenômeno, “Então um homem, não somente eu, mas ela e você e todas as pessoas, poderiam viver centenas de anos, se encontrássemos a maneira poderíamos viver mil vezes mais do que estamos vivendo por culpa dos relógios”. 
 
Será que o que nos motiva a subir uma montanha não está relacionado a desejos semelhantes, ou seja, poder usufruir desses estados especiais de percepção? Responder a esta questão seria um bom tema para outro artigo. Por ora, me contento com a conclusão de que nós, montanhistas, somos seres tão privilegiados como os músicos!
 
Compartilhar

Sobre o autor

Marcelo Delvaux é montanhista e guia profissional de montanha pela EPGAMT de Mendoza, Argentina, onde vive atualmente. Praticante de escalada em rocha desde a década de 90 e de escalada em altitude desde 2001, já participou de diversas expedições na Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Equador, Venezuela, Guatemala e Tibete, virando adepto de um estilo rápido e leve. Acredita que a multidisciplinaridade é o caminho para o crescimento pessoal e sucesso profissional e busca a integração de áreas como montanhismo, filosofia e gestão de projetos em seus treinamentos de liderança, motivação e desenvolvimento humano.

Comments are closed.